Santa Confusão

Consegui encher até a tampa minha relação com os atos e ritos religiosos.  Para uma formação católica clássica, posso dizer que fui bem longe. O máximo que meus sentidos puderam aceitar. Catequese, crisma, jejuns, orações, terços, promessas. De tudo, o melhor e mais enriquecedor foram  ás peregrinações. Estive em lugares e com pessoas dos mais altos níveis terrenos. O próprio papa, presidentes, governadores. Do mesmo modo com pobres diabos rastejantes. Mendigos, ladrões, putas,  viciados e afins.

Aprendi que onde não tem religião vigiando por meio da consciência  (culpa),  tem-se o poder vigiando através das leis, deveres e obrigações. Ética e moral são as duas bolas do meu pau. Enquanto crescia me vi por vezes emparedado por estas duas situações. No entanto, talvez por sorte ou destino, não me detive em nenhuma delas. Conquistei um certo nível de  livramento através de  experiências profundas que deixaram  feridas no corpo e na alma. Fugir, cair, levantar, tocar o fada-se. Ser chamado de maluco, marginal, rebelde sem causa. A minha causa é o meu contentamento, minha paz de espirito. O que já me leva bem longe, cada vez mais leve.

Caminhando por searas inescrutáveis  descobri  um corredor estreito que leva até uma porta sempre aberta, onde  os enlouquecidos passam atraídos pelos arranjos visuais, burlescos e misteriosos. Meu caro leitor oculto, nem queira se ocupar com essa direção, com os caminhos por onde só os loucos e atrevidos passam. – No entanto, se quiseres vá! Não tenho nenhum conselho pertinente. A vida é um presente que brilha e se desfaz feito estrela cadente. Se deixares para gozar depois…Talvez…Jamais.

No ano de 2007, depois de participar de uma olimpíada internacional de malucos. (Sério! Gosto tanto de esporte e sendo maluco, parece que os destinos se encarregam de uma Olimpíada de maluco – teve até Xadrez de maluco). Lá ganhei a primeira medalha de ouro na natação – competindo nos 50 metros livres –  naqueles dias  recebia muitas congratulações, sorrisos. Garotas sabendo do meu  feito sorriam para mim. Meu tratamento estava concluído. “Bruno você está reformado!” me disse um religioso como quem olha para um passat 1984 turbinado – com a lataria em perfeito estado.

Entre algumas montanhas da serra Mantiqueira jaz uma Fazenda da Esperança – onde habitam seres ilumiLascanterasnados entre centenas de seres obscurecidos por alguma razão da vida. As fazendas são lugares de muita luz e transformação. Lá milagres acontecem a despeito de qualquer crença ou ciência. Mas é preciso muita  sutileza para notar  um milagre. – Não é para fanáticos, muito mais para transgressores. Acabaram as olimpíadas de Guaratinguetá-SP. Conforme o combinado fui de  lá até Córdoba, segunda maior cidade da Argentina. Segui em  um ônibus de dois pavimentos  lotados de Hermanos. Imagina você! Os malucos daqui – e os malucos de lá. Não era pra ser fácil. Mesmo assim eu fui.

Daria para contar uma história  somente sobre as 56 horas de viagens!

Los Hermanos muito atenciosos estavam em um grupo de aproximadamente quarenta pessoas. Moças, rapazes, senhoras e senhores. Voluntários, religiosos e familiares de alguns internos.  Após o grupo se dispersar na rodoviária de Córdoba, seguimos para a Fazenda Las Canteras,  na cidade de Dean Funes, nas cercanias  da metrópole.  Desembarquei naquele lugar pitoresco no meio de uma antiga pedreira  na boca da noite do terceiro dia.

Foi lá que dias depois apareceu o Jesus cordobés. Uma criatura franzina, de pele massacrada pela fome, frio e porradas na cara. Os olhos  secos e brilhantes. Enigmáticos com um buraco negro. Devia ter dezenove ou vinte anos, mas com as medidas de um garoto de quatorze. Sua voz era firme e tranquila. Embora algumas vezes ele tenha caído aos prantos  diante de nós, sabíamos que não se tratava de uma ovelha. Era sim, um pobre rapaz que não conhecia os pais, morava na rua.

Com um ar misterioso de quem esconde chagas insondáveis ele circulava entre nosotros. Quando olhava para mim, dizia  “Te quiero Bruno! Te quiero mucho”, conluia batendo com o pulso fechado no coração. Eu ficava um tanto sem jeito diante de tamanha expressão. Eu respondia com um sinal de joinha acenando positivamente.

Numa tarde fria, dessas que o sol se põem antes das dezesseis horas – uma briga começou dentro da casa onde eu morava. Em frente da casa, eu observava aqueles tons de laranja do por do sol quando batia nas montanhas marrons, bege. De súbito Ouvi gritos e “Pará-te-Pará-te-Pará-te!”.Então de súbito os dois pularam agarrados um ao outro para o lado de fora. Os murros na cara estralavam feito tapas. Jesus não aceitou as provocações de um burguês e saiu  na porrada. Corri e separei os dois nanicos, com uma pá na mão.

