Curta metragem de Jimmy Christian, ’Desentupidor’ abre a grande fossa humana da invisibilidade social

Faça você mesmo. A filosofia do punk rock pode também ser aplicada à arte. Talvez este seja um breve resumo do enredo de “O Desentupidor”, novíssimo curta metragem assinado pelo artista visual Jimmy Christian, inspirado no conto da escritora amazonense Márcia Antonelli.

Transpor para o cinema um conto é um desafio para qualquer cineasta. E realizar a Sétima Arte num País que hoje tem orgulho de dizer que vira as costas para a cultura é, por si só, um grito de liberdade, um soco no estômago. É película com cara de riff de guitarra, peso de baixo e bateria na grande tela.

Jimmy Christian e sua trupe de empreendedores da cultura amazonense venceram a primeira etapa, que é meter a cara e transformar o sonho em obra. Cinema raiz feito por gente da terra, atores descobertos nas comunidades, universidades e bares.

O filme de Jimmy Chistian olha o homem por trás do ofício. O não tão cheiroso Raimundo Perfumado, brilhantemente interpretado pelo filósofo e escritor Marcos Ney, traz poesia em suas falas e sua triste história. O curta dá protagonismo a artistas locais, como Max Caracol, que interpreta Zé Arigó e ainda emplaca a trilha sonora original do filme. A atriz Daniele Coimbra interpreta Eunice, irmã do personagem principal. O ator mirim Rhuann Gabriel é o fio condutor da história, vivendo o personagem Mário Augusto. O menino é o olhar da escritora Márcia Antonelli sobre o mundo que o cerca, seus dramas e virtudes.

Relevante destacar a direção de fotografia de Jimmy, a maquiagem coordenada por Villy Gouveia, as locações que remetem a uma Manaus dos anos 80 e 90, com infraestrutura e saneamento básico precários. Existe um olhar crítico sobre a segurança pública na taberna gradeada do Defunto, interpretado por Evandro Menezes. Até a cachaça “Chora Rita”, ícone dos bebuns do século passado, foi resgatada pela direção de arte do filme.

O curta metragem conta a história de Raimundo Perfumado, um profissional que desentope fossas em troca de cachaça. A obra fala de invisibilidade social, fala de profissões e profissionais que estão na nossa memória afetiva. Afetiva, talvez, porque a sociedade ignora o gari, não enxerga o entregador de água, de pizza, de comida…Olhamos para eles como se não fossem gente, como se fossem merda. A grande fossa humana está aberta. Eis um dos debates propostos pelo excelente “Desentupidor”.

Author: Emanuel Mendes Siqueira

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