Só mais um dia de carnaval
mar07

Só mais um dia de carnaval

Foi tudo tão terrivelmente familiar. Eu não esperava tanto dessa vez, só que uma porta fosse aberta nesse ciclo vicioso de onde eu não consigo escapar. Pelo menos o choro não é o mesmo. Ainda me encontro tão bem nas letras de Joy Division, tão confortável quanto uma camisa velha de dormir. A bebida é outra, mas o gosto é igual na minha boca, o cheiro da fumaça de cigarro dessa vez entra pela janela, mas me faz sentir em casa. Quase um caso de síndrome de stocolmo com esses sentimentos baixos. As chances de viver qualquer coisa com pureza estão chegando perto do prazo de validade, que só agora eu me dei conta ter. Tô aos tapas comigo mesma tentando uma chance de viver o agora. Sem ficar na expectativa do que poderia ser, soltar da mão que fica me puxando pro passado, estar com cada parte do meu corpo no mesmo lugar. Cansa isso de se guardar, se controlar, eu detesto números, que dirá contar sentimentos. Tô transbordando de tanto esperar pela hora certa de me derramar, me escondendo atrás do receio de mais uma vez fazer a aposta mais alta da mesa e perder tudo, me perder toda. Que castigo terrível é prender um animal selvagem. Um coração selvagem. Depois de mais essa garrafa eu vou dar um tempo, não sei como faz pra anestesiar uma pessoa com tanta alma, não sei como essa alma se alimenta com tão pouco das amostras servidas em bandejas. Só me deixa ser o amor que eu posso ser de melhor. Me deixa tentar, eu não cobro nada não. Mas também não pega se for só pra estragar. Eu sempre chamo a apatia quando sinto dor, aí eu quero nem que seja a dor de volta quando tudo que eu sinto é nada. A felicidade se torna possível até nos domingos, se eu começo as manhãs só deitada contigo na cama por algumas horas. E é assustador se sentir assim tão bem, de um jeito tão simples, mas num lugar tão difícil de chegar. Às vezes eu sorrio bem boba olhando alguma foto tua, sintoma grave de afeto, uma febre tão boa. Fica um pouquinho aqui comigo, vamos ser tão bonitos juntos daquele jeito que revira estômagos alheios. Poderiam durar dois dias as noites que andamos bêbados por aí, eu ainda sentiria falta de ti na manhã seguinte ao acordar e não te ver do meu lado. Eu tento te alcançar, você não deixa. Detesto admitir que um pedacinho de mim se entristece sabendo que a tua vida vai seguir bem logo depois disso, enquanto a minha vai parar por...

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classe média de média idade.
fev14

classe média de média idade.

todo aniversario é também uma morte o abandono de um tempo onde as costas pesam mais que mochila esvaziada de apego lançada a sorte os cortes na pele deixam de ser igarapés e desaguam em rios amazônicos alagando as rugas as horas vagarosamente acomodam o corpo e os risos de tão sinceros veem e vão em velocidade supersônica dão contorno a graça repetida e repelida que dá forma a máscara social ... sabe: aquele sorriso "amarelo tanga de velho" - do tipo suporte de pochete. enruga o novo o mar do sudeste já não esfria o pudor o rubor calcificado na face maquiada tem cachoeira de produndidade adequada com pedras que dizem mais que drumond o povo pinta a calçada em lata de cola cor de neon a estoria era de tempo mas falar de idade em vespera de assoprar velas pro calendário? permuto o bolso pelo recado que pode vim em fígado ou rins troco a bicileta pelos patins em direção a Rússia pra ver se o frio trata a figura caracterizada e reproduzida desse sorriso de lado de lado parcial tem juízo de valor e acordo silencioso moral olho pro sorriso feito verruga dentro de iris de cor menstrual alface nos dentes da frente de mais um amor matinal o aniversário romano veste saia mundana em tempos de desconstrução de padrões, pinta as unhas pra afugentar os aldeões que soltam rojões pra avisar a montanha que Maomé cobra passagem as velas acendem-se antes dos parabéns e escrevo pra parar de soprar é quente o tempo do maturar e não adianta tentar esfriar com cerveja se o que a carne pede é mais planta nas margens faz mais uma tatuagem pra cravar modernidade a classe média de média idade tá bolada de...

