Ninguém me olha agora sem pensar em você

Quer saber como é que eu estou? Olha, o dia não tava sendo dos melhores até então, aquele calor de sempre que desanima pisar fora de casa, a dor de cabeça incessante, só que eu devo ter deixado cair uns pesos do meu ombro entre uma poça e outra que nós pulávamos enquanto fugíamos da chuva. Aproveitei pra bater junto com as cinzas daquele cigarro vermelho alguns dos pensamentos obsessivos que ficavam me embaçando a vista. Dessa vez eu não tinha ido ao Centro procurando alívio, normalmente é o caos que me leva pra lá.  A tarde já chegava ao fim, eu dividia minha atenção entre os detalhes daquele prédio antigo e a calma daquele grupo de pessoas que fazia yoga, de uma serenidade que soava ainda mais alto aos meus ouvidos do que a música pop do cinema pornô ao lado. Eu me perdia fácil no musgo e nas palmas abafadas, me mexia acompanhando a música, acho que eu prefiro mesmo esvaziar minha mente dando murros na parede.

Me agarro forte aos poucos minutos num dia em que nada me faz lembrar de ti, me distraio do quanto eu te quero descascando todo o meu esmalte recém-pintado, não dura muito, não adianta quase nada, eu vi teus traços saltando no rosto daquele cara barbado que vinha subindo a rua do bar, eu tô te vendo em quase todo lugar que eu vou, meu medo é abraçar o próximo estranho que eu ver usando uma camisa parecida com a tua. O cheiro de fumaça e xampu que ficou no meu cabelo me leva num suspiro de volta pro teu lado na cama. Continuo te esperando no fim de cada noite, hoje foi uma daquelas em que eu precisava ter recebido uma ligação.

Eu cortei o cabelo, fiz dois novos furos, rabisquei um pouco de libertação através da palavra em mim, troquei o cigarro por sexo, ainda sentia tudo faltar. A bateria daquela banda tinha a mesma intensidade das batidas no meu peito, a gente tá naqueles refrões, se eu fechar os olhos enquanto eles cantam viram trilha sonora do nosso filme passando na minha cabeça. Você foi meu maior vício, o erro de todo mundo foi pensar que eu queria sobriedade do inferno e do céu que poderia ser estar do teu lado, você sabe como é, o problema me encontra. Já reparou na cor bonita dos hematomas? Tudo que ficou foi mais uma queimadura de cigarro acidental, de uma daquelas últimas noites de diversão, ela provavelmente vai demorar bem mais pra desaparecer daqui do que aquele amor.

Qualquer um que já quebrou um celular na parede vai me entender. E não tem nada haver com aquelas fotos que nunca apagamos. Tá mais pra algo que te faz perder realmente a cabeça. Será que isso dá uma ideia do motivo de eu estar sempre sozinha? Aqui o clima é tão ruim quanto meu humor, exceto quando tem alguém ao lado. Preciso de um amante novo. Preciso que alguém me amarre e me dê um tapa desde que comecei a brincar com a dor. Às vezes eu castigo as pessoas de quem não gosto matando de prazer em pensamento, que nem aquela máquina no filme da Barbarella. Eu juro que segurei até onde deu. Te falei sobre os dias em que eu só dormia depois de algum filme de terror sangrento, pra evitar ter pesadelos? Não funciona tão bem, vez e outra você estava por lá. Nos meus sonhos ruins você tá tocando outra pessoa, é que às vezes eu penso em amor como uma boa trepada. Eu te mandei fotos pelada, isso deveria significar algo.

Agora seria uma boa hora pra um passeio de carro contigo, uma música leve tocando no rádio, o vento bagunçando meu cabelo, misturando com as nossas fumaças, a conversa jogada fora e as minhas mãos sempre querendo tocar qualquer parte tua. Ainda te deixei com dúvidas sobre meus sentimentos e intenções naquela noite? Foi minha alma desnuda na tua frente. Tu escorres por cada poro meu e acho que até o meu suor exala saudades. Me deixa pensar menos em você, já não bastam as bocas que não são a tua onde eu tenho perdido algum tempo? Não consigo te tirar nem das minhas entrelinhas, que dirá de dentro de mim?

De novo aquela sensação de que tô deteriorando, de dentro pra fora, um buraco que começa no peito. Impressão de que fica cada vez mais difícil deixar as coisas pra trás, tá certo isso? De repente essa vontade de se agarrar em alguém. Vez e outra bagunça meu sono, de tempos em tempos tudo desanda, vai desafiar a vida dizendo que se entedia fácil, vai ler demais e esperar que essa tua cabeça se contente com pouco, chega manso o dia em que você não vai mais querer sair pra brincar. Algumas pessoas acontecem pra te fazer ver o que tem de melhor em você.

Deveria ter passado depois que eu chorei bêbada pra uma amiga, naquele boteco que tinha o banheiro sujo onde tivemos algumas tardes e noites bem felizes, às vezes ouvia-se alguns copos e corações quebrarem por lá. Nada que não se visse em qualquer noite no Centro. A gente adorava aquilo. Hoje não consigo mais sair e dançar. Procurei teu cheiro nas minhas roupas de ontem. Do nada eu murcho.

Author: Ells

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