Dans le pont de suicide – La vie
fev14

Dans le pont de suicide – La vie

Quando Lilouche retornou, trouxe uma mochila repleta de pacotes contendo doces e salgados. Também tinha na mochila dois pares de meia, duas camisas e uma pequena toalha de rosto enrolada numa escova de dente, mais um sabonete com cheiro de lavanda. Nos braços uma jaqueta junto com um cachecol. Ainda com o olhar que pendia ora para o chão ora para o nada, Tarik pegou tudo e agradeceu com um curto "Merci". Voltou pelo mesmo caminho que viera minutos antes e seguiu direto para o Parc des Buttes Chaumont. Naquela noite ele tinha para onde ir. Um pouco de comida. Roupas novas e cheirosas. Além de algum fio de esperança no futuro. Entrou no parque feito uma sombra atravessando pelo meio da vegetação. Enfiou-se dentro de um arbusto e mais uma vez deixou escapar um choro incontido, repleto de memórias que ninguém poderá apagar. Adormeceu enrolado no cachecol que ganhou de Lilouche. Foi o primeiro ato espontâneo de humanidade que Tarik Latiff sentiu em meses. Acordou esfregando o rosto naquela lã macia que envolvia seu pescoço. Abriu a mochila e conferiu o que tinha para comer. Em uma embalagem estava estampado uma imagem com crianças sorrindo. Tarik lembrou da última vez que viu os irmãos na Croácia. Ele não podia controlar essas memórias, nem mesmo a tristeza. Era um buraco muito grande na sua existência. Contudo, abriu o pacote e começou a comer. Lambia os dedos depois de cada doce. O sol da manhã alcançava o seu ponto mais alto naquele dia enquanto Tarik não tinha sequer saído de dentro daquele arbusto. Parecia estar curtindo o lugar como um quarto de hotel. Porém, bem no fundo, aquele rapaz solitário tinha esperança de reencontrar Lilouche. Esperou o sol pender a 60 graus no horizonte para finalmente sair da toca feito um animal.   A primeira vista que teve ao sair do arbusto foi um pequeno grupo de jovens em idade escolar que fumavam maconha. Todos se assustaram com Tarik, e sem alarde, lançaram o baseado no chão e se dispersaram. O rapaz sequer sabia reconhecer o cheiro ou mesmo o aspecto da cannabis. Embora o ato de fumar continue muito comum na Síria. Por desprezo aos costumes que trazia do passado, Tarik pegou aquele cigarro e fumou tudo, até a última ponta. Quando começou a sentir o barato da erva - sorriu. Mas sorriu tanto que gargalhava. Um mix de vertigem somado a amplificação dos diversos sons do parque o fizeram embarcar na sua primeira onda. Talvez por sorte ou destino, a maré de tristeza começava a se recolher para o mar aberto e profundo. Filho de uma clássica família...

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Vida e vacilos da deusa dos pequenos prazeres
jan02

Vida e vacilos da deusa dos pequenos prazeres

Eu tinha 17, usava camisetas largas, já andava nas beiradas instigada pela brasa em mim e naquele ano, entraram apenas quatro alunos novos na classe, minha atenção era constantemente atraída pro garoto de cabelos pretos, do fundo da classe assim como eu. Ele tinha pulseiras de couro grossas, pouco falava e sempre chegava e saía da escola com fones de ouvido. Certa vez cruzei com ele na loja de discos, fumamos um cigarro falando sobre música e duas semanas depois nos beijamos na cozinha durante a festa de aniversário de uma colega. Descobri sensações causadas pelos toques nos lugares certos e numa tarde sozinhos na casa dele, os filmes pornôs que eu tinha visto escondido desde criança, me diziam no que aquilo ia dar se mais peças de roupas fossem tiradas. Já não era muito de romance, achei que tava na hora, tirei a calcinha e o puxei pra cima de mim. Tava tocando metal na minha primeira vez e em outras 3 mais, antes que ele preferisse dividir os cigarros com a roqueira de peitos maiores da outra turma. “Eu gosto de você –ele disse uma vez- É só que... eu prefiro ficar com garotas mais experientes, entende? Que saibam o que fazer na cama. A gente pode continuar amigos, se você quiser.” Alguns anos se passaram os experimentos foram além do meu próprio corpo, tempos em que aquelas palavras ecoaram na minha cabeça, a brasa em mim virou fogo e eu fui ficando fascinada em o ver queimando. Eu só precisava de tempo, e um tanto mais de autoconfiança que só foi aparecer ali pelos 20, alguns amantes e um vibrador que comprei na minha primeira ida a um sex shop.  Ninguém me provocava orgasmos melhor do que eu mesma com aquele brinquedo, mas o que eu gostava mesmo era de provocar prazer, dos gemidos, de tirar o ar e depois fumar um cigarro com a tranquilidade de um predador que acabou de se fartar. Teve o cara que adorava uma boa chupada, ele vinha com tanta sede pra cima de mim que eu só conseguia pensar que aquele pau mal era tocado pela garota dele, parecia um disco furado me perguntando se eu tinha gozado dessa vez, mas não fazia nada pra me agradar. E eu via aquela coleira invisível no pescoço dele, não tinha qualquer tesão por homem domado e já tinha provado tudo que sairia dali, “Quem sabe na próxima.” falei antes de vê-lo sair correndo pela última vez, mais ou menos um mês depois meu celular tocou 29 vezes, fiquei chateada comigo mesma por ter desperdiçado uma calcinha linda de renda, que ele...

