Filhos da Mãe!

No plácido cômodo da casa grande a luz atravessa suavemente as cortinas brancas. Quadros com pinturas bizantinas, abstratos, abajur, candelabros, pequenas esculturas e tapetes compõem um ambiente repletos de heranças e valores transmitidos geração após geração. Um ordenamento físico e emocional carregado de apegos e representações emocionais para o jovem Pandolfi.

Dessas famílias tradicionais que se empenham nas velhas tradições. Vivendo às margens de problemas sociais e econômicas, os Pandolfi gozavam de prestígio na comunidade. Sendo a terceira geração a desfrutar uma vida confortável numa casa grande no elegante bairro do Ipiranga em São Paulo. Foi neste ambiente durante uma reunião dominical onde o caçula Ricardo Pandolfi informou à todos na mesa durante o café da manhã:

– Fui selecionado para um curso de Extensão em Antropologia no Amazonas!

Sem despertar maiores ânimos nos presentes, continuou. – Vou passar quarenta dias no meio da floresta! A primeira a indagar foi sua mãe; Como assim meu filho? Onde você vai ficar hospedado? Quem vai com você?

Embora tivesse 23 anos, dentro de casa, continuava a ser o filhinho da mamãe. O pai nem sequer fechou o jornalzão de Domingo que lia entre uma torrada e outra. Seu único aviso foi; Tenha cuidado com os mosquitos e serpentes! A irmã mais velha estava em alguma galáxia distante, afundada por completo no smartphone.

Era o início de julho de 2010 quando Ricardo Pandolfi deixou o clima subtropical do inverno paulistano para ser defumado no clima equatorial amazônico. Uma diferença média de 20 graus célsius além da enorme distância geográfica. Ricardo sabia que era longe e bem diferente. Achou que podia prever as pequenas intemperes e vicissitudes, porém nada que rachasse sua cabeça como a cena que presenciou naquela noite em um lugar tão distante, tão distante que parecia mais fácil chegar à Lua do que alcançar aquela comunidade no município de Santa Isabel do Rio Negro.

Os primeiros dias na capital amazonense foram de horror e espanto. Os resquícios da Belle Époque lhe pareceram insignificantes. Nem mesmo o exuberante Teatro Amazonas lhe chamou à atenção mais do que aquele povo caboclo que circula suado de um lado para o outro. Como um bom aluno de ciências humanas observava as pessoas para além das aparências, buscava refletir sobre as forças que agiam em cada gesto, modo de falar e pensar.

O sol escaldante enfraquece Ricardo de tal forma que nas vésperas de embarcar para seu destino no alto Rio Negro ele nem conseguia levantar da cama, desidratado e esgotado fisicamente, disse para seu companheiro de quarto. – Amigo se eu não acordar ou mesmo que esteja morto, me bote no barco em direção a Santa Isabel. A viagem há de me fazer bem!

Com as malas prontas e tudo organizado Ricardo levantou sentindo-se disposto e saudável. Acordou seus amigos de quarto, conferiram os e-mail e smatphones antes de finalmente seguiram para o porto onde o barco Princesa Isabel estava atracado. Um lugar sujo, repleto de urubus, cachorros e ratos voadores. Restos de alimentos no chão por todos os lados. E um odor de chorume onipresente.

Enquanto caminhava em direção ao barco os olhos e a mente de Ricardo capturavam tudo e todos. Em suas referências visuais aquela orla lembrava a Índia. A África ou ainda aquelas repúblicas das bananas na longínqua América Central. Já embarcado um marujo lhe perguntou: Você sabe dar nó na sua rede? E em seguida completou: escolhe logo um lugar para atar sua rede, se não você dança! filhos da mãe

Na véspera Ricardo comprou uma rede no mercado municipal e embora não levasse o menor jeito, atou sua rede onde julgou ser o melhor lugar. Próximo aos banheiros e a escada. Quando o comandante do barco deu a partido no motor tudo estremeceu. Era um barulho reconfortante, pois trazia consigo a certeza da partida. Aquele lugar nem poderia ser chamado de porto, é um atracador primitivo com balsas velhas e empenadas.

A buzina assoviou três vezes, era o sinal para os marujos soltarem as cordas que amarravam o barco. Bem lentamente afastaram-se da orla suja e feia para um lugar idílico e misterioso. À medida que se invertia os sons e a paisagem verde foram crescendo, os sete estudantes paulistanos imergiram na atmosférica amazônica com quem mergulha em um rio ou no mar.

