Persona – Face Um (Ou Talvez fosse melhor nem existir)

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São em média quarenta minutos extasiantes, de uma angústia avassaladora. Algumas pessoas saem com lágrimas nos olhos pelo impacto cruel das cenas. Tudo é planejado com minúcias, menos a reação dos espectadores. No mais, o Ateliê 23 atravessa incólume sua saga de discutir o universo trans sem concessões ou apaziguamento das almas.

Quem tiver fôlego que veja, que sinta, que se transborde nas imagens poderosamente projetadas, com o ambiente claustrofóbico criado naquele casarão de pé direito alto, alto como o preconceito que temos ao abordar estes temas tão caros “à moral e aos bons costumes”. 11268339_876428755763345_432299339_o

A direção firme de Taciano Soares se imprime do início ao fim, e as três salas dos confinados(as), que aqui criarei o neologismo para tratar destas personagens, com um termo que me brota dos grandes livros de ficção científica, os replisuplicantes, uma mistura de palavras que acredito que podem levar a força necessária para os que são vítimas, ainda hoje, de uma sociedade talhada no patriarcado cristão ocidental. Replisuplicantes que chegam até nós pela fachada do Ateliê 23, na janela onde a rua é a esfera pública, onde replisuplicantes só podem ver por um átimo de tempo o mundo livre. Depois é o claustro do Teatro. E será ali, neste escombro civilizatório que as coisas começam e se tornar insuportáveis.

Bandagens que entram e saem de três ambientes, cada qual com um signo poderoso, dilacerante e sem piedade mesmo, um chute nos culhões dos machos alfa espalhados pelo mundo todo. A vida dentro deste átrio atroz é feita de sombras, penumbras, luzes de lanternas projetadas pelo próprio espectador que carrega este farol de atrocidades legitimadas pelos desvãos destes seres que escapam do julgamento apressado de serem do bem ou do mal…

Apenas estão ali e vivem e sobrevivem aos escombros que acumulam sobre sim. E isso é um ponto dramatúrgico de intensa vitalidade, pois nos deixam com aquela pulga atrás da orelha, não nos permitem de forma melindrosa termos pena das personagens. Replisuplicantes não precisam de pena, precisam de ação. E aqui temos isso de sobra. Mesmo nas variações um tanto estáticas do espetáculo, tudo se move, interior e ou exteriormente. A música é tão bela como dilacerante, um jazz numa voz etérea, marcante, que nos inserem calmamente nas cenas, em doses seguras para entrarmos feito Dante guiado por Vírgilio nos círculos infernais. Esteja alerta a regra dos três, você só dá aquilo que merece. Hermes Trimegisto. Imagens como as de um filme antigo, com cores technicolor nas maquiagens carregadas, como se a máscara trans se transubstanciasse em sangue sagrado numa liturgia da carne. Passos, gritos, pegadas que conseguimos até sentir que passam sobre nossas cabeças, tudo se resume a isso, uma espécie de calvário, e que para nos dá uma pausa, elas/eles replisuplicantes quebram a interpretação para nos propagar numa neutralidade despretenciosa, como se não acreditassem mesmo que algo vai mudar a partir dali, replisuplicantes que brincam com suas desgraças.

O único humor possível neste trabalho é este ardiloso escárnio para que possamos nos aproximar, com cuidado, de tanto sofrer. Carinhos e choros se misturam, gritos que se propagam em todas as direções possíveis, como se a própria casa vertesse aquele sangue misto de ódio. Uma crônica da casa assassinada. Aliás, recomendo o livro de Lúcio Cardoso e o filme A Casa Assassinada, dirigido por Paulo César Saraceni, com música magistral assinada por Tom Jobim. Neste filme tocante e esquecido temos uma interpretação do universo trans de Carlos Kroeber que talvez seja insuperável no cinema brasileiro, e o filme é de 1971.

Voltemos á PERSONA – FACE UM. Os três ambientes formam uma tríade do sofrer, onde a direção desloca os personagens numa espécie de labirinto cênico, com cruzamentos e choques dos seres suplireplicantes. Sufocações que lembram a descida ao Maelstrom de Edgar Allan Poe, aquele redemoinho que tudo traga, que tudo absorve. Termos pejorativos, palavrões, exibições de genitálias, eis a chave sexual reprimida levada por suplireplicantes, cujas vozes são sempre como soco no estômago de um público que nestes 40 minutos não descansará destas afrontas úteis para refletir sobre o outro. São aberrações escatológicas, tapas, cusparadas, masturbações, não existe nada de certo ou duvidoso, as palavras saem das bocas suplireplicantes esmagando, e aqui tenho de me referir às interpretações em uníssono dos intérpretes, das vigorosas atuações, do estranhamento visual de todos e todas, da entrega visceral daquilo tudo, algo que se fosse ameno não teria sentido de se fazer.Crédito Fabiele Vieira 1

