Quando o pássaro se entregou ao homem

Ele vivia em uma bela casa com sua esposa, cantava e ria como criança que recebeu o presente desejado. Sua amada vivia triste e estava ficando amarga dia a dia, uma cor cinza a acompanhava e lentamente foi infectando Júlio, que começou a rir menos e deixou de cantar. Os poucos vizinhos sentiram sua falta, eles foram abandonando a casa e seus pertences, seu jardim e sua horta invejada por tantos.
O enorme salão que antes foi palco de festas memoráveis agora era povoado pela poeira que o tempo trouxe. Os quartos que antes eram ocupados por seus convidados foram lacrados e nunca mais habitados. A cozinha que era a vitrine de grandes mestres da culinária, agora restava apenas um amontoado de panelas e fogões desempregados.
A casa foi perdendo sua luz como os seus donos. Alice faleceu após 7 meses da doença da tristeza, as causas não foram diagnosticadas pelos legistas, ou espíritas, ou ecumênicos de ocasião.
Nosso protagonista começou a viajar muito, para tentar esquecer seu drama, como se a distância geográfica pudesse dissipar a sua dor, mas a geografia a ser vencida estava dentro de sua confusa cabeça. Havia um sonho que sempre o acompanhava durante a sua vida. Era o canto de um pássaro que sua amada gostava muito. Ele nunca dera importância a esse fato, mas agora lembrava de detalhes demonstrados durante o seu sono.
Certa vez, quando as chuvas cessaram e o calor inundara a vida dos moradores das florestas, ele retornou a sua antiga casa, com muito peso e dor abriu a porta procurando forças para entrar e imaginando cenas alegres que viveu naquele lugar. Subiu a escada e parou na porta do quarto do casal. Abriu lentamente a porta e sentiu o cheiro de sua amada. Ficou perplexo, pois nada havia sido alterado no local, nem o pó do tempo penetrara no ambiente. Permaneceu horas deitado e olhando para o teto do quarto. De repente, ouve o canto do pássaro citado anteriormente. Júlio ficou nervoso e procurou saber onde o animal estava. O pequeno estava do outro lado da janela como aparecia em seus sonhos, do mesmo tamanho, cor e canto.
O homem queria muito se aproximar do pássaro e mandou limpar a casa, abrir as janelas e quartos, cozinhar almoços e jantares. Contratou músicos para o salão, arrumou o jardim e sua velha horta. Tudo para agradar o pássaro que fazia lembrar o seu amor perdido. Todas as manhãs ele cantava o seguinte verso “vem passarinho do meu coração, quero ser seu amigo e não o seu vilão”.
A pequena criatura cantava no amanhecer e no entardecer, mas não dava a mínima atenção ao viúvo. Certa manhã ele abre os olhos e se depara com o pássaro parado na cabeceira de sua cama, o olhar e a expressão alegre de Júlio o fez se traduzir na calma e tranquilidade de seus gestos. Ele falou com suavidade com o pequenino e este por sua vez parecia entender os argumentos do homem. Após alguns minutos do encontro entre eles, o pássaro foi embora e Júlio riu de forma estranha. Todas as manhãs essa cena se repetia, até que um certo dia o pássaro pousou na mão do humano que ficou tão feliz, mas tão feliz que não mencionou nada. Apenas fechou a mão bem devagar até chegar ao ponto de esmagar a pequena maravilha que o assolava a vida. Ele apertou a mão com tanta força que ao abrir não lembrava em nada um pássaro e sim um amontoado de penas, ossos e sangue que um dia já fora uma vida.
Julio, calmamente lava-se, pega a sua bolsa, fecha a casa e nunca mais volta aquela pequena cidade do Amazonas. Hoje as crianças ouvem estórias sobre um homem que perdeu a sua triste esposa e matou o seu único ponto de alegria, um belo pássaro que cantava todos os dias. Na antiga casa abandonada é possível ver nos finais de tarde centenas de pássaros pousando e usando como abrigo noturno.

*Esse conto faz parte de uma série de sete, que compõem o livro intitulado Os impermeáveis, lançado em março de 2020

Author: Max Caracol

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