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Arrocha Alvorada!
nov23

Arrocha Alvorada!

Fui vender cerveja e batida na frente do Cala Boca e Beija Logo no Sambódromo, uma moça encostou no meu isopor e ficamos batendo papo por um tempo, logo depois ela me convidou pra casa dela que ficava logo alí no Alvorada, não pensei duas vezes, peguei dois litros da batida de maracujá e me taquei no rumo de dentro. Chegando nas biqueiras da Avenida J, nos pegamos no meio da rua e acabamos entrando numa casa em construção que aparentemente estava abandonada, sacos de cola e pontas de cocoroco davam uma decoração especial ao ambiente, subimos para o segundo andar e lá mesmo transamos. Me apaixonei. Aquela menina tinha algo que me fez sentir vontade de ser diferente, senti vontade de fazer um curso no Grupo Sucesso, tomar um rumo na vida, sei lá. Após conversarmos sobre tudo, ela adormeceu em meus braços e eu percebi que seria feliz se aquela noite nunca acabasse. Lá pelas 5:30 ela acordou do meu lado e me pediu desculpas, falou o que ocorreu naquela noite, ela brigou com o namorado, flagrou ele ficando com outra garota voltando do banheiro, decidiu dar o troco da pior forma, aleatoriamente eu fui escolhido para fazer parte dessa história. Acendi meu último Euro e ficamos sentados na ponta da laje, nesse momento, nunca na minha vida tudo ficou tão sincronizado: o coração apertando, meu cigarro queimando, o sol nascendo no horizonte e o namorado dela dobrando a esquina com outros 6 amigos. Ela gritou "corre!", sorri e dei meu último trago. O Alvorada é um bairro perigoso, e isso nada tem a ver com os galerosos de abadá tentando te furar com espeto de churrasco e vigas de obras abandonadas, o perigo está nas mulheres que machucam seu coração. Carlos Castilho, vendedor ambulante, morto no bairro Alvorada após uma briga de galera, segundo o Portal do...

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“Recordar é viver, eu ontem sonhei com você…”
nov02

“Recordar é viver, eu ontem sonhei com você…”

Ei, vocês de Manaus, lembram que nas décadas de 80 e 90 hoje era dia de Banda do Consciente? E que mais tarde, o Réveillon fervia no Atlético Rio Negro Clube? Era nosso primeiro grito de carnaval! A gente pulava a tarde toda e ainda tinha pique para a noite, era bom demais! Nós, meninas, não tínhamos a paranoia do trio salão – escova – maquiagem, éramos bonitas ao natural. A maioria não bebia nem usava drogas, não precisávamos de muito para ser feliz. Éramos menos consumistas, e apesar de vaidosas, não levávamos o glamour tão a sério como hoje, em que as meninas se produzem tanto, até para um simples Chá de Beleza, que mais parecem modelos na passarela. Depois que o tempo passa, a gente entende que a verdadeira beleza da juventude é simples e natural, pele fresca, sorriso farto, cabelos ao vento, muitos sonhos na cabeça e paixões no coração... Nosso encanto e felicidade vinham de dentro! Tínhamos menos liberdade dada pelos pais, mas nos permitíamos ser mais livres e soltas. Acho que ainda refletíamos um pouco da rebeldia de 1968. Era muita alegria e pique para passar a tarde toda pulando na Avenida Joaquim Nabuco e descer com a Banda do Consciente pelas ruas vizinhas. Chegando em casa, bastava um banho, uma caprichada no visual e sem recorrer a grandes truques de beleza, estávamos novamente prontas e lindas para brilhar no Réveillon Nuit Blanche do Rio Negro. O nosso reinado de meninas passou... Tenho saudades, mas posso dizer que aquele tempo foi muito bem vivido! Nem melhor nem pior que o presente, mas bom o suficiente para deixar grandes recordações. Feliz Ano Novo, sem a Banda do Consciente, sem Réveillon do Rio Negro, mas com um monte de novas oportunidades que se abrem à nossa frente! A vida é isso, um constante...