As ações múltiplas não nos fazem perder o foco. A dor aqui está em tudo e todos. Barulhos de coisas que se arrastam como um purgatório sem fim, uma vertigem que não passa, trechos bíblicos onde suplireplicantes são condenados pelo dogma cego mantido pela Mao férrea do patriarcado. A antiga cantiga popular vira um pesadelo sem tréguas. Se essa rua fosse minha…Eu seria suplireplicante feliz. Porém, felicidade aqui vira fatalidade. Ediel Castro dilacera com suas intervenções acústicas, uma ladainha linda que envolve o manto estigmatizado nos suplireplicantes. As punições de um pai opressor, toda a súplica injetada nas vísceras frente aos nossos olhos, é como se a beleza cruel se fincasse em nosso coração através de uma pedrada em nosso olho, o olho de nosso cu. Subterrâneos intrínsecos onde todos nós atiramos uma pedra, mesmo que abracemos a causa em questão. Só podemos sentir de longe, muito longe, o que é viver numa situação de ser um animal num zoológico do medo e do preconceito. O resto são teorias.

Tudo é grave e trágico, a nudez não se mostra, mesmo explicita, ele se esconde nestes escombros da alma e nesta penumbra prisioneira da sociedade. Sacos na cabeça são alucinações, assim como montanhas de papel que impedem o andar livre, a vida verdadeira dos suplireplicantes está fadada a ser um gueto nojento, podre, dilacerado. O sufocamento social não perdoa o corpo livre do julgamento pela exterioridade corpórea. Um Teatro Ambiental tem de encarar o público, e aqui este olhar não foge da raia. Ele procura a solução, mas não encontrará este perdão. O som fúnebre de Ediel Castro faz-se imponente, e descobrimos que a música também é cena. Ela é o caixão sonoro suplireplicante. O lirismo trágico que se imprime numa história num carro que encontra o abismo. Suplireplicantes são estes abismos da alma. Replisuplicantes são Daniel Braz, Eric Lima, Isabela Catão, Larissa Rufino e Matheus Sabbá. A vocês, que se entregaram neste panorama desolador, só resta, humildemente, agradecer por terem forjado com amor e dor a todas as características díspares de cada suplireplicante que abraçaram com fervor cênico singular. O figurino de Laury Gitana é um assombro de barroquismo, visto aqui como um exagero necessário para cobrir e descobrir os corpos suplireplicantes, as cores vibram, mas estão desbotadas pela ação cruel do tempo social e imbecilizante.

A casa serve de atoleiro, nas imensidões de células vivas que se contorcem. Suplireplicantes são trágicos, mas não desistem. Este é um dado que aproxima nosso coração a estes seres. Suplireplicantes avançam, mesmo que a tempestade os sufoquem com sua areia nos olhos, suplireplicantes morrem na luta. São corajosoas. Não fogem dos fantasmas, os enfrentam. As ações físicas, as entradas e saídas de cena nos conduzem ao fim de uma jornada, permeada por cortinas negras, passagens para monstros e aberrações, mas trata-se de um espelho em nossa frente, espelho este que alguém com coragem estilhaçou em mil pedaços. Os termos se locupletam ensandecidamente: mulher do futuro, pauzão, pica, cassete, “quem eu vou comer aqui com o meu pauzão?”, chupa meu pau, surra de rola. As palavras ganham pulsão descontrolada e transbordam pelos poros suplireplicantes. Uma noiva em trapos lembra o elemento gótico de terror kitsch, mas que funciona perfeitamente com a a atuação terrível que se coaduna com ambiente e espaço cênico. Enfim, eis que um carrasco chega para livrar suplireplicantes deste penar, riscos, cortes, os corpos em queda livre, as almas despedaçadas, e a antiga cantilena ecoa em nossos ouvidos…Papai foi pra roça, mamãe foi se…fudeu tudo. Espocada solidão fim de quem ama. Esteja alerta a regra dos três, você só ganha aquilo que merece. Hermes Trimegisto.

Este texto é dedicado a Diana Brasilis

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Crédito das fotos: Fabiele Vieira

O espetáculo está em cartaz todos os sábados até julho, às 20h, no Ateliê 23 que fica na rua Tapajós, 166, Centro. Excepcionalmente neste domingo (07), às 19h, haverá uma sessão gratuita especial da 9ª Mostra de Teatro do Amazonas. Os ingressos custam R$30, estudantes pagam meia, aceita cartão de débito e crédito. Classificação etária 16 anos.

Author: Jorge Bandeira

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