Horas depois as únicas referências de civilização eram o barulho do motor do barco, além dos pequenos apetrechos tecnológicos embarcados junto com os estudantes. Ricardo fitava as margens do Rio Negro como quem enxerga um filho pela primeira vez. Uma infinidade de pássaros com todas as cores da aquarela. Singrando o rio nem logo perceberam que na floresta o clima é sempre mais fresco.

As distâncias e dimensões ganharam formas que aqueles jovens estudantes jamais perceberam. Entre os mais sensíveis tudo aquilo era como uma realidade paralela. Os mais atentos recebiam mais estímulos sensoriais e mágicos do que jamais puderem receber diante das telas de um computador ou smarthphones. A proposta de “Realidade Aumentada” oferecida pelas grandes empresas de tecnologia perante a realidade Amazônica não é mais real nem mais aumentada do que uma simples trilha de formigas descendo do alto de uma castanheira. Tudo é exuberante e assombroso.

O véu da noite espiava os últimos raios de sol quando Ricardo resolveu experimentar sua rede pela primeira vez. Após um logo dia curvando-se para as maravilhas tropicais foi paixão à primeira dormida. Com a barriga cheia, as carícias do vento e os sons do motor, dormiu feito uma criança e quando acordou de fato estava diferente.

Mais disposto, confiante e focado no que viera fazer ali. Um curso sobre as características raciais e sociais dos habitantes daquela remota região no alto Rio Negro. Porém, nada de chegar, os cavalos de potência do motor pareciam infatigáveis e continuavam trabalhando sem cessar. Três dias inteiro de viagem com vistas para o nada, ou se preferir, para o tudo.

Foram ás 72 horas mais longas e reflexivas da vida de Ricardo Pandolfi até ouvir um colega dizer: “Chegamos” enquanto apontava o dedo para o que parecia ser uma pequena vila na curva do rio. Contudo, entre o “chegamos” até chegar, passaram-se mais duas horas. Um dia e meio de viagem. E era bom se acostumar porque nos próximos dias faria inúmeras viagens em pequenas lanchas. Viagens de seis, sete, oito horas por cada trecho de viagem.

Finalmente desembarcaram na cidade de Santa Isabel do Rio Negro. Era o que se podia chamar de Civilização. Contudo, aquela era uma expedição científica e não turística. Dali em diante era imersão total nos campos de pesquisas. As orientações foram dadas e cada um sabia o que fazer em seus respectivos pontos de observação e análise. A rotina, bom não tinha. Cada um se organizava como podia. A liberdade crescia com a ordem da disciplina, e nisso Pandolfi era metódico.

O tempo livre era preenchido com visitas às vilas e comunidades próximas. Entenda-se como próxima, seis horas de lancha. Subia e descia os rios que os transportavam para as profundezas da floresta. Era um território onde índios naturalmente andavam nus, pintados e utilizando suas ferramentas de caça e pesca. Às horas passam diferentes por ali. Como um expedicionário Ricardo filmava tudo com muita atenção.

Foi em um desses rincões que conheceu o arredio e circunspecto Índio Catitu, um rapaz de aparência muito distinta. Parecia um curupira, tinha o maxilar enorme e os dentes de cavalos eram ainda maiores, parecia não caber na boca. Seus olhos vermelhos e um corpo marcado por cicatrizes. Algumas, na visão de Ricardo, pareciam ter sido auto infligidas.

De fato, até para os nativos da região Catitu era um arquétipo de Curupira. Seus pés embora não fossem virados como os de um Curupira, eram todos esfolados e os dedos dos pés apontavam um, para cada lado. A despeito de toda essa aparência, Catitu conhecia a floresta como ninguém. Mesmo com um português quase ininteligível, se fazia compreender e explicava tudo o que sabia para Ricardo que o observava atentamente toda aquela distinta cosmologia do rapaz indígena.

Em uma manhã de daquele mês, Ricardo e outro amigo foram convidados para uma festa em uma comunidade distante sete horas de lancha. Para essa viagem levantaram ainda de madrugada e seguiram para lá com o piloto da embarcação que já os aguardava. Saíram ás 5h da manhã. Navegaram a manhã inteira até alcançar à comunidade meio dia em ponto.

