No alienígena fui abduzido!

Em órbita O sol brilhava forte as 4 e 20 de uma tarde de verão, o céu azul como uma bandeira tingida de anil, bordada com pequenas nuvens que pareciam algodão  e uma “estrutura toda montada” que parecia uma missão espacial da Nasa qual me levou a vários lugares (fora de mim) enquanto estive ali. Não vou entrar no mérito das bandas, pelo menos não ainda. Quero começar com o local, Manaus/ Amazonas, Rua Lima Bacuri em frente a Praça Heliodoro Balbi, a famosa Praça da Polícia, o que por si só já tornava o Festival coisa de outro planeta! Onde antes era um lugar de repressão, prisão e intensa disciplina, deu voz e vez a uma juventude que trazia consigo toda rebeldia e subversão de uma nova onda de liberdade e expressão artística que me alegrou muito. Que beleza! Jovens com camisas de banda e jeans rasgado, óculos escuros, cabelos azuis e vermelhos, piercings e alargadores, um intenso desfile de cores e atitude chamaram minha atenção entre beijos e abraços e tanto amor exalado de olhares e sorrisos me fez pensar que realmente estava num local alienígena. Mas me sentia parte daquilo tudo, e sinceramente nunca me senti tão incluso dentro de um local e tão familiarizado com toda a gente, como me senti ali. Dei conta de que também sou de outro mundo. Dito isso vamos as bandas: Foram 15 no total e todas com o seu estilo e mensagens únicas me fizeram levantar voo e flutuar rumo à “Exosfera” camada da atmosfera onde as partículas se desprendem da gravidade da Terra. E me sentia ali, saindo da órbita terrestre e a cada escala cromática e arpejo de Dó e Mi, me sentia mais perto do Sol, afinal não é esse o objetivo da música, nos fazer fugir da realidade, ou vivenciá-la de um modo tão intenso que nos obrigue a pensar fora do eixo? Cada banda fez valer seu tempo e espaço, e levou consigo uma pequena multidão a dançar e pular ao som de ritmos e letras que só se pode ouvir desse lado da linha do Equador. Além disso, o ambiente todo parecia surpreendentemente estranho, com exposições de artistas plásticos, esculturas, poesia e muitas cores. Uma verdadeira crítica a sociedade comum e chata, tão monocromática e “sem sal” que vivo hoje e talvez por isso me sinto também um alienígena. Estava entre irmãos! Celebrando a vida, a alegria e o amor num admirável mundo novo a ser explorado. Assim me via, entre uma pulsação sonora e outra, uma banda que entrava, um solo de guitarra e uma rima afiada, os pés daqueles jovens foram saindo, centímetro por centímetro do chão, começava então uma noite de outro mundo, não daquele exoplaneta recém descoberto Kepler- 452b, nem de Plutão que já foi planeta, deixou de ser e agora volta soberano ao posto de planeta mais distante do sistema solar. Estava na Terra, de um modo novo, com sons diferentes, pessoas novas, estava no Festival Alienígena. E como já dizia o poeta: Eu entrei em órbita no espaço de mim mesmo, amor!
Vinicius Rocha-Brasil

Author: Vinicius Rocha-Brasil

É escritor, artista visual e estudante da Universidade Federal do Amazonas.

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