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Dans le pont de suicide – La vie
fev14

Dans le pont de suicide – La vie

Quando Lilouche retornou, trouxe uma mochila repleta de pacotes contendo doces e salgados. Também tinha na mochila dois pares de meia, duas camisas e uma pequena toalha de rosto enrolada numa escova de dente, mais um sabonete com cheiro de lavanda. Nos braços uma jaqueta junto com um cachecol. Ainda com o olhar que pendia ora para o chão ora para o nada, Tarik pegou tudo e agradeceu com um curto "Merci". Voltou pelo mesmo caminho que viera minutos antes e seguiu direto para o Parc des Buttes Chaumont. Naquela noite ele tinha para onde ir. Um pouco de comida. Roupas novas e cheirosas. Além de algum fio de esperança no futuro. Entrou no parque feito uma sombra atravessando pelo meio da vegetação. Enfiou-se dentro de um arbusto e mais uma vez deixou escapar um choro incontido, repleto de memórias que ninguém poderá apagar. Adormeceu enrolado no cachecol que ganhou de Lilouche. Foi o primeiro ato espontâneo de humanidade que Tarik Latiff sentiu em meses. Acordou esfregando o rosto naquela lã macia que envolvia seu pescoço. Abriu a mochila e conferiu o que tinha para comer. Em uma embalagem estava estampado uma imagem com crianças sorrindo. Tarik lembrou da última vez que viu os irmãos na Croácia. Ele não podia controlar essas memórias, nem mesmo a tristeza. Era um buraco muito grande na sua existência. Contudo, abriu o pacote e começou a comer. Lambia os dedos depois de cada doce. O sol da manhã alcançava o seu ponto mais alto naquele dia enquanto Tarik não tinha sequer saído de dentro daquele arbusto. Parecia estar curtindo o lugar como um quarto de hotel. Porém, bem no fundo, aquele rapaz solitário tinha esperança de reencontrar Lilouche. Esperou o sol pender a 60 graus no horizonte para finalmente sair da toca feito um animal.   A primeira vista que teve ao sair do arbusto foi um pequeno grupo de jovens em idade escolar que fumavam maconha. Todos se assustaram com Tarik, e sem alarde, lançaram o baseado no chão e se dispersaram. O rapaz sequer sabia reconhecer o cheiro ou mesmo o aspecto da cannabis. Embora o ato de fumar continue muito comum na Síria. Por desprezo aos costumes que trazia do passado, Tarik pegou aquele cigarro e fumou tudo, até a última ponta. Quando começou a sentir o barato da erva - sorriu. Mas sorriu tanto que gargalhava. Um mix de vertigem somado a amplificação dos diversos sons do parque o fizeram embarcar na sua primeira onda. Talvez por sorte ou destino, a maré de tristeza começava a se recolher para o mar aberto e profundo. Filho de uma clássica família...

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Arrocha Alvorada!
nov23

Arrocha Alvorada!

Fui vender cerveja e batida na frente do Cala Boca e Beija Logo no Sambódromo, uma moça encostou no meu isopor e ficamos batendo papo por um tempo, logo depois ela me convidou pra casa dela que ficava logo alí no Alvorada, não pensei duas vezes, peguei dois litros da batida de maracujá e me taquei no rumo de dentro. Chegando nas biqueiras da Avenida J, nos pegamos no meio da rua e acabamos entrando numa casa em construção que aparentemente estava abandonada, sacos de cola e pontas de cocoroco davam uma decoração especial ao ambiente, subimos para o segundo andar e lá mesmo transamos. Me apaixonei. Aquela menina tinha algo que me fez sentir vontade de ser diferente, senti vontade de fazer um curso no Grupo Sucesso, tomar um rumo na vida, sei lá. Após conversarmos sobre tudo, ela adormeceu em meus braços e eu percebi que seria feliz se aquela noite nunca acabasse. Lá pelas 5:30 ela acordou do meu lado e me pediu desculpas, falou o que ocorreu naquela noite, ela brigou com o namorado, flagrou ele ficando com outra garota voltando do banheiro, decidiu dar o troco da pior forma, aleatoriamente eu fui escolhido para fazer parte dessa história. Acendi meu último Euro e ficamos sentados na ponta da laje, nesse momento, nunca na minha vida tudo ficou tão sincronizado: o coração apertando, meu cigarro queimando, o sol nascendo no horizonte e o namorado dela dobrando a esquina com outros 6 amigos. Ela gritou "corre!", sorri e dei meu último trago. O Alvorada é um bairro perigoso, e isso nada tem a ver com os galerosos de abadá tentando te furar com espeto de churrasco e vigas de obras abandonadas, o perigo está nas mulheres que machucam seu coração. Carlos Castilho, vendedor ambulante, morto no bairro Alvorada após uma briga de galera, segundo o Portal do...

