Emprego ou obra-prima?

obraprima

Para muitos trabalhar é uma forma de ganhar o pão de cada dia, seja ele só seu ou de uma família inteira. Engano pensar assim.  Um amigo uma vez descreveu seu trabalho exatamente desta forma durante uma conversa sobre esse assunto: “Eu me divirto todos os dias fazendo o que eu gosto, e você acredita que ainda me pagam pra isso?”. Um tapa na cara da sociedade que chega mal-humorada na empresa, trata mal os colegas e ainda justifica que é segunda-feira!

Estariam essas pessoas satisfeitas com o que fazem? E os que não encontram motivação para realizar uma missão incrível? Resolver um grande problema do seu setor ou apresentar uma sugestão que há tempos vem bolando para melhorar o clima do lugar onde encontram as mesmas pessoas 44 horas por semana? Varrer um chão como se fosse o seu, atender um cliente como se fosse alguém muito querido, dedicar 10 minutos do seu dia para ensinar aquela senhora a mexer no bendito Excel: por que tem gente que simplesmente não consegue?

“Não é minha obrigação”, “Não faz parte das atribuições do meu cargo”, “Não é para isso que sou pago”, “Não, não e não”, “Não posso falar agora”, “Não estou aqui para trabalhar com você nem para dar o melhor de mim, estou apenas ganhando o pão de cada dia, por favor feche a porta ao sair”.

Profissionais assim temos aos montes e tenho certeza de que você além de já ter sido vítima de um, com certeza tem amigos, parentes e inclusive pode ser um deles.

Pois tenho uma triste notícia para o Ganhador de Pão: o mundo precisa que você pare de trabalhar e comece a realizar a sua obra. Sua equipe, seu chefe, sua empresa, seus clientes, sua comunidade, seus amigos e sua família precisam que você faça mais que trabalhar. Seus filhos e netos (talvez futuros) precisam desse exemplo. Realize uma obra, deixe um legado e uma contribuição moral em relação ao seu trabalho.

O trabalho dignifica o homem não por dar a ele condições financeiras de estabelecer um lar e uma vida social plena. A dignidade está para além do dinheiro, está ligada ao respeito que as pessoas têm pela sua imagem profissional, imagem essa formada pelo conjunto das metas que você atinge, da qualidade do seu serviço, do seu conhecimento, do seu comportamento e do que você deixa de você para as pessoas com quem trabalha e convive. Profundo demais?

Vamos ilustrar!

Gosto de citar alguns autores no que escrevo, acredito que o embasamento dá um sabor a mais ao material. Mario Sergio Cortella é um filósofo e escritor que já chegou ao seu doutorado e tem o respeito de muita gente na área de Educação. Mario colocou em um de seus livros algumas inquietações sobre o trabalho, e numa delas diz que “temos carência profunda e necessidade urgente de a vida ser muito mais a realização de uma obra do que de um fardo que se carrega no dia a dia”. Ele cita o exemplo de um bombeiro, que por um salário não tão nobre realiza de maneira emocionante o que a maioria de nós não está disposta ou se sente capaz de fazer. E depois de tantos desafios durante o dia, volta para casa de cabeça erguida, com o enorme orgulho de simplesmente SER bombeiro e realizar algo realmente importante. Por que ele volta de cabeça erguida? Porque ele vê sentido naquilo que faz, na obra honesta, no serviço ao outro. É difícil acreditar que um bombeiro é bombeiro apenas para ganhar o pão de cada dia. Bombeiros realizam uma obra diariamente, não somente trabalham e ganham o pão de cada dia.

É importante que você conheça seu potencial e como pode contribuir. Se você não sabe do que é capaz então dificilmente conseguirá realizar uma obra. Uma dica: reconheça suas atribuições, defeitos, limites, etc. Se você descobrir que não está disposto a determinadas coisas, assuma para você mesmo e não force uma barra que provavelmente vai terminar junto com seu contrato de experiência no lugar onde você começou a trabalhar dizendo que “ia vestir a camisa da empresa”. Escolha aonde você vai dar o seu show, realizar seu brilhante trabalho. Isso é muito importante!