Festas e celebrações são um prato cheio para antropólogos, nesses ambientes é possível captar e avaliar as interpelações da comunidade, os indivíduos em classe, gênero e respeito.

No centro da comunidade um buraco no chão esfumaçava coberto com folhas de bananeira. Cachos de banana, macaxeira, mamão, e demais frutas e legumes que os paulistanos nunca viram ou experimentaram. Debaixo daquelas folhas de banana: carnes de anta, caititu, paca, cotia e macaco. Os homens conversaram animados de um lado e as mulheres do outro lado cuidavam dos temperos, das panelas e crianças.

O sol foi-se se inclinando em direção ao poente quando os homens começaram a tirar e servir toda aquela carne. Nada de pratos ou talhares. Bastava um pedaço de folha de bananeira e mãos ágeis para comer. Quando estavam todos servidos e comendo, uma pequena canoa surge do outro lado do rio, alguém assovia e gesticula para os presentes. De súbito uma índia velha sussurra algo. Por alguns instantes todos ali presente ficam um olhando para o outro sem entender nada, até um senhor explicar: Lá vem o Catitu, ele é filho dessa senhora. Deve estar bêbado.

Catitu chegou sem cerimônias para se tornar a maior atração daquela reunião. Gritava palavras em seu idioma nativo, encarava as pessoas, apontava e gargalhava feito um curupira. Porém, todos os presentes demonstravam paciência e piedade com aquele bebum. Ficou o por ali atormentando um e outro, não largava sua garrafa de cachaça e ninguém o viu comer nada.

Na boca da noite as pessoas começaram a ir embora. Alguns apressados e temerosos com os raios e trovões que explodiam no horizonte. De súbito restaram apenas os estudantes, Catitu e a velha senhora que o tempo todo se mostrava indiferente aos gritos e agressões do seu filho ébrio. Quando a lancha que vinha buscar os estudantes chegou, uma chuva fina anunciava que já não poderiam escapar daquela tempestade.

Já embarcado com seu amigo, Ricardo olhou para a senhora sentada em um troco no alto do barranco, sentiu-se culpado por deixa-la ali sozinha com Catitu que gritava com os olhos fixos no céu. Pediu permissão ao piloto do barco e dali mesmo acenou para a senhora: Venha – Venha, nós vamos lhe levar em casa. Eles moravam à cerca de duas horas descendo aquele rio.

Antes, porém, ela apontou para seu filho que rodopiava em estado de transe. A senhora o espiava naquela penumbra como quem pede clemência. Os rapazes temiam que Catitu embarcado viesse a cometer alguma loucura. Todavia não conseguiriam deixa-lo sozinho ali.

O piloto da lancha apontou a proa para embocadura do Rio e acelerou. O vento contrário à chuva, fazia com que cada pingo fosse uma pedrada. As ondas no meio do rio agitavam a pequena embarcação que parecia prestes a rachar no meio. Todos estavam temerosos, menos Catitu que sorria de orelha a orelha. Uma rajada de vento muito forte derrubou um galho de árvore bem frente da lancha. Com o impacto todos foram atirados ao rio.

De súbito, parecia não haver ninguém. Parecia que tinham atravessado um portal. Ou estavam todos mortos ou tudo aquilo era ilusão. Um sonho. Raios e trovões explodiam bem diante dos náufragos. Ricardo estava submerso enquanto todos gritavam seu nome. Ele era o único que não respondia. Só despertou quando seu corpo fora envolto, como que por um milagre, por um capim Canarana, deixando sua cabeça para fora e permitindo dar um primeiro suspiro, antes de retomar sua consciência novamente.

Assustado, sem poder enxergar um palmo na frente do nariz, com água até o pescoço Ricardo Pandolfi esfregava os olhos na tentativa de enxergar algo no clarão daqueles raios. Gritou por socorro o mais alto que pode, até que Catitu o escutou e foi em sua direção. Alcançando Ricardo procurou acalmá-lo e disse que o barco já estava vindo resgata-lo.

A passar com todos já embarcado, o piloto sorriu e disse: “Vamos rapaz, foi só um susto. Agora o senhor foi batizado”. Ainda em estado de transe, o rapaz nem respondeu. Embarcou com Catitu e continuaram a viagem, desta vez seguindo pelo meio do rio. Mas a chuva continuava forte. Temendo novos acidentes o piloto disse que não poderia mais seguir viagem. Teriam que dormir em algum lugar aquela noite. E o mais perto era a cada de Catitu.

