Aury Lenno: Banda Kohva

Ultimamente tem se falado bastante em Resistência e acabam esquecendo do que está na essência da palavra: Existência. Uma nova leitura sobre a colonização e os primeiros povos habitantes dessa terra é a proposta da banda parintinense Kohva.

A Ilha Tupinambarana já é famosa por exportar artistas de diversas áreas e com as mais profundas inspirações. Desta vez, reuniu um quarteto inusitado num projeto de Thrash Metal Crossover Indígena. Quem conta melhor sobre esse foco na valorização étnica originária é o compositor e vocalista Aury Lenno.

Além de Aury que também toca flauta, a banda é formada por Ademar Machado (bateria), Luciano Ribeiro (contrabaixo) e João Victor (guitarra). Com dois anos de formação, todos ajudam nas composições. A Kohva já tocou em Parintins, Maués, Nhamundá e Boa Vista dos Ramos.

Iniciei o meu texto falando sobre a resistência, é bem a pegada de vocês não é? Vocês produziram o próprio material?

Sim. Produzimos no Victor Edition o primeiro álbum: “Balas e Flechas”. Agora, estamos na terceira música do segundo, com muitos rascunhos de músicas e letras! Rifs etc! Somos 100% autoral.

Vocês tem a causa indígena como principal tema de atuação. Vocês fazem parte de alguma tribo?

Estamos geograficamente ligados aos povos Satere Maué, sabemos um pouco da história de resistência desse povo! Mas defendemos a cultura originária, seus valores, costumes como um todo! Cremos que a palavra não seria exatamente usar e sim, defender! Defendemos nosso chão, nosso meio, a cultura indígena. É a cultura que preza a preservação, pensamos que todos tem que aprender a cultura de preservar para garantir um futuro! E também falamos muito do contexto histórico que culminou o que somos, o processo de colonização, o estupro da matria originária pelo patriarcado europeu que a violou e roubou para apelidar depois de Brasil! Qual a real intenção de relacionar o som à causa indígena?

Temos a intenção única de levar um alerta. Mostrar aos descendentes dos povos que temos que dar valor no que é nosso! Para não perdermos mais o que ainda resta! Kohva é um buraco para o que está morto, mas também para pôr uma semente para nascer uma nova vida! E a consciência de quem somos nós temos que manter viva!

Esses são indígenas Karitianas do projeto chamado Sonora Brasil! Que valoriza as músicas indígenas e seus valores! Fomos nesse evento prestigiar a atitude deles e trocar ideias sobre o nosso som!

Muita gente já conhece os talentos do boi-bumbá mas o que pouca gente conhece como funciona a cena rock e metal em Parintins?

Rsrs! Cena aqui! A definição de cena seria algo como um movimento onde haveriam bandas tocando e um público frequente de um ou mais lugares! Bem aqui isso não tem! Aqui temos pessoa que curtem Rock, Metal, mas não há uma cena de bandas. As pessoas que gostam são fiéis quando vamos tocar, e não tocamos com frequência porque os bares todos são voltados a cultura de massa, aqui não tem nenhum bar-rock. Por isso tocamos em outras cidades.

Quais são as suas influências?

As pessoas perguntam de onde vieram nossas influências locais, se somos a única banda de metal do médio baixo Amazonas? Cara! A primeira mais próxima é o Nekrost! Nossa meta agora é estar pisando no mesmo palco que eles! Mas assim pra fazer som e música, letra! Tem o Arandu Arakuá! Jarakilers! Cangaço! Torture squad! Desastre Natural! Vudo Priest! Tamuia! Lamb of god, Êxodos, Slayer, Death, Eluveitie. Essas influências são desde a atitude da banda, tema, modo de compor, técnica vocal, palhetadas, de tudo um pouco bebemos em várias fontes. E tem muitas outras aí que esqueci de falar! Rs, tem bandas que nem são do gênero! O Clóvis eu escutei anos atrás e ajudou também! Raízes caboclas! Nilson Chaves! Zé Miguel! Aí, tanto minhas como dos outros caras!

Vocês bebem da fonte do som regional mas não citam o boi-bumbá. Existe alguma relação seja de amor ou ódio?

Bem! Nós defendemos a cultura indígena diferente deles ! A nossa defesa não expõe o processo de colonização de modo romântico eufemista, como o boi! O nosso frisa a realidade! O terror, o caos, a morte, não que destaquemos isso é que isso é fato! Já o boi, bota de modo a esconder o teor caótico de carnificina!

Quais são os próximos passos da banda?

Tudo se resume a sair da cidade! Somar com a cena ativa seja de Manaus ou outras cidades! Porém ainda estamos finalizando nossas graduações.

Qual os cursos?

Eu estudo Artes Visuais, João Victor: biologia; Ademar: Música e o Luciano já terminou seu projeto de pesquisa pela UFOPA.

Eu vi que você também desenha, a banda também se aproveita dessa sua habilidade?

Sim, a junção entre desenho e música tem sido parte do meu processo criativo.

Temos uma seção aqui no Xibé chamada Transamazônica. É um duplo sentido, do sexo amazônico propriamente com a questão da estrada que ainda impede muitos produtores e até artistas a circularem pelo país com mais oportunidade. Ai vai a pergunta, pode ter duas respostas. Pra você o que é necessário para uma boa transamazônica?

Para uma transamazônica é necessário qualquer um ambicioso, disposto a foder uma indefesa mãe de muitos filhos! Eis o conquistador!

Renata Paula

Author: Renata Paula

Jornalista profissional, editora de conteúdo do Portal Xibé e repórter nas melhores horas.

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