Durante as seleções que já realizei ao longo dos meus alguns anos de RH tenho criado inúmeras expectativas acerca de candidatos que se apresentam com um ótimo discurso, os famosos: “Quero vestir a camisa da empresa”, “Quero ajudar a empresa a crescer” ou simplesmente “Eu quero mesmo é trabalhar, me dê trabalho que a senhora vai ver só uma coisa”. Muitos me diziam serem pró-ativos, cheios de iniciativa e os melhores trabalhadores em equipe do país. Mas infelizmente todos leram isso em alguma revista ou assistiram em algum programa de TV (ensinaram errado por sinal) que esse é o discurso ideal para conseguir uma vaga de trabalho. Palavras, apenas palavras. As pessoas que apenas reproduzem esse discurso com certeza não fazem ideia de como ajudar a empresa a crescer, aliás nem sabem o motivo de uma empresa querer isso de um colaborador. Entenda, caro leitor, empresa nenhuma quer meros decoradores de textos. Empresas querem pessoas que tenham visão de crescimento, que queiram aprender e somar forças, afinal é o processo de crescimento e maturidade da equipe que gera o crescimento da organização. Por favor, nunca mais repita essas frases a nenhuma selecionadora. Por dentro ela estará lamentando muito por mais uma pessoa que não sabe o que de fato tem a acrescentar ali e apenas reproduz o velho blá blá blá de entrevistas de emprego.

Brinco dizendo que a bola procura pelo craque. A oportunidade só serve para quem está preparado. Trabalho algum surgirá para quem não estiver disposto de verdade a SER cada vez melhor, a crescer pessoal e profissionalmente. Mas hoje em dia as empresas buscam algo além: gente que realiza e que se realiza!

A autorrealização no trabalho não depende do salário que você ganha, do nome da sua empresa, das regras ou da cor do uniforme que ela pede pra você vestir: é sua, independe do meio externo. Aos que procuram uma oportunidade de trabalho desesperadamente para pagar as contas, uma notícia: você vai continuar desempregado se não mudar sua visão, pois pode até arranjar um emprego aqui e outro ali, mas vai continuar pulando de galho em galho enquanto não encontrar a profissão ou o trabalho da sua vida, que te faça sentir orgulho por ser/fazer essa mesma coisa todos os dias. Quando os consultores de carreira falam na TV que você precisa mesmo procurar um trabalho que te realize, estão falando a mais pura verdade. Quando você está satisfeito fazendo uma atividade ela sai naturalmente bem feita e as possibilidades de algo dar errado ou ser interrompido prejudicando o sucesso da atividade são mínimas.

Goste, veja sentido e então valorize o que você faz. Acredito que essa é uma fórmula básica pra que o sucesso profissional aconteça. A questão da valorização pode parecer algo que o seu chefe deveria fazer, mas na verdade quem primeiro precisa reconhecer a grandeza e valor do que você faz é você mesmo. Como? Eu sei que a minha obra profissional é selecionar pessoas. Em momento algum eu posso diminuir a grandeza do que faço, porque se um dia o fizer, certamente começarei a dedicar menos atenção e produzir com menos qualidade, pois só se faz mal feito aquilo que acreditamos não ter muito impacto ou serventia. Mas se vejo o trabalho que realizo como uma obra, como algo que tem muito valor e importância, sem sombra de dúvida meu comprometimento em fazê-lo sempre bem feito será cada vez maior. Logo, eu não preciso esperar pelos tapinhas nas costas de “parabéns” dos meus superiores para ver naquilo que faço uma obra prima. Eles é que vão acabar percebendo a grandeza do meu trabalho de tão bem feito que ele é!

Pode parecer cômico, mas se a gente olhasse o trabalho que faz como uma obra de arte, nossa... Quanta diferença! Se formos avaliar a motivação dos artistas plásticos mais brilhantes, veremos que todos eles produzem suas obras independente do que é feito delas. Uma pintura, uma escultura ou uma música tem um valor muito maior para quem faz do que para quem vê. Aliás, é a paixão colocada na obra que encanta seus admiradores.

Se eu pedisse para um vendedor se apaixonar pela peça de roupa que ele vai vender naquele dia e dissesse que essa paixão influenciaria diretamente no interesse do cliente por ela, provavelmente seria motivo de boas risadas. Mas pense você daí, leitor, como é bom ver alguém apaixonado pelo que faz, como é bonito ver alguém abrindo um sorriso dizendo que realizou um sonho de infância escolhendo tal profissão ou que sente muito orgulho por realizar o mesmo trabalho todos os dias. Como é bom ver uma pessoa envolvida, comprometida, apaixonada pelo que faz!

