Flutuando

flutuando Consumir, deglutir, digerir, absolver e expelir. Máquinas biológicas filhas da precisão do tempo. No amor na alegria e nas tristezas da vida sempre nos deparamos com o tempo que passa que passou ou estar por vir.  Por vezes levanto-me às Segundas-feiras sozinho, sem encanto. Olho para um lado e para o outro. Apenas natureza morta, paredes desbotando, aduelas presas, borboletas de ferro que sustentam portas que se abrem ou se fecham sem propósito algum. Tantas semanas, vários meses, muitos anos. Continuo cercado de desassossego. Qual louco escolheu suas loucuras? Diante de uma depressão insistente que se entulha nas minhas costas, meus passos ficam pesados e minhas ações despedaçadas em fragmentos. Como um vulcão poderoso cheio de força que jamais explodiu. Mas que é capaz de lançar apenas fumaça e quem sabe algumas faíscas. Quando você se invoca com o próximo a política, as artes e os rumos da humanidade parece mais fácil. Porém, acordar desgostoso de si próprio. Sentir a boca o amargor da alma. Nossa senhora do céu! É muito terrível, isso já não me é novo. É uma constante que  dura  dez anos. Certo de que preciso queimar essas sensações encontro nesta janela fria da internet um meio menos abrasador para me livrar de tudo o que jaz dentro de mim. Um cara inteligente, bem humorado, e até boa pinta eu diria. Sem falsa modéstia. Contudo, um cara infeliz. Será que minha natureza é essa ser infeliz. Acredito que não. Isso é fruto desta segunda-feira maldita. Desta tranquilidade emprestada pelos meus pais que desde que nasci me suportam por conta de uma tácita obrigação. Nem queria envolve-los nessas palavras fedidas que saem fervendo do meu coração. Se faço, certamente é porque preciso. Quero apenas me ver livre desse instante delirante. Antes de chegar por aqui, mesmo, contudo, li um terço dos jornais e demais sites que costumo ler pela manhã. Receitas de felicidades brotam por todos os lugares na mesma fôrma dos odiosos e delatores. Imbecilidade gourmet polvilhada com docinho de coco. Tapioca azul. Caralho  essas porcarias são a representação de uma sociedade que rola e se lambuza na merda sorrindo. Sempre foi assim. Quem mandou eu ter crescido numa família classe média, que valoriza os estudos e o conhecimento. Fiquei puto junto com os filósofos e grandes mestres desde cedo. Falta de amor e as drogas da esquina combinam perfeitamente. Desde então muitos anos se passaram. Recorro aos calendários para me certificar de alguns anos que se embolaram com outros. Fundiram-se na minha memória. Apagados ou representados por momentos de extrema euforia. Alegria passageira. Tristezas engendradas no meu ser. Antes fosse um charme ou tivesse nascido algumas décadas antes quando as pessoas faziam visitas aos amigos. Ligavam e conversavam sem pressa sem demais distrações. No sofá da sala se olhando nos olhos. Percebendo os gestos e sabores de cada palavra. Eis um tempo bom. Sentava com meus amigos na calçada de casa quando o sol se punha e delirávamos pensando no futuro. Esse futuro que hoje é meu presente,  jamais imaginei tanta solidão para minha vida. Hoje nem sequer na calçada se pode sentar. O mundo ficou vinte anos mais triste, perigoso e cínico. Diante de tantas possibilidades e eu aqui. Escrevo para me livrar. As paredes desse apartamento jamais darão testemunhos da minha vida. Aqueles devaneios pueris acumulados durante anos e anos foram atirados ao lixo por um jovem adulto enjoado e frustrado. Também um dia quis me livrar daqueles cadernos que guardava nos fundos daquele armário embutido. Joguei tudo fora depois de acreditar que precisar dar espaço ao novo. Joguei minhas lembranças mais sutis e naturais. Sem um pingo de censura ou moralismo escrevia cheio de esperanço no amanhã. Via meus trinta anos lá longe repleto de sorrisos, bom dias, obrigado, por gentileza, lhe agradeço. Foi um prazer. Pode contar comigo... No entanto, estou aqui escrevendo para você leitor oculto. Justo aqui nesse parágrafo, posso dizer que o remédio começa a fazer efeito. Os anos me fazem crer que nasci com alguma disfunção cerebral ou como dizem por ai; Com um parafuso a menos. De todas as drogas da minha geração a mais letal sem dúvida é essa solidão digital. Antes ainda havia solitude e delírios. Um prazer em não saber. Hoje sabe-se de tudo e por isso mesmo ficamos sem saber de nada. Eu que não estou derrotado estou bem melhor. Aqui neste meu cantinho. Neste terreno virtual que me fora concedido pelo onipresente Google deixarei para a posteridade essas palavras inquietas sem, suponho, incomodar ninguém.
Bruno Marzzo

Author: Bruno Marzzo

Alguém que colheu tudo que plantou. Mas não plantou tudo que colheu! Não entendeu? Relaxa, isso não fará a menor diferença por enquanto! Site: http://brunomarzzo.blogspot.com.br/

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