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Curitiba
out21

Curitiba

 Ruas, praças  e amores Pelas calçadas muitas cores Um bom caminho para todos Passa o cachorro, o neném. A mamãe, o trem. A ciclista colorida pedala distraída Escolha uma praça Curta sua graça O presente é agora Nos dias nublados Chore sem ser incomodado Suba sete degraus na Santos Andrade Sente e deixe as lágrimas rolarem. Aquela escadaria sabe da vida Escutou muitos segredos Acolheu e debulhou Aquilo que restou De um amor que acabou Talvez já estivesse  lá O  tempo prensado nos degraus Na solidão dos caminhos Chorei minhas lutas Confessei meus fracassos Chorava por mim Pelos mendigos da praça E toda sorte de graça Estava bem fundo Longe na minha viagem De súbito escutei; Mariana tu não me ama? Clarice meu amor é assim! Por que não disse antes? Porque antes já passou! Agora quem ti ama Me deixou. Mas Clarice... Não me virei para olhar Era tudo tão íntimo Chorei tanto Quase perdi a hora Resolvi olhar para trás A garota descia as escadas O cabelo chanel  revelava A nuca de um rosto que jamais vi Ficou comigo A única peça, daquele Quebra-cabeça. Enxuguei as lágrimas. Como sempre ninguém viu Desci as escadas Atravessei a praça Continuo on the...

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Cravo e Canela
abr15

Cravo e Canela

Quando Jorge Amado descreveu de maneira ímpar a vida e o mundo de Gabriela com suas, dores, conquistas e desafios, pode-se dizer que foi um estrondo literário. Até hoje é a obra mais traduzida deste excepcional escritor Brasileiro. Uma mulher que surgiu das entranhas do agreste com sua cor de canela e uma sensualidade capaz de inebriar até mesmo os padres. Quiçá os rapazes e homens casados. Porém, quero escrever sobre Daniela Blois, a personagem principal do musical do prestigiado Diretor João Falcão. Em um paralelo com os personagens de Jorge Amado, só para começar essa história devo lhes dizer que fui vizinho de Daniela Blois. Tenho alguns amigos em comum e  costumava frequentar alguns lugares onde ela também aparecia. Quero escrever apenas e tão somente sobre minhas impressões. Jamais me apaixonei por ela, embora em algum momento, quando muito perto, Daniela tenha despertado em mim o que Gabriela despertou em milhões de leitores (milhões) pelo mundo a fora. Esta não é uma carta endereçada, mas sim, uma explanação aberta sobre os desejos que certas pessoas despertam. Assim sendo, procuro na minha memória a primeira vez. Quando foi a primeira vez que meus olhos tocaram os ombros de Daniela? Nada muito preciso. Posso crer que foi no centro de Manaus em frente ao Teatro Amazonas durante uma apresentação do Maracatu Eco da Sapopema.  Uma moça de pele morena no Amazonas é tão comum quanto as folhas verdes da Amazônia. A natureza é muito sabia em seus desígnios misteriosos porque aos teus olhos não cabem toda beleza. Nem tudo te parecerá claro à primeira vista. Assim são as belezas de Gabriela e Daniela. Sandálias romanas, vestidos em cores primárias. Eu bem sei que notei Daniela antes de João Falcão. Vale ressaltar que sempre a certa distância. Nunca de perto, não fosse por um esbarrão em uma casa de chão batido, onde por vezes apareci com ex-namoradas. Acontece que se dez vezes notar Daniela, dez vezes te surpreenderá. Comigo, não se trata de um desejo sexual, mas sim, de puro apreço por uma beleza que não preço nem rótulos. Dessas selvagens que saem por ai com o cabelo solto, sobrancelhas grossas, e uma pele sempre dourada pelo destino.  Daniela é como uma orquídea. Assim de passagem, indo ou vindo, é impossível notar toda essa beleza contida em pequenos detalhes que se somam a cada mudança de posição. Ao contrário de Gabriela que fugindo da miséria deixou o agreste com os olhos famintos para sorte e/ou desgraça do Nacib. Daniela é estudada, médica formada. Por todos os lugares onde andei nunca vi nem ouvi nada sobre ela. Salve por alguns comentários rasteiros, desses que...

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