Costumo prestar atenção naquelas fotos de funcionário do mês das empresas de serviços e sempre procuro o rosto do escolhido no meio dos funcionários do estabelecimento. Eu quero conhecer o artista, o famoso funcionário que teve ótimos resultados. Quero ver nos olhos dele o brilho que vejo nos olhos da foto. E pra minha felicidade várias vezes fui atendida pelas pessoas que estavam nos quadros de destaque da parede. Que sensação ótima é a de saber que eu estou sendo atendida pela pessoa mais esforçada e dedicada daquele mês! Eu sou uma privilegiada naqueles minutos de atendimento!

Um exemplo muito bonito que vivenciei na última semana de devoção à própria obra foi o que vou contar em seguida. Deixei para o final deste texto o que foi uma confirmação que eu há tempos procurava entre os candidatos e colaboradores que passaram por mim durante os últimos anos.

Estive internada por 5 dias em um Hospital Militar por conta de uma infecção forte na garganta. Não conseguia falar e mal engolia água. Passei por um procedimento doloroso que me deixou um dia inteiro com fortes dores e emocionalmente frágil. Acontece que nesse hospital não tinha uma cozinha, os alimentos vinham da cozinha do quartel e por conta disso foi difícil conseguir comida somente pastosa ou líquida para mim. Mas todos os dias eu recebia mingau.

Somente ao final de minha internação, ao ver um prato característico de uma cozinha de casa, descobri que o mingau que vinha para mim todos os dias não era do hospital! O chefe da copa, um sargento muito distinto, simpático e de meia idade veio me dizer que tinha conseguido gelatina para mim e explicou que aquele prato era da casa dele; sua esposa esteve fazendo mingau pra mim durante os últimos dias mas naquele dia não deu tempo de tirar do prato de casa.

Perguntei por que ele fez isso se eu não tinha pedido nem eram ordens médicas. A resposta que ouvi foi: “Bem, a senhora não conseguia comer nada sólido... não poderia ficar com fome não é?”.

Neste dia, além da alta hospitalar recebi a confirmação que tanto almejava: quando você gosta, vê sentido e valoriza o que faz é impossível ver dificuldades maiores que a sua vontade de trabalhar; você entende que aquilo que você realiza é importante pra você e muito mais para as outras pessoas e respeita tanto a sua profissão que é incapaz de ver algo dar errado e não fazer nada a respeito. Provavelmente nada mudou na vida deste sargento por conta desse mingau. Mas o fato de ter ido alem do prescrito e de ter visualizado a oportunidade de realizar algo maior que o seu trabalho com certeza o tira do time dos ganhadores de pão. Ele vai receber o mesmo salário de sempre no próximo mês, mas o respeito e a admiração dos colegas (e desta que vos fala) e a convicção de que fez algo importante são valores imensuráveis e que o tornarão um profissional ainda melhor. Este sargento foi além do seu trabalho e nunca imaginou que deixaria um legado moral na minha vida com a obra dele. Não foi caridade, foi profissionalismo mesmo. Pois profissionalismo é isso: você vê uma grande responsabilidade em tudo o que faz, e se para alcançar um resultado for preciso que você se supere, então que assim seja.

Espero que este pequeno exemplo de gosto, reconhecimento e respeito pelo próprio trabalho faça você refletir sobre o que escolheu como profissão e se você ainda está ganhando pão ou se já iniciou a sua obra. Não deixe que seus dias profissionais passem sem deixar um legado para aqueles que ficam.

Seja um realizador de obra que se realiza todos os dias com cada parafuso, com cada passo de valsa com a vassoura, sinta o prazer de ser excelente no que você faz a cada planilha terminada, a cada documento que você arquiva, sinta o delicioso aroma de satisfação dos seus colegas por poderem contar com você e com o seu resultado.Realize sua obra com paixão. Cairão padarias dos céus para você.

Por Marília Desideri - 27 anos, amazonense, psicóloga clínica e organizacional, consultora de R&S e T&D e acredita que seu trabalho ainda é um hobby.
Marilia Desideri

Author: Marilia Desideri

Psicóloga Clínica e Organizacional; Consultora de R&S, T&D. Seu hobby é trabalhar.

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  • Eduardo

    Excelente texto. As pessoas de grande sucesso financeiro são unânimes quando dizem “faça o que você gosta e o dinheiro será consequência”.