Na hora do jantar Jesus chorava que dava pena. Era um choro muito ressentido de quem  vinha numa jornada longa de sofrimento. O pequeno burguês mais forte, sentado do mesmo lado da mesa, parecia resignado, crente na sua vitória.  Eu fitava os dois atentamente do lado de cá. Jesus pediu uma faca para cortar o pão. Todos olharam para mim. Estendi as mãos e entreguei a faca à Jesus que cortou o pão e repartiu aos discípulos dizendo  “Tomais todos e comei” foi repreendido  com uma bronca de um velho porteño que não o reconheceu como sendo o redentor dos homens.

Muito bem apresentado e integrado ao grupo de internos, Jesus engordou uns cinco quilos na primeira semana. Aquele olhar profundo parecia mais preenchido. Seu semblante mais sereno e as conversas pareciam ganhar sentidos. Aquele Jesus com aspecto de Louva Deus ficou estremecido quando para surpresa dele e de todos, Deus chegou à Fazenda, enquanto todos estavam na missa com o Bispo da região.

Surgiu no meio da missa acompanhado com de um dos três brasileiros que estavam por lá. Marcos, um galego potiguar, um gaúcho de Alegrete, além desse que vos escreve. Deus sentou-se na primeira fila e logo mostrou seus poderes. Soltou uma gargalhada na cara do bispo. Ele ria tanto que chegava a se bater de tanto rir. O bispo por respeito ou temor, apenas observou.

Por sorte ou azar  Deus foi alocado em outra residência bem próxima daquela que eu morava junto com Jesus e outros dez apóstolos. Mas durante as atividades dos dias, todos eram encarregados dos mais diversos trabalhos que existem em uma fazenda. Deste modo pai e filho se aproximaram. Jesus e Deus pareciam estar se entendo muito bem. Andavam juntos na hora do intervalo e por ver vezes desempenhavam trabalhos no campo que exigiam completa interação. Como cortar lenha, alimentar os animais por exemplo.

Além da postura irônica diante do altar da pequena capela, Deus não tinha arrumado nenhuma encrenca até aquela manhã de domingo. Eu estava na academia malhando enquanto Jesus me observava. Ele fica por ali falando dos seus assuntos porque sabia que lhe dava atenção. Revelou muitos detalhes da sua difícil jornada pelas ruas e periferia da cidade de Córdoba. Os equipamentos daquela academia pareciam da primeira guerra mundial. Serviam apenas como distração e aquecimento no inverno.

Durante algum trecho da conversa uma das únicas mulheres da fazenda, a esposa de um consagrado chegou passou por nos gritando, pedindo socorro. Dizendo que Antônio, o que se dizia Deus estava matando o Marcos de porrada. Corri imediatamente para o local. Sabendo da enorme diferença física entre os dois, fui imaginando o pior. Quando cheguei constatei…

A casa estava toda revirada, espelhos quebrados, a televisão quebrada no chão. Tive que passar pela barreira de curiosos que observaram à minha frente que pude ver em seguida. Preso nas garras de Deus  com a cara lavada em sangue estava Marcos. Ele parecia esperar por mim porque quando apareci me olhou diretamente nos olhos, e sem dizer uma palavra me pediu socorro.

Os Argentinos hesitantes não fizeram nada. Tive que fazer jus à minha criação espartana. Sem demora, com um golpe rápido, encaixei um mata-leão em Deus. Minha intenção não era agredi-lo, mas controlar a situação. Nesse dia eu descobri a tal força dos loucos. Após livrar Marcos das garras de Deus não sabia o que fazer. Toda a fúria de Deus havia se voltado contra mim. Ele tentava de todas as maneiras furar meus olhos com as unhas salientes que possuía.

Aqueles minutos me pareceram uma eternidade. Embora o golpe estive encaixado como uma luva, Deus fazia uma força que eu, um pobre mortal não podia mais suportar. Até aquele dia jamais tinha desmaiado alguém com um mata-leão. Fiquei nervoso com as possíveis consequências. Mesmo assim, Marcos entendeu que era preciso tentar. Assim o fiz, apertei conforme aprendi com os amigos da vizinhança onde cresci. Deus dormiu no meu colo.

Aquela energia que pulsava no ar foi se dissipando lentamente. Jesus por alguns instantes achou que eu tinha matado Deus e confessou. “Bruno você o matou? – Logo agora que ele não precisava mais tomar seus remédios. Eu disse a ele que não precisava mais tomar os remédio”. Logo todos que estavam ali se deram conta, que a crise de Deus fora provocada por aquele conselho indevido de Jesus.

Uma família de voluntários chegou para levar Marcos ao Hospital no mesmo instante que a mulher que passou por mim pedindo socorro retornava da casa de Deus com seus remédios. Colocou debaixo da língua do desfalecido. Alguns minutos se passaram e ele começou a despertar lentamente. Olhou ao redor e pareceu reconhecer apenas Jesus. “Jesus onde está sua raquete? – vamos jogar”`. Ele se referia ao ping-pong que jogavam até antes de resolver não tomar mais os remédios.

Calmo feito um carneiro saiu sozinho na companhia de Jesus diretamente para a sala  onde jazz a mesa de ping-pong. Marcos retornou com o nariz e a perna quebrados,  muitas escoriações pelo corpo e doces da padaria. Presentes para mim.

Bruno Marzzo

Author: Bruno Marzzo

Alguém que colheu tudo que plantou. Mas não plantou tudo que colheu! Não entendeu? Relaxa, isso não fará a menor diferença por enquanto! Site: http://brunomarzzo.blogspot.com.br/

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