Uma casa de madeira grande e velha, com teto de palha e caindo aos pedaços. Um candeeiro valente se mantinha acesso debaixo da cumieira. Balançava de um lado para o outro com os ventos da tempestade. Horas antes, ninguém poderia imaginar aquilo. O piloto amarrou a lancha em uma árvore forte e permitiu que todos desembarcassem.

Ainda assustados, molhados e com frio, os rapazes paulistanos foram guiados por Catitu ao local onde passariam a noite. Em um vão grande na entrada da casa, sem janelas ou portas, paredes furadas e teto de palha. Era o melhor lugar que poderia estar naquela noite chuvosa no meio da floresta. Por sorte que as mochilas eram à prova d’água e não encharcaram as roupas.

A tempestade foi se acalmando, dando lugar a uma brisa fria que envolvia toda a casa. Horas depois todos pareciam estar dormindo. Ricardo ainda delirava em pensamentos com tudo o que acabara de lhe acontecer. Imaginou o conforto de sua cada do Bairro Ipiranga em São Paulo. Os afagos de sua mãe e das manias do seu pai. Pensou consigo a primeira vez na vida, nos altos dos seus 23 anos; “Porra, agora sim. Eu tenho história pra contar!”. Era o regozijo dos sobreviventes.

Bem mais calmo e contando as estrelas no céu, Ricardo estava prestes a embarcar no sono quando ouvi um barulho estranho vindo dos fundos da casa. Um gemido cadenciado, seguindo de um barulho similar aos de uma bomba de gás. Intrigado com aquilo, pensou no louco do Catitu e antes de imaginar mil coisas, levantou-se e segui nas pontas do pés para os fundos da residência. Ele não estava pronto para aquilo. Seus dias de pesquisador na Amazônia estavam por terminar com o chave ouro. Isto é com um tremendo choque cultural.

O barulho de bomba de gás persistia. Ricardo ia tateando as paredes. A luz das estrelas era tudo o que tinha para iluminar aquela cena. Guiando-se pelas paredes, sentiu a madeira puxar. Era os punhos da rede fixada nas paredes de madeira. Como um ninja, Pandolfi se agachou e fitou por estre as brechas da madeira.

Nada poderia prepará-lo para aquilo. Como num passo de mágica aquela noite, marcou a vida de jovem Pandolfi para sempre. Dali em diante tinha se tornado com todas as letras um expedicionário batizado com fogo e ferro. Deslocado do centro de sua galáxia para aquele lugar inóspito e selvagem teve o que se pode chamar de – Um choque de realidade.

Deitada de bruços na rede com o vestido levantado até a cintura a senhora era currada violentamente pelo próprio filho. Catitu agarrou nos punhos da rede e empurrava com força sua genitália no lombo da própria mãe. Sem saber o que fazer, Ricardo Pandolfi, deu meia volta e seguiu pisando leva nas madeiras até seu canto, onde dormiu junto com a noite mais louca da sua vida. Estava diante de uma questão antropológica. Analisou tudo e mesmo que a ciência lhe desse respostas sua alma permaneceria inquieta para sempre.

Aquela pergunta: Era consentido ou não?

O dia amanheceu, todos se despediram de Catitu e sua mãe e seguiram rapidamente para a sede do munícipio. Desde então eles nunca mais se viram. Ricardo Pandolfi por um acaso tinha uma foto com o Catitu, a mesma foto que usou para ilustrar sua apresentação no curso de antropologia da USP onde dentre outras coisas, explicou tudo o que viu e sentiu naquela remota região da Amazônia. Alguém ainda perguntou:

– Mas a velinha consentiu?

E resposta; Para mim o mais importante é refletir sobre o contexto de vida daquelas pessoas. Despir-me de meus valores morais e sociais para então, como um autêntico cientista avaliar a cosmologia daquele lugar místico e selvagem. Essa pergunta não tem resposta. Se quiseres saber, volte lá e pergunte você mesmo!

 

Bruno Marzzo

Author: Bruno Marzzo

Alguém que colheu tudo que plantou. Mas não plantou tudo que colheu! Não entendeu? Relaxa, isso não fará a menor diferença por enquanto! Site: http://brunomarzzo.blogspot.com.br/

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