Música de Quintal edição de Carnaval com Marinho Saúba

A vida do músico amazonense Marinho Saúba é embalada pelas práticas mais comuns da cultura do trabalhador brasileiro. Religião, Futebol, Samba e Carnaval estão presentes nesta trajetória de aprendizagem e atuação comprometida dentro da música manauara.
Marinho foi criado no bairro da Praça 14, nos terreiros e batuques de candomblé da Dona Naza, sua tia e vizinha, uma presença constante desde sua infância. Após, este período inicial de formação, aos 15 anos de idade, passou a atuar dentro da escola de samba Vitória Régia mesmo mantendo conexão com outras práticas populares como a fuga do boi.

Marinho defende a ideia de que samba é mais do que apenas música. É algo marcado por práticas coletivas através de uma convivência dentro de um grupo ou de uma comunidade. A percepção dessa experiência mostra sua condição de classe já que a luta pela sobrevivência material foi decisiva nos rumos da vida musical de Marinho. Por um momento importante em sua vida cultivou o desejo de torna-se jogador de futebol, prática que lhe deixou boas memórias e o nome artístico que até hoje carrega. Saúba era a formiga símbolo do clube de futebol rodoviária no qual seu tio Raimundinho jogou e que lhe foi de grande inspiração.

Porém, a necessidade de manter o emprego na empresa de construção civil Flávio Espírito Santos, o levou a abandonar o sonho do futebol e passar a se dedicar a música profissionalmente, pois esta permitia a conciliação com seu emprego. Era início da década de 80, os operários do polo industrial de Manaus organizavam-se sob o impulso do novo sindicalismo da CUT, na esteira da transição democrática e do movimento de Diretas Já, a cidade vivia o processo de expansão capitalista e urbanização selvagem com enormes impactos sociais, sendo este também o momento em que a música amazonense integra-se na indústria fonográfica nacional com a gravação de vários discos de artistas locais.

Foi neste contexto que, em 1985, Marinho foi contratado como músico percussionista pelo Hotel Tropical integrando a equipe de trabalhadores contratados por carteira assinada. Um conhecido espaço de trabalho dos músicos na cidade, o Tropical Hotel, fundado em 1976, foi lugar por onde passaram músicos importantes em Manaus. Entre estes estiveram Reginaldo Patriarca, Lili Andrade, maestro Jerê, Almir Fernandes, Bernardo Lameira, Rinaldo Buzaglo, Cocó, Junior Curubão, Beto Beiçola. Se a forte cultura popular da praça 14 foi sua alfabetização, a experiência com estes grandes músicos foi uma verdadeira faculdade pois enriqueceu significativamente sua musicalidade. Resultado deste intercâmbio foi a incorporação da bateria em seus trabalhos musicais.

Os mercados musicais se expandiam e o músico amazonense participou da evolução deste processo. Com os grupos Sucesamba (criado por Marinho em 1988) e Ases do Pagode, atuava nas principais casas de samba de Manaus. No bairro da Cachoeirinha, a casa de show Nostalgia e o Clube do Samba foram os lugares mais importantes do samba em Manaus na segunda metade dos anos 80 e início dos anos 90. Foi no Nostalgia por exemplo que Marinho tocou com Jorge Aragão, Benito de Paula e Leci Brandão.

Marinho viu o samba crescer ao longo dos anos 80 e 90. Participou do grupo de sambistas da roda de samba na casa do Ricardo no Conjunto Eldorado. Este grupo foi decisivo para a ligação do samba manauara com o Clube do Samba do Rio de Janeiro. Em Manaus, o empresário Aloysio Brasil e o compositor sambista Clovissom abriram o clube do samba no clube Acalpulco na Av. Recife, logo depois mudaram para a Cachoeirinha.

Hoje o samba em Manaus tem presença marcante e indiscutível na vida musical da cidade. Se não foi a primeira cidade da Amazônia a fortificar o ritmo em suas bases, certamente observa-se como as escolas, os músicos, clubes e casas de shows cresceram no processo de desenvolvimento da cidade a partir dos anos 60. A trajetória de sonoridade brasileira passou pelos sambistas Torrado, Orlando 17, Amaral, Jorginho Devagar, Paulo Santos, Carlão, Silva, Miltinho, entre outros. Marinho, que é suave na voz, foi forte como Saúba e teve participação expressiva na construção dessa história.

O projeto Música de Quintal é um resgate histórico cultural que registra em áudio e vídeo uma parte da história dos artistas da música no Amazonas. Com entrada gratuita, o Musica de Quintal também abre para gastronomia Amazônica e DJs locais.

Author: Bernardo Mesquita

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