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Rapper amazonense Dbob da Silva lança projeto solo
jun28

Rapper amazonense Dbob da Silva lança projeto solo

Dbob da Silva é o nome artístico de Matheus da Silva Pinheiro, 27 anos, amazonense, percuterista, percussionista, rimador, embolador, repentista, MC e outras cositas más. Dbob Pero No Mucho é o novo single assinado pelo músico em parceria com o DJ Oluap. O single faz parte do novo projeto solo que mistura rock psicodélico, samba, rap e percussão. Durante um rolê pela Praça da Saudade, conversei com o artista sobre essa volta, não só para a Manaus, mas também para a produção artística na capital amazonense. "Eu acredito que meu som possa ser popular,  posso tocar desde um festival de música eletrônica até o aniversário da cidade", argumentou. Com uma pegada mais experimental sem esquecer a veia do rap, Dbob está reunindo os ‘parça’ para essa nova jornada, “Além do Oluap, também tem o Milton Jorge da Cabocrioulo que também vai me ajudar a produzir e outros amigos músicos que apostarem nas minhas letras”, explicou. Depois de dois anos morando na capital roraimense, está de volta com gás total para as noites manauaras. O próximo show marcado, é neste domingo, dia 02 de julho, no AoMirante Bar. No palco, quem assume a festa são as bandas Linha Rasta, Casa de Caba e Cabocrioulo. Correria Refrescando a memória dos esquecidos, Dbob começou com 15 anos, com a Mr. Rulz, depois tocou na Br Roots, fez um estágio na Cabocrioulo, tocou na Livre Prisionero nos tempos áureos de Cauxi Espaço Cultural e com a Linha Rasta até hoje na atividade. Os dois últimos anos foram frenéticos na carreira do artista, “Participei de um projeto com o Regiojazz e Ben Charles que viajei por dez estados duas vezes, toquei com a banda Los The Os e também fiz participações no novo disco da Jam Rock”, lembrou. RIMA Anjinho da guarda de muitos MCs, com ‘Da Silva’ não foi diferente. DJ MC Fino enxergou longe o potencial do moleque em fazer rimas free style, “O Fino que me colocou pra batalhar no Aomirante, na época eu nem sabia que podia, depois foi nos shows da Linha Rasta, o público já esperava o momento da rima e assim eu fui melhorando”, argumentou. Saúde Largou a faculdade de Educação Física na Universidade Federal do Amazonas para se dedicar exclusivamente à música. Isso não afastou a militância em prol da saúde, Matheus é um dos ativista da legalização da maconha. No ano passado, ele foi criador do samba enredo do Bloco do Mujica em Boa Vista-RR, um bloco de carnaval em menção ao ex-presidente do Uruguai, José Mojica que incentiva o livre debate sobre a erva e seus benefícios medicinais. Quer ouvir um pouco sobre o som...

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O rei e o bobo
maio30

O rei e o bobo

Rei Narciso era conhecido por sua benevolência. Tinha assumido o trono cedo porque seu pai foi acometido de uma grave doença na qual não resistiu. Cresceu como rei e homem diante dos olhos curiosos e com o auxílio dos conselheiros tonou-se um excelente líder. Foi-lhe arranjado um casamento com uma bela princesa, unindo reinos e selando a paz, visto que antes já haviam batalhado por território. Ao repousar os olhos sobre ela pela primeira vez teve certeza da sorte que havia tido, não apenas seria uma jogada política, mas a mais bela figura que ele poderia ter ao seu lado. A paixão foi fulminante, apressando o casamento. Não queria mais ficar longe dos seus olhos. Seu reino prosperava, lhe auxiliando a justa rainha sempre intercedendo por aqueles que a ela chegavam. Tudo parecia em ordem, mas algo incomodava o rei em seu íntimo: a ausência de herdeiros. Apesar de suas insistentes tentativas sua senhora parecia incapaz de trazer-lhe tal alegria e, com isso, a cada dia seu coração endurecia. Seus súditos que tanto o amavam passaram a lhe temer, ao ponto de ouvir as trombetas que anunciavam a sua chegada e recolher-se em suas casas, com receio de qual seria a atitude descabida que suas mãos realizariam daquela vez. Costumava jogar na masmorra àqueles que ousavam não abaixar a cabeça ante a sua presença. Sua aparência, antes jovial, já não era a mesma, seu cenho estava sempre franzido, revelando a amargura que trazia junto ao peito, os cabelos brancos lhe cobriam a cabeça. Enquanto sua esposa permanecia reluzente, não se deixando abalar por toda a loucura que tomara conta do seu rei, que também passou a beber excessivamente e cultivar em harém de meretrizes, entre elas, sua favorita, Madalena. E somente então a sua desgraça chegou à rainha. Antes conhecida como justa passou a se esconder no castelo. Já não saia do seu quarto, entrando numa profunda depressão. Não suportando as constantes crueldades do seu marido, encontrou conforto nos braços da morte, sua antiga conhecida, a rainha da coroa de espinhos, que várias vezes tirou a vida de dentro do seu ventre, fazendo com que ela perdesse de forma cruel todas suas tão desejadas gravidezes. Foram três antes que desistisse da vida, de Narciso, de tudo. Narciso encontrou o corpo de sua mulher morta, lívida, fria, com olhos vidrados. Sentiu tanta dor ao ponto de cair de joelhos. Como uma criança, deitou ao seu lado vertendo lágrimas nunca antes vistas e implorando que deus devolvesse seu amor, o que não ocorreu. O silêncio do castelo era quebrado pelos seus berros de horror, seus pedidos de desculpas que sua esposa...

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