Pense pequeno

Um jornalista que eu não gosto, mas confesso que as vezes rio de suas palhaçadas, disse uma coisa uma vez muito legal – de maneira despretensiosa talvez (quem sabe?) – que dá uma bela discussão sobre filosofias de vida. A frase era: “ – O futebol é, das coisas menos importantes, a mais importante!”. O jornalista chama-se Milton Neves e ele, obviamente, é jornalista de futebol muito conhecido pra quem acompanha o noticiário esportivo.futebol

O mais interessante é que isso tenha acontecido justamente pouco tempo antes de um amigo que tenho – que gosta de me ouvir filosofar sobre as constantes e inquietantes ideias que pipocam na minha cabeça – ter me feito a seguinte pergunta: “ – Alexandre, você é um torcedor tão apaixonado por futebol, assiste a todos os jogos, sabe os nomes de jogadores… você é um cara tão inteligente, te acho tão inteligente… como você pode perder tempo com isso? Isso não combina!”

A pergunta, embora possa parecer pertinente, não o é. E explico: Não há, simplesmente não há maneira de viver no mundo espiritual o tempo todo nem que você seja um monge tibetano. Primeiro de tudo porque você precisa cagar e mijar. E comer. Você é humano. E sua realidade é bem diferente da de um monge tibetano.

É óbvio que parar pra pensar na vida, na morte, nos seus valores, no que é importante de verdade, é necessário de vez enquanto na vida. Especialmente quando acontecimentos carregados de emoção passam por nossas vidas. Mas mesmo aqueles que dizem odiar futebol, por achar que isso é algo como um ópio do povo – e talvez estejam certos – também têm seus próprios ópios. Cada um termina gastando parte do seu tempo com uma coisa bem, digamos, terrena. Seja uma coleção de vinis cada vez mais velhos, raros e empoeirados (o que na cabeça de um fã de futebol pode parecer uma besteira tão grande quanto a paixão por futebol aos olhos do colecionador), coleção de selos, restauração de carros, bonés, relógios, conchas e até pedras. Quando é que vão cessar os julgamentos sobre como os outros, que pagam suas contas e vivem honestamente, gastam seus “amores terrenos”?

Ou você passa o tempo todo pensando na morte?

Alexandre Villaverde

Author: Alexandre Villaverde

Filósofo, antropólogo, sociólogo, historiador, geógrafo, crítico de cinema, de música, de arte e de literatura, jornalista e livre. Só uma coisa me escraviza: minhas hemorróidas.

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