Dois

Era o último final de semana dele na cidade, tinha conseguido um emprego noutra capital, ia embora daqui como sempre desejamos, depois da festinha de despedida com todos os amigos, o resto do final de semana concordamos em passar apenas um com o outro. Faríamos umas últimas fotos, que aliás, foi como tudo começou, uma amizade que se estendeu depois do convite para uma sessão, que pegou ainda o fim do último namoro dele, que mudou de cor quando os dois já meio alterados em uma festa, consolaram um ao outro num dos banheiros do lugar. Até então, a tensão entre nós não passava de um abraço mais apertado ou daquela mãozinha mais leve colocado o rosto no melhor ângulo pra pegar a luz boa. A tarde começou com duas garrafas de vinho, um belo par de lingerie e a maquiagem ainda da noite passada, ele dizia que ia sentir falta da curva dos meus seios, enquanto eu  o desafiava a encontrar na tal cidade alguma mulher que tivesse fogo no olhar.

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Fotos: Emily Edwards

A segunda garrafa já tinha menos que a metade e duas pontas sobre a mesa, quando a conversa em que relembrávamos momentos bons foi interrompida por um beijo demorado, pelo meu corpo sendo empurrado contra a parede, do meu sutiã caindo no chão enquanto ele dizia que eu era dos temas favoritos dele. Acho que no fundo tínhamos medo de estragar, éramos os dois muito intensos, mas tinha muita fumaça, uma hora a chama ia pegar. Eu não sabia bem como ser de alguém, mas desde que ele chegou não saiu daqui e de algum jeito um pedaço meu ele foi ganhando. Peguei a câmera na mesinha ao lado do sofá e quis guardar pra mim aquele jeito dele de me olhar por baixo, entre as minhas pernas, seguindo o ritmo da minha respiração.

As mãos dele passearam por todo meu corpo e não sei se fez isso pra lembrar melhor de mim ou pra garantir que eu não esquecesse dele, semanas depois eu fechava os olhos e via aquela noite reprisando por trás dos meus olhos, sentia queimar cada parte minha que foi tocada por suas mãos e lábios. Pediu a calcinha que eu tava usando e fechou as malas, nada mudou na manhã seguinte, talvez só a falta que eu ia sentir dele, pareceu na hora um pouco maior.

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Fotos: Emily Edwards

Conversávamos às vezes pela webcam quando um dos dois, ou os dois, chegavam meio bêbados de alguma festa, foi como a brincadeira começou. Deveria ser umas 4 da manhã quando eu cheguei em casa, peguei uma cerveja na geladeira e liguei o computador pra ver alguma besteira, ele também tava acordado, me chamou pra tomar um copo à distância e pouco depois eu cantava junto com a música que soava pelo quarto e ele assistia fumando um cigarro. Mandou um link e disse que eu deveria dançar pra ele, os vocais etéreos começaram a me embalar e meu corpo começou a se mexer, perguntei se ele sentia minha falta enquanto tirava os shorts, ele se aproximou da tela e ficou observando concentrado enquanto eu tirava a blusa, “-Você não faz ideia…” murmurou e se sentou mais confortável na cadeira. Um longo gole e meus peitos sendo a única coisa que ele conseguia ver, uma das mãos desceu até a calça, virei de costas e devagar abaixei a calcinha, me curvei olhando pra trás, ele beijou a câmera.

Quebrava a monotonia dos dias as conversas safadas pelo celular e mesmo as que não eram. Certa noite tava num bar com alguns amigos e ele fazendo hora extra no trabalho, falou sobre umas fotos que fez de uma garota no parque pra um site, que achava excitante essa coisa de exposição pública e perguntou se eu teria coragem. Logo de cara eu disse que não, aí ele me desafiou, então decidiu que era uma ordem, e quanto mais tempo eu levasse pra enviar uma foto minha, seria o número de palmadas que ele ia me dar quando viesse na cidade de férias. Achei excitante, olhava nervosa ao redor esperando que todo mundo no bar parecesse distraído, ele continuava a contagem, entreguei o celular pra uma amiga e pedi que ela fizesse, levantei a saia do vestido, engoli o resto da cerveja depressa. Ficou maravilhado, reduziu a punição pela metade, por que disse que não ia perder a chance de finalmente dar uns tapas na minha bunda.

Me pegava vez e outra pensando numa boa ideia de foto pra mandar e me rendi àquela tensão de me mostrar pra ele, nos mais variados lugares e situações em que eu queria que ele estivesse ali, era como se ficássemos mais perto um do outro e já tinha uma pasta no meu computador com o nome dele e uma série de fotos de partes minhas. Até de algumas outras amigas que quiseram entrar na brincadeira quando contava o que estava fazendo. No começo era tudo pra ele, mas nesse meio tempo comecei a fazer por mim, descobri a altura da vida que tinha mais um talento, sabia me despir.

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Fotos: Emily Edwards

Parecia poesia o que ele declamava que faria comigo quando viesse à cidade, a melhor parte é que continuávamos os mesmos bons amigos de sempre e falávamos até das casualidades que passaram por nossas camas e em como o sexo com eles não tinha a mesma intensidade. Pra alguns esse parece um lugar bem complicado de se estar, mas era essa nossa liberdade que fazia com que fossemos sempre o do outro, sem importar que fosse outro corpo nas nossas mãos em outras noites. Mas não teve outra boca que eu sentisse realmente vontade de beijar.

Na semana em que ele chegaria fui fazer compras, pedi a opinião dele por mensagem quando escolhi as lingeries, mas o par que eu vestiria pra ele seria surpresa. Teria uma festinha na casa de um amigo de boas vindas e passei o dia todo mais ansiosa que o normal esperando a noite chegar, saí do trabalho correndo pra casa e depois de todo aquele ritual feminino, entrei no carro e contei os faróis até chegar no lugar. Eu já tinha tomado uns três copos de qualquer coisa quando ele entrou pela porta, nos vimos de longe, mas deixei diminuir a quantidade de abraços pra me aproximar.

Peguei uma cerveja pra cada e estendi pra ele, que me puxou pra perto e disse no meu ouvido que sentiu a falta de todo mundo, mas que mal esperava pra festa acabar e me levar pra casa e perguntou se eu lembrava quantas palmadas eu devia a ele. Duas doses de tequila depois, resolvi que não queria mais esperar, o puxei pela mão e nossos passos nos levaram sem palavras pro mesmo banheiro daquela primeira vez.

Author: Ells

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  • Alinha Guima

    Parabéns, lindo texto e lindas fotos, beleza Brasileira!