Vida e vacilos da deusa dos pequenos prazeres

tumblr_o8wa94w8ct1r70kbmo5_540 Eu tinha 17, usava camisetas largas, já andava nas beiradas instigada pela brasa em mim e naquele ano, entraram apenas quatro alunos novos na classe, minha atenção era constantemente atraída pro garoto de cabelos pretos, do fundo da classe assim como eu. Ele tinha pulseiras de couro grossas, pouco falava e sempre chegava e saía da escola com fones de ouvido. Certa vez cruzei com ele na loja de discos, fumamos um cigarro falando sobre música e duas semanas depois nos beijamos na cozinha durante a festa de aniversário de uma colega. Descobri sensações causadas pelos toques nos lugares certos e numa tarde sozinhos na casa dele, os filmes pornôs que eu tinha visto escondido desde criança, me diziam no que aquilo ia dar se mais peças de roupas fossem tiradas. Já não era muito de romance, achei que tava na hora, tirei a calcinha e o puxei pra cima de mim. Tava tocando metal na minha primeira vez e em outras 3 mais, antes que ele preferisse dividir os cigarros com a roqueira de peitos maiores da outra turma. “Eu gosto de você –ele disse uma vez- É só que... eu prefiro ficar com garotas mais experientes, entende? Que saibam o que fazer na cama. A gente pode continuar amigos, se você quiser.” Alguns anos se passaram os experimentos foram além do meu próprio corpo, tempos em que aquelas palavras ecoaram na minha cabeça, a brasa em mim virou fogo e eu fui ficando fascinada em o ver queimando. Eu só precisava de tempo, e um tanto mais de autoconfiança que só foi aparecer ali pelos 20, alguns amantes e um vibrador que comprei na minha primeira ida a um sex shop.  Ninguém me provocava orgasmos melhor do que eu mesma com aquele brinquedo, mas o que eu gostava mesmo era de provocar prazer, dos gemidos, de tirar o ar e depois fumar um cigarro com a tranquilidade de um predador que acabou de se fartar.
tumblr_o8wa94w8ct1r70kbmo7_r1_540

Ilustrações: Harumi Hironaka

Teve o cara que adorava uma boa chupada, ele vinha com tanta sede pra cima de mim que eu só conseguia pensar que aquele pau mal era tocado pela garota dele, parecia um disco furado me perguntando se eu tinha gozado dessa vez, mas não fazia nada pra me agradar. E eu via aquela coleira invisível no pescoço dele, não tinha qualquer tesão por homem domado e já tinha provado tudo que sairia dali, “Quem sabe na próxima.” falei antes de vê-lo sair correndo pela última vez, mais ou menos um mês depois meu celular tocou 29 vezes, fiquei chateada comigo mesma por ter desperdiçado uma calcinha linda de renda, que ele pediu como lembrança uma vez, mas tudo bem, nem era uma das favoritas. Aquele cheiro, aquele cheiro que exalava de mim não atraía nada mais que problema e gente caótica, mas eu não achava ruim, gostava da companhia dos loucos e condenados, eram quase sempre mais verdadeiros que o resto das pessoas, e mais divertidos. Aquela garota empurrava o remédio controlado pra dentro com um gole de cerveja, deixava transparecer o vazio nos olhos entre uma risada e alguns flertes, os caras da mesa tentando uma chance e ela me escolheu por que notou que eu olhava pro lado, decidiu que queria me ter nas mãos e me seguiu até o banheiro. Me prendeu contra a parede e me deu um beijo, suave, lábios macios, curto, quando dei um passo a frente, ela deu dois pra trás, sorriu e voltou pra mesa. Foi assim durante todo o pouco tempo que ficamos juntas, ela sempre dominante e eu curiosa pra saber como era se deixar levar, o que não era muito difícil quando aquele corpo ficava desnudo na minha frente, eu ficava hipnotizada com cada curva, cada traço, queria provar cada pedaço dela, queria o cheiro dela misturado com o meu. Ela era além de mim, me deu uma coleira, me fez andar de quatro pelo quarto que nem uma cadela, sentou na beira da cama de pernas abertas e puxou a guia até que eu estivesse entre elas, gostava quando mordia suas coxas e do que eu fazia com a língua, meu tesão aumentava junto com o dela e cheguei a gozar só fazendo ela gozar uma vez. Antes que eu me apaixonasse, lá estava ela na mesma mesa do bar depois de uns dias sem dar notícias, com um cara ao lado que beijava seu rosto e pescoço, acenei e sentei longe. Ela aparece de tempos em tempos entre um caso e outro, eu guardei a coleira. Outra coisa que eu guardava bem era o meu coração trancado no peito, eles iam e vinham e não havia dor. Mas esse, veio quebrado em três partes, se eu soubesse que a tristeza nele ia se atrair pela minha, não teria chegado tão perto. Era de uma intensidade inconstante, quase pueril, fui o brinquedo novo favorito dele e a parte das minhas coxas que não ficavam cobertas pelas meias, era onde deitava e tinha os poucos momentos de sono tranquilo, naqueles dias de altos e baixos. Eu tinha esse vício de querer mais das pessoas do que eu poderia ter e ele me mantinha presa com aquelas pequenas doses, afeto a conta-gotas e o sexo mais passional que eu já tinha provado até então, as marcas dos tapas e mordidas me deixavam pensando nele dia e noite, entrava em mim feroz, ficava ainda mais excitante coberto do meu sangue, fazia minhas pernas tremerem e os lençóis ficavam molhados de oferenda.  Bebeu de mim até me deixar quase seca. Quando se sentiu pronto pra dar de novo o amor que me ofereceu, se levantou e saiu sem olhar pra trás. Fiquei pedaços e fúria, nem tinha muito de mim pra ser destruído, mas eu só queria machucar tudo em que eu pusesse as mãos. Dias seguidos despertando de sonhos perturbadores que pareciam o inferno pras minhas emoções, como se eu estivesse condenada a reviver cada dor causada em mim, de novo, e de novo, e mais uma vez. Mas se os beijos e orgasmos permanecessem em mim assim como as inúmeras cicatrizes, certeza que eu ficaria na sujeira dos pecados do meu trono feito de lama. Eu tento parar mas o fogo anda comigo, tatuei feitiços na minha pele que protegem o corpo, mas a minha alma ainda se abre como uma puta bem paga quando os insaciáveis me encontram. Eu reino entre quatro paredes, quando a noite chega eles rezam pra mim. Eu sou a deusa dos pequenos prazeres, no fim eu não morro.

Author: Ells

Share This Post On
468 ad