Exposição Tamurá estreia hoje na Casa das Artes

Depois de um momento triste, tem sempre aquele que lembra que a vida segue. Quando se trata de quem escolheu  viver reciclando lixo e transformando em percussão os passos dessa caminhada precisam ser seguidos. O luto de um amigo ganhou a força de uma homenagem e a reunião de entes que valorizam e agradecem ao que foi plantado. O artista da percussão Maurizio Torres será tema da exposição intitulada Tamurá Percuteria Maurizio Pessoa Torres Maumao, a partir de hoje, às 19h, na Casa das Artes que fica no Largo São Sebastião.

O artista visual e figurinista Adroaldo Pereira comenta sobre a sincronia das pessoas envolvidas em relação a esta exposição. “É a continuação de uma ideia. Já dava pra sentir uma emoção especial quando o Bernardo me contou que a mãe do MauMao estava arrumando algumas coisas que eram dele. Sem saber o quê, já era possível imaginar que se tratava de fragmentos de projetos que foram interrompidos”, explicou.

O cantor e compositor Magaiver Santos também participou desse mutirão e junto com o André de Moraes militam sobre o valor das palavras escolhidas por Maumao em relação a sustentabilidade. Antes mesmo do inicio da exposição, os artistas anunciaram em suas redes sociais a arrecadação de chaves e tampas de pet e o resultado é expressivo.

Som de cachoeira feito com tampas de garrafa pet? Sim, o vilão do meio ambiente pode ter outro destino e ser ferramenta de transformação social para quem quer viver de música. Isso sem contar com as chaves de portas que já não se abrem, juntas, dão vida a outro produto.

A abertura será as 19h com apresentações musicais e demonstração de objetos transformados em percussão. O artista Diego Batista idealizou uma caricatura em stencil. Também fazem parte da exposição projetos iniciados, palavras de homenagem e exibição de vídeos e acervos de amigos editados por Michelle Andrews. Ainda com pano de fundo na percussão, a trilha sonora da noite será com os percussionistas João Paulo Ribeiro e João Carlos Ribeiro. Pai e filho que transcendem unidos por sons e movimentos que lembram os anseios da natureza e o DJ Vini com um set percussivo embalando a noite.

A exposição é gratuita e vai ficar em cartaz todos os dias de 15h às 21h até o dia 21 de Agosto. Durante todo o mês, serão resgatadas tampas de garrafa pet e chaves sem uso. Para esta ocasião os ativistas e músicos Marcelo Rosa e Diogo França assumiram a missão de produzir novos instrumentos de percussão.

Ainda de acordo com Adroaldo, a exposição será mutável e interativa. "Toda semana, haverá uma apresentação musical com foco na percussão, semana que vem terá uma oficina prática de percussão com Érika Tahiane (Casa de Caba) e os membros do Maracatu Pedra Encantada. Na semana seguinte, será um pocket show acústico da banda Cabocrioulo e na última semana apresentação experimental do Sindicato dos Artistas Carentes", convidou.

Tamurá significa tambor indígena

Programação musical

Dia 12/07 – Abertura

Dia 21/07 - Oficina de Percussão do Maracatu Pedra Encantada às 16h

Dia 27/07 – Cabocrioulo acústico

Dia 10/08 – Experimental do Sindicato dos Artistas Carentes

  • É ISSO MESMO!

Engana-se quem pensa que o Maumao era um artista apenas das baquetas. Uma das canções mais esperadas do repertório da Cabocrioulo era o momento da performance da música 'É isso mesmo! (Eu sou um hippie)', criada e cantada por ele. As frases que representam parte da história do músico poderão ser escritas em algumas paredes da exposição. Para dar uma prévia dessas palavras, clica embaixo e continua o texto ouvindo:

 

A exposição foi uma manifestação altruísta. Sem um projeto elaborado, longe de um burocrático edital público, mas com a força sinérgica da mobilização orgânica de artistas e amigos de Maurizio. Se elencar uma ficha técnica dessa iniciativa, temos inúmeros nomes fortes e teremos uma ação nutrida de gratidão.

 

Ficha técnica

Adroaldo Pereira

André de Moraes

Bernardo Mesquita

Diego Batista

Diogo França

Érika Tahiane

Magaiver Santos

Marcelo Rosa

Michelle Andrews

O professor e também percussionista Bernardo Mesquita, além de vizinho, foi um dos mobilizados por Maumao. Parte dessa emoção, foi condensada em um poema que será afixado em uma das salas da exposição, segue:

Acerca do limbo silencioso imposto aos seus criadores, já sabemos. No porto de lenha quando morre um artista a cidade inteira comemora. E se a imagem de algoz de seus artistas persiste perturbadoramente é contra ela que neste momento erguemos as barricadas. Ó insensível selva concretizada, tens o capital cravado no coração da floresta e já nem se sentes nada, a vontade de vencer encurralada pelo trabalho precário, sonhos naufragados. 

Sobre o que trata a exposição? Da vida, música, sonhos, conquistas, tragédias e trajetória de Maurizio Pessoa Torres (1979-2018), músico manauara, artesão dos sons e dos sonhos. Filho da dona Inês e pai de Manuela, sua versatilidade e cosmopolitismo não apagou a singularidade da sonoridade amazônica que se manifestava em sua fértil musicalidade. Sua feição pela percussão marcou o seu caminho em ritmos e devaneios.

Criado nas batucadas da Aparecida e nas toadas do boi em Manaus, formatada pelo estudo e dedicação de diferentes referenciais, Maurizio despertou pra música muito cedo e logo se destacou na vida musical manauara. Não demorou para que tivesse a oportunidade de disseminar sua música em outras terras. Suas apresentações na Europa significaram um momento de reconhecimento merecido. 

Sua consciência ambiental estava em seu trabalho de coleta de material para construção de instrumentos, sua leveza e sensibilidade contagiante, assim como a inventividade na construção de levadas únicas na percuteria, compõem essa vida em versos e dores. Uma vida dedicada a criação e invenção. Celebramos um artista inteiramente integrado a vida musical de sua cidade, comprometido com as pessoas que o cercavam. Sua música e presença não serão esquecidas pelo descaso que usualmente se lança contra os valorosos frutos musicais da cidade. Queremos destacar que nesta trajetória nada foi em vão e que agora somos brindados com sua história, o legado de sua memória prenha de vida, música e alegria. Tâmo junto caboco.

Se de alguma maneira você também foi mobilizado pelo Maumao deixe um comentário e compartilhe um pouco de sua experiência com esse músico.

Renata Paula

Author: Renata Paula

Jornalista profissional, editora de conteúdo do Portal Xibé e repórter nas melhores horas.

Share This Post On
468 ad