Status: Tem um iPhone

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Estava eu assistindo 'Como perder um homem em dez dias' quando parei para pensar na Apple, nos Iphones, Ipads e companhia.

Para quem não viu, o filme conta a história de um casal que se encontra por puro interesse profissional. Antes de se apaixonarem, é claro.

Andie Anderson, a mocinha jornalista, toma as dores da amiga rejeitada e decide escrever sobre todas as coisas que as mulheres fazem que supostamente afugentam os rapazes.

Benjamim Barry, o garanhão conquistador e publicitário, está tentando convencer seu chefe de que ele é o melhor para liderar uma campanha publicitária. Benjamim acredita que pode vender tudo a todos e que poderia até fazer com que qualquer mulher se apaixonasse por ele. A aposta é feita: Benjamin deve provar a sua lábia e ganhar a campanha. Para seu azar, a garota escolhida é Andie, que está pronta para testar as maiores atrocidades no pobre rapaz como pesquisa de campo para escrever o seu artigo que leva o nome do filme.

Em uma das cenas, Benjamin discute com o chefe e mais duas colegas que também desejam liderar a campanha de venda de diamantes o possível slogan. Ele sugere "a diamond is for everyone" (um diamante é para todos). As moças discordam e explicam a lógica por trás dos diamantes. "Um diamante é para todos" manda a mensagem errada de que diamante estão em qualquer lugar o que significa que eles não são raros. E se eles não são raros, eles perdem o status. E status é a razão de comprá-los em primeiro lugar.

Então, o produto não se resume apenas a sua funcionabilidade mas também ao seu status. Pensando assim, um iPhone vai agregar valor ao seu status? A imagem que as pessoas fazem do produto será associada a sua imagem? E que imagem as pessoas tem dos produtos da Apple?

Primeiramente, eles são caros. Os ricos são os primeiros a comprar, a classe média economiza uns meses, passa um aperto mas no final compra parcelado no cartão sem juros. A classe pobre não compra, só deseja. O preço do produto está associado ao poder de compra. Você pode comprar um iPhone? O que mais você pode comprar? As pessoas ainda associam o produto mais caro como sendo o melhor produto e o de melhor qualidade. Se você tem um iPhone, você é melhor?

Em segundo lugar, é o smartphone das celebridades. O Instagram abriu um espaço maior, mais prático e instantâneo para que as celebridades compartilharem suas fotos, entre elas as tão comentadas selfies e pá! Lá está o último lançamento da Apple refletido no espelho do banheiro. Pessoas famosas são populares, amadas e adoradas. Se eu tiver um iPhone eu vou ser popular também?

Os adjetivos associados ao iPhone são muitos: bonito, rápido, versátil, multifuncional, etc. Você é tudo isso também? Você quer ser tudo isso também? A sociedade dos dias de hoje é consumista e apela para o consumo. O poder de compra cria uma distância social entre ricos e pobres. As pessoas tendem a se identificar com o que consomem e quanto mais elas podem comprar maior a distância social. A pobreza então se caracteriza não só como a ausência de bens mas também como a ausência de produtos valorizados socialmente. Para John Friedmann e Leonie Sandercock, especialistas em planificação urbana, há três diferentes formas de pobreza que os autores chamam de despossessões psicológica, social e política. Me restringirei a citar as duas primeiras.

A despossessão psicológica está relacionada a um sentimento de autodesvalorização da população pobre em relação à rica. Já despossessão social se dá pela completa impossibilidade de certa cota da população ter acesso aos mecanismos de êxito social, de atingirem o mínimo de prestígio e manterem relações sociais estruturadas e permanentes.

A questão é: o iPhone é valorizado socialmente. E se você tem um, você também se sentirá valorizado. Você também deve achar que tem êxito social, afinal, você está nas redes sociais e recebe muitos likes para cada post.

Você tem prestígio. É claro que Karl Marx já sabia disso muito tempo antes das concorrentes do Benjamin Barry do filme. Quando Marx escreve sobre o fetichismo da mercadoria, ele afirma que a sociedade de consumo caracteriza-se pela valorização do "ter" sobre o "ser", onde as pessoas compraram algo pelo status que proporciona e não só pelo valor do uso. A pergunta que não quer calar é: o que é real? Você é o seu celular? Não, eu não quero ser pobre. Só não quero que o dinheiro ou as coisas me definam.

Trailer do filme Como perder um homem em dez dias

http://youtu.be/jdsv3M5-fLQ

Publicação John Friedman e Leonie Sandercock

http://unesdoc.unesco.org/images/0009/000997/099738eo.pdf#99745

Mais sobre o Fetichismo da Mercadoria:

http://efchagasufc.files.wordpress.com/2012/04/2-manuscritos-econc3b4mico-filosc3b3ficos.pdf

Author: Lívia Alencar

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