O rei e o bobo

Rei Narciso era conhecido por sua benevolência. Tinha assumido o trono cedo porque seu pai foi acometido de uma grave doença na qual não resistiu. Cresceu como rei e homem diante dos olhos curiosos e com o auxílio dos conselheiros tonou-se um excelente líder. Foi-lhe arranjado um casamento com uma bela princesa, unindo reinos e selando a paz, visto que antes já haviam batalhado por território. Ao repousar os olhos sobre ela pela primeira vez teve certeza da sorte que havia tido, não apenas seria uma jogada política, mas a mais bela figura que ele poderia ter ao seu lado. A paixão foi fulminante, apressando o casamento. Não queria mais ficar longe dos seus olhos. Seu reino prosperava, lhe auxiliando a justa rainha sempre intercedendo por aqueles que a ela chegavam. Tudo parecia em ordem, mas algo incomodava o rei em seu íntimo: a ausência de herdeiros. Apesar de suas insistentes tentativas sua senhora parecia incapaz de trazer-lhe tal alegria e, com isso, a cada dia seu coração endurecia. Seus súditos que tanto o amavam passaram a lhe temer, ao ponto de ouvir as trombetas que anunciavam a sua chegada e recolher-se em suas casas, com receio de qual seria a atitude descabida que suas mãos realizariam daquela vez. Costumava jogar na masmorra àqueles que ousavam não abaixar a cabeça ante a sua presença. Sua aparência, antes jovial, já não era a mesma, seu o rei e o bolo - por Rakel Caminhacenho estava sempre franzido, revelando a amargura que trazia junto ao peito, os cabelos brancos lhe cobriam a cabeça. Enquanto sua esposa permanecia reluzente, não se deixando abalar por toda a loucura que tomara conta do seu rei, que também passou a beber excessivamente e cultivar em harém de meretrizes, entre elas, sua favorita, Madalena. E somente então a sua desgraça chegou à rainha. Antes conhecida como justa passou a se esconder no castelo. Já não saia do seu quarto, entrando numa profunda depressão. Não suportando as constantes crueldades do seu marido, encontrou conforto nos braços da morte, sua antiga conhecida, a rainha da coroa de espinhos, que várias vezes tirou a vida de dentro do seu ventre, fazendo com que ela perdesse de forma cruel todas suas tão desejadas gravidezes. Foram três antes que desistisse da vida, de Narciso, de tudo. Narciso encontrou o corpo de sua mulher morta, lívida, fria, com olhos vidrados. Sentiu tanta dor ao ponto de cair de joelhos. Como uma criança, deitou ao seu lado vertendo lágrimas nunca antes vistas e implorando que deus devolvesse seu amor, o que não ocorreu. O silêncio do castelo era quebrado pelos seus berros de horror, seus pedidos de desculpas que sua esposa nunca seria capaz de responder. - ‘Me perdoe, eu te amo.’ O seu ódio tornou-se mais forte. Ódio de deus, que lhe tirou o pouco que lhe restava, ódio de sua falecida esposa que o abandonou e, acima de tudo, ódio de si, por no fundo saber que a desgraça que se abatia sobre seu castelo era merecida, ele mesmo a havia convidado para ficar e já não sabia como manda-la embora. A bebida, antes já presente, passou a ser incessante e sua loucura crescia a cada dia. Seu harém antes tão belo, repleto das mais esplêndidas mulheres do reino transformou-se num lugar de orgias da mais absurda natureza. Incesto, necrofilia, zoofilia, estupros, mortes. Morte. Uma a uma elas foram embora, as poucas que sobreviveram à sua fúria. Madalena ficou. Ele se sentia bem, afinal era um sopro de ar para um rei, coitado, tão calejado. Mas um dia aconteceu. Madalena o repreendia por estar a dois dias trancado no seu quarto esvaziando vários barris de vinho. Ele ria, debochado, dizia que era o rei e ela uma reles meretriz, mulher da vida, puta, imunda e ninguém a iria querer. Em um segundo de sobriedade proferiu as seguintes palavras: - 'Madalena, se olhe no espelho. A única mulher que amei jaz morta há anos por culpa minha. Você não a substituiu em nenhum momento, mas sempre foi uma ótima diversão'. Enlouquecida, afastou-se correndo para o quarto onde guardava seus pertences e começou a destruí-lo, enquanto tentava acomodar suas roupas num baú. Chorava, se lamentava, acreditava ser amada mas bem sabia que não o era, apesar de acreditar piamente que o tempo seria capaz de fazer brotar, mal sabia ela que o tempo não era capaz de germinar um amor que não tinha sido plantado. Espelhos quebrados e lençóis rasgados adornavam o cômodo embebidos em raiva. Ora, ela queria ir embora, mas não era da natureza de Narciso permite-se abandonar. Madalena ficaria, era seu brinquedo. Invadiu o quarto e passou a desfazer o que ela já havia feito, mas quando cansou de brincar a segurou pelos braços com suas fortes mãos e a estapeou. Madalena prostrou-se de joelhos, assustada pela atitude nunca antes tomada e partiu para cima do rei, na falha tentativa de arrancar sua coroa e lhe mostrar que sem ela ele não era ninguém, um grande nada. Mas perceba, ninguém seria capaz de  destronar Narciso, ele não permitiria. Era a maior certeza da sua vida, o poder que tinha nas mãos, os súditos, os lacaios, as mulheres, todos eram peça do seu jogo de xadrez e só deveriam se mover quando ele lhes tocasse. Segurou Madalena, mas dessa vez pelo pescoço, viu seus olhos se encherem de sangue, a jogou sobre a imponente cama de carvalho, fazendo com que num estalo seu pescoço se quebrasse e a vida lhe deixasse o corpo. Madalena estava morta. Narciso, envergonhado do monstro que havia se tornado, pensou em sua falecida esposa e a quis por perto. Ela sempre foi o seu alicerce, sem ela, ele era fera, rei de si, mas afinal, quem era si? Ainda atordoado, vagou pelos cantos vazios e escuros do seu castelo, tentando se encontrar. Só foi capaz de fazê-lo ao chegar na masmorra, onde estava o espelho que havia sido da sua mãe, encoberto por veludo vermelho, onde se viu nu, sujo, tomado pelas trevas que lhe habitavam a alma. Já não era capaz de chorar, tampouco sentir. Quem é você, Narciso? O bobo. Arte: Rakel Caminha

Author: Gabriela Almeida

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