Talvez não fosse pra continuar sendo

Acho que eu gostava daquelas amostras de vida a dois que tinha com ele, foi o primeiro que me levou pra almoçar, porque os jantares costumávamos passar na cama com algum delivery, tipo a pizza de frango com catupiry que virou quase tradição nos nossos domingos. Ou as idas ao mercado e o eterno dilema do que levar, na maioria das vezes só besteira e algum congelado, eu nunca fui muito boa na cozinha e ficava ainda pior sob a supervisão dele, nunca confiava nas minhas medidas, era ele quem morava sozinho mas eu parecia saber mais sobre ser só e sobre me adaptar também, eu fazia o suficiente pros dois, pra não sobrar e estragar. Mas eu não sou moça prendada e ele quem era o chef na maioria das vezes, sempre soube que se eu fosse ter um par, teria que ser um assim.

Pouco saíamos, mas essas raras ocasiões eram quase testes, ele ficava do meu lado e me abraçava e beijava de repente como se soubesse que eu era dele, isso me fazia querer sair correndo por que nenhum cara pareceu se importar tanto antes, me deixavam completamente solta, coisa que não se faz com um animal selvagem. Eu andava e dançava e conversava, mas me comportava.2 Ele passava. Só que pra se entreter na noite ele bebia e bebia e bebia um pouco mais, eu não gostava muito disso e também não gostava de mandar parar, mas ele entendia nas minhas meias palavras, pelo menos a saideira era realmente a saideira com ele, e quando chegava em casa meio bêbado, jogando os sapatos pra um lado, celular e chave pro outro e caindo na cama, eu colocava tudo no lugar, colocava ele no lugar, tirava as meias, a calça, conversava sobre seja lá o que ele achasse interessante conversar naquela hora ou simplesmente o botava pra dormir. E eu passava.

Mas não lembro de alguma vez termos andando de mão dadas, o que tivemos nunca teve nome, todo mundo parecia saber mais da gente que nós mesmos. As coisas iam simplesmente acontecendo. Saímos uma vez e só voltei pra casa no dia seguinte depois de dormirmos juntos, só dormimos. Aí no final de semana seguinte perguntou se eu não queria passar com ele de novo, assim foi por alguns finais de semana mais, até passarmos a nos ver durante a semana também e lá se foram alguns meses. A cama dele era de solteiro e o pouco espaço nunca foi problema pra nós, assistia tv deitada no colo dele enquanto fumava um cigarro, dormia tranquila dentro daquele abraço; ele tinha um sono pesado, relaxava do meu lado como se eu fosse clonazepam, acho que nem se eu tivesse coragem de acordá-lo eu conseguiria. E quando a cama virou tamanho casal, ainda virava pro meu lado pra dormir agarrado comigo.

Ele nunca foi de demonstrar sentimentos com palavras, mas fazia várias outras coisas que passavam a mensagem, como trazer os doces que eu gostava quando chegava da rua, respeitar e lembrar cada uma das minhas peculiaridades alimentares, mesmo que sempre brincasse dizendo que tomate era uma delícia e que eu deveria comer, até mesmo levantar super cedo no sábado pra me levar no trabalho, que era bem longe da casa dele. Pra algumas pessoas isso deve ser até prova de amor. Ele estava sempre lá quando eu precisava, e eu só estava, por que ele nunca pareceu precisar de mim.

Mas o que a gente tinha nunca teve nome, a vida a dois começava a ter gosto de vida a um e meio, com alguma das partes mostrando só metade do interesse vez e outra. Depois de dois anos ele ainda soltava  da minha mão quando eu tentava segurar, até que eu parei de tentar, tava sempre cansado demais pra tomar uma cerveja comigo e meus amigos mas tinha energia pra sair algumas vezes sem mim. Passamos as festas de final de ano sem nos vermos, ele fez os planos dele e não deu chance de incluí-lo nos meus.

Não tínhamos “regras” também e de repente passávamos dias sem contato e parecia tudo bem, até que numa dessas noites achei estranho estar a tempo demais na minha própria cama eu fui pro bar, esbarrei com um antigo caso por lá e depois de várias brejas e sambas ele me beijou, eu beijei de volta.

1Acordei com raiva de mim, acordei também com raiva dele por me fazer sentir tão sozinha que aceitei companhia de outros lábios. Ele me ligou, chamou pra comer, havia muito silêncio e ele deve ter percebido que alguma coisa não estava bem, me levou de volta pra minha casa, aí eu levantei o tapete pra onde varríamos toda a sujeira, quis saber do que ele tinha medo, perguntei se ele não queria mesmo ficar comigo, ele disse um “sim”, ele disse um “mas…” e o que veio depois disso já não me importava, saí do carro e ele não veio atrás de mim, entrei em casa e ele não bateu na porta. Passou umas duas semanas antes que puxasse conversa, como se nada tivesse acontecido, e mais algumas tentativas sem sucesso depois, até a gente se perder um do outro.

O problema de ficar tão longe é não saber mais como voltar, e quando volta nada é mais do mesmo jeito e já não dá pra ser mais de jeito nenhum. E levou pouco mais de seis meses até eu abrir aquela rede social e no meio de tantas outras publicações, ver a mudança no status dele pra relacionamento sério com uma moça sorridente na foto, é tinha até foto, logo ele que dizia não gostar de ser fotografado, ele que não conseguiu segurar minha mão por mais que alguns segundos estava ali abraçado com outra, pra todo mundo ver.

Também faz parte da vida a dois aquela hora que você percebe que talvez não seja mais pra vocês seguirem juntos, lembrei de cada bom momento ao lado dele, faltou um pouco de ar, quis aquele abraço, olhei pra minha cama e ela parecia fria, peguei o celular e pensando em ligar pra algum cara, achei melhor colocar o fone e sair pra caminhar.

Author: Ells

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