Flamanal Basketball: Sua história pertence a todos que a construíram

Quando envelhecemos parece que nos tornamos verdadeiros contadores de histórias, mas poucos são aqueles capazes de contar histórias das quais tiveram a felicidade de se tornarem parte integrante delas, são aqueles marcados pela própria história que construíram, são aqueles capazes de fazerem e refazerem sem interesses pessoais escusos, são aqueles que não são oportunistas e nunca se apoderam do que outros fizeram, porque o fazem pelos outros e não por si mesmo, na maioria das vezes acabam até mesmo passando despercebidos, mas deixam um legado para as gerações futuras que nem mesmo sabem como tudo começou e porque começou.
É sob a égide do texto acima que os senhores me permitam descrever uma parte da história do basquetebol do Amazonas na cidade de Manaus e chegar a mais uma triste e dolorosa notícia entre as muitas que nosso estado tem sofrido com a pandemia do coronavírus, chamado pelas autoridade de SARS-CoV-2, causador da doença COVID-19 que tem devastado as famílias amazonenses.

A quadra de Street-Basket do Flamanal Basketball

Por volta do ano de 1985 deixei o centro da cidade no bairro de Aparecida para residir no bairro hoje conhecido como Planalto no Conjunto Habitacional Flamanal, ainda poucas casas eram na época ocupadas e dois anos depois já em 1987, erguemos a primeira tabela de basquetebol feita em madeira na Rua Orquídea em frente a casa 12 na Quadra I e começamos a ensinar crianças e adolescentes o esporte basquetebol, com apenas um único objetivo, que pudéssemos juntos jogar basquete na rua, o conhecido jogo na contemporaneidade como “jogo de trincas ou 3X3”, a necessidade e o interesse de todos fizeram com que erguessemos a outra tabela de madeira e fizemos uma pequena quadra e o jogo 3X3 se estendesse pela rua em largura e muitos aprenderam a jogar e se apaixonaram pelo esporte. Mas como o esporte sempre incomoda os que não o praticam porque não sabem de seu verdadeiro valor ético e moral para a sociedade e sua juventude, o basquetebol na rua evidentemente passou a incomodar moradores e foi assim para evitar conflitos desnecessários que em 1990 após recebermos uma doação de duas tabelas de basquetebol de ferro da então Diretora do Colégio Amazonense D. Pedro II, foi que ocupamos a Rua Bergênias e instalamos em definitivo ao que já era desde 1987 a primeira quadra de Street-Basket do Amazonas, onde permanecemos até os dias de hoje dividindo o espaço com a Praça das Flores.
Neste local de mais de 30 anos ininterruptos de ocupação livre e despreocupada com o tempo, muitas gerações passaram e foram formadas e ainda nos dias de hoje cerca de oitenta pessoas entre crianças, adolescentes e adultos utilizam o espaço para jogar e brincar na rua durante toda a semana em qualquer dia e horário como sempre o fizeram com o mesmo objetivo da história de sua criação, “jogar basquetebol na rua” em um lugar que não pertence a ninguém e nem mesmo a Praça das Flores, porque a mesma foi apenas construída no entorno de uma quadra de rua que já é parte integrante da história do basquetebol do Amazonas, sendo impossível de ser apagada por oportunistas e aproveitadores da história de outros.
Muitos jogadores aprenderam a jogar neste espaço e nesta pandemia de coronavírus dois deles nos deixaram definitivamente.

No dia 24/04/2020 nosso amigo, meu aluno/atleta quando criança e professor de Matemática da Escola Municipal José Sobreira do Nascimento MÁRCIO BARRONCAS DE OLIVEIRA partiu deste mundo em direção ao oriente eterno iluminado pelas luzes do universo.

Márcio Barroncas de Oliveira, professor de matemática e aluno/atleta do Professor Doutor Walcymar Souza Aleixo de Moura, o aranha. 🕸

E infelizmente no dia de ontem 14/02/2021 perdemos um de nossos mais antigos jogadores, daqueles que tiveram a felicidade e o prazer de ter aprendido a jogar em 1987, quando tudo por aqui começou, ALEXANDRE GONZALEZ se apaixonou pelo basquetebol no meio da rua e se tornou conhecido como PIRANHA do Basquetebol do Flamanal, passando a integrar como armador equipes de competição de basquetebol no Amazonas, sua ausência será sem dúvida sentida por todos que tiveram o prazer de conviver com ele e provar da verdadeira essência do esporte, a liberdade de jogar pelo simples prazer de jogar.

Alexandre Gonzalez, número 9 do Red Ducks, equipe de competição de basquetebol no Amazonas.

Para você meu amigo e colega PIRANHA que me acompanhou neste pequeno espaço de rua dedicado ao esporte que amamos e desfrutou comigo o prazer livre de jogar eu desejo que o Grande Artífice do Universo ilumine seu caminho, porque sua missão entre nós chegou ao fim, e a todos que por aqui ficaram só nos resta a tristeza de conviver com a saudade de sua ausência.

Alexandre Gonzalez, engenheiro pós graduado, atleta e músico


Professor Doutor Walcymar Souza Aleixo de Moura

Faculdade de Educação Física e Fisioterapia Universidade Federal do Amazonas

Author: Walcymar Aranha

Share This Post On
468 ad