Dirigindo por nós

Todos os dias tantos nascem, tantos morrem.

A vida é uma passagem para todos que vem e todos que vão.

E nesta passagem há tantos encontros e desencontros, tantas interações com e sem marcas que não há como caminhar sem sentir.

No último dia 28 de março sentimos uma profunda tristeza pois sabemos que mais de 10 se foram de uma vez e isso nos arrancou o fôlego, nos deixou sem ar e sem palavras.

Fica um vazio enorme na vida de famílias e círculos de amigos, vazio este que jamais será preenchido; os que ficaram continuarão a passagem sem os que se foram.

Acompanhando as mídias sociais tenho visto muitos especialistas em trânsito e em comportamento humano manifestando-se como se seus sentimentos fossem maiores que os de quem sofre do lado de lá, da culpa e da vergonha. Num momento como este ainda temos pessoas que conseguem julgar, punir com palavras, rogar pragas e desejar até o pior “para quem quer que seja o responsável” !

Será mesmo este o momento de pensar em culpa? Será que este foi o único acontecimento que merece reflexão sobre nossa postura no trânsito? Quantas vezes você que me leu já bebeu com os amigos e voltou para casa dirigindo?

Quantas vezes você já trocou de faixa ou dobrou uma rua sem dar a seta?

Quantas vezes você já saiu sem todos os equipamentos do seu carro em dia e em pleno funcionamento?

Você já buzinou para um pedestre que teve que atravessar às carreiras porque você, soberano sobre rodas, precisava navegar livremente pelas ruas destemidamente?

Quantos palavrões e gestos obcenos você ja fez nas nossas ruas enquanto cruzava uma batalha mortífera “com o babaca que te tomou a frente” na rua?

Quanta imprudência, quanta irresponsabilidade e quanta falta de senso coletivo você também já cometeu?

Somos todos reféns dos outros ou somos nós também um pouco iguais a esses “outros” também?

Somos espelhos. Aprendemos e ensinamos