DJ e MC Fino recebe título da Zulu Nation

O DJ e MC Márcio Lúcio Santa Cruz também conhecido como DJ MC Fino, recebeu o certificado de Filiação à Nação Zulu Universal (Zulu Nation) pelo Ministro-Chefe do Governo Mundial da Nação Zulu Universal Afrika Bambaataa.

O documento manifesta: “Em nome da força suprema conhecida por muitos nomes Nós o honramos pelo seu posicionamento para se tornar um membro da Nação Zulu Universal. Você, como um membro da Nação Zulu Universal, tem muitos deveres a cumprir para nos auxiliar a transformar as situações ruins da vida em boas em nosso planeta. Ajudar a melhorar a vida de todos os humanos em nosso grandioso planeta. Defender a paz, unidade, amor, trabalho, liberdade, justiça, igualdade, verdade nos fatos. Ser parte de cada um, ensinar um, libertar um, ajudar um em nosso cotidiano. Ser um Zulu que dê suporte de saúde para todos, conhecimento para todos, liberdades para todos e justiça para todos. Nós somos Amazulu (os povos dos céus), para sermos construtores da nossa palavra e guerreiros para todo o nosso povo universal do nosso planeta neste universo. O criador de todas as coisas deu-nos os direitos sobre este planeta e para além em nosso universo. Nós somos todas as leis. Nós somos tudo de tudo e o todo está em nós. Você é Amazulu (povos dos céus).”

DJ E MC FINO: CARIMBÓ, DISCO e HIP-HOP NOS ANOS 70 E 80

Por Bernardo Mesquita

Em 1969 em Nova York o Festival Cultural do Harlem e o surgimento do grupo Last Poets, foram marcos decisivos para o surgimento do Hip-Hop no seio do capital-imperialismo. Em Belém, Verequete estava prestes a gravar seu primeiro disco de Carimbó. Em Manaus os festivais de dublagem, a Jovem Guarda e a Bossa-Nova predominavam nas festas da juventude. No mês de Abril deste último ano dos conturbados anos 60, nascia no hospital Ana Nery, o músico manauara Marcio Cruz Lúcio, conhecido como Dj e Mc Fino.

Ao longo de sua trajetória tornou-se um dos músicos mais atuantes na vida musical do Amazonas. O reconhecimento recebido de uma ampla parcela do hip-hop nacional, indica uma trajetória resultante da presença significativa da música na história das famílias de trabalhadores negros no ambiente urbano periférico.

No final dos anos 60, o terrorismo do estado capitalista contra os trabalhadores opositores da ditadura se acentuava perversamente após o AI-5. As universidades eram palco de perseguições e censura. As artes pulsavam e resistiam a violência autoritária estatal. A Amazônia foi integrada de forma dependente ao sistema capitalista transnacional e a região vivia transformações sociais diversas e de grandes proporções. O caráter desigual da composição urbana observa-se na formação dos bairros de periferia onde abrigavam-se os trabalhadores pobres.

Ao longo dos anos 70, Fino viveu sua infância no bairro Presidente Vargas, Bariri. Fruto da conjunção Pará-Amazonas o manauara nasceu da união entre Francisca Perez da Santa Cruz, filha de peruanos nascida em Fonte Boa-Am, e Cipriano da Santa Cruz de Belém, nascido e criado na cidade de Belém do Pará. Cipriano era dado a sair com violão nos braços trovando em recitais de literatura de cordel, expressando no cotidiano sua paixão repentista. Além disso cultivava outra afinidade musical incontornável: o carimbo paraense moderno dos anos 70. Juntamente com seu irmão Nilo, Cipriano colecionava discos de vinil e entre estes os de Carimbó e Lambada eram certos. Normalmente os discos eram comprados na loja Smonteiro, conhecida pela venda de discos dos artistas do Amazonas como Teixeira de Manaus e o grupo Carrapicho.

A relação Pará-Amazonas está na própria construção da história de Marcio Cruz. Fino lembra bem de Seu Homero, um paraense antigo morador do Bariri, vendia açaí batido na máquina, outro hábito forte que cultivava além de ouvir sua imensa coleção de disco. Seu pai Cipriano, que também colecionava discos, gostava de ouvir seu acervo constantemente como um exercício cotidiano no tempo de folga. Conta Marcio que os discos escolhidos por seu pai expressavam seu humor e condição emocional em dado momento. Na tristeza ouvia-se Cartola, Elza Soares, e algumas do Paulo Diniz, e na alegria as melodias de Tim Maia e Moreira da Silva eram certas. A música Naquela Mesa interpretada por Nelson Gonçalves, era uma das mais ouvidas na vitrola de seu pai, pela qual conheceu os clássicos da música brasileira como Benito de Paula e Chico Buarque. Neto do consagrado mestre Verequete, Mc Fino também foi influenciado pelo gosto musical de sua mãe. Foi dela também que soube da existência de seu avô paraense e do distanciamento de seu pai Cipriano, nascido do envolvimento de Corina com Verequete. São vivas as lembranças de sua vó Corina. Muito afeita a música de atabaque e pontos de umbanda dos terreiros do norte, Corina também apreciava o bom reggae maranhanse. Um dos acontecimentos mais marcantes para Fino foi seu encontro com Augusto Gomes Rodrigues em 2007. De passagem por Belém, Fino passou uma tarde conversando com seu velho avô carimbozeiro.

Até os 11 anos Fino morou com seus pais no Bariri. Após um período turbulento vivendo nas ruas, tornou-se adolescente no bairro São Jorge, rua da cachoeira. Neste endereço viveu momentos importantes para o desenvolvimento de sua musicalidade. O estabelecimento Ricardão Disco Club, era uma boate fundada pelo seu antigo cunhado Ricardão. Domingo tinha matinê, concurso de patins e a música funk ainda era escrita com “a” podendo ser encontrada escrita “fank” nos jornais locais. Era início dos anos 80, Funk e Disco Music predominavam nas rádios. Foi neste Club, circulando com facilidade num espaço composto por salões de dança, academia e piscina, que Fino conheceu os Djs Bola e Odias. No repertório destes Djs ouvia-se Earth Wind and Fire, Parlament, Frank Smith, Isac Reis e Giliard. A presença da Black Music e do contato com uma enorme variedade de discos de LP e pick-ups inicia ai, assim como também através de Osvaldo, primo de Fino, colecionador de discos da Motow, famoso selo de lançamento de artistas negros nos EUA. Osvaldo gostava de explicar sobre o racismo na música negra nos EUA e nos dramas de artistas como Marvin Gaye. Entre a juventude essa politização não era comum, porém, como Fino explica “a galera era mais do embalo” e podia curtir diferentes tipos de música desvinculando a sonoridade de suas implicações político-ideológicas próprias dos contextos onde surgiram. Enquanto a Disco foi tida como elitista nos EUA, em Manaus o público aderiu a tendência como comprova o sucesso feito pela sirene tocada nos salões das boates. A julgar pela receptividade positiva que as novas tendências musicais oriundas dos EUA tiveram na juventude das classes trabalhadoras pobres de Manaus, observamos que a Disco Music, o Hip-Hop e o Eletro-Funk ao contrário de rejeição, encontraram aceitação social neste contexto.

Redação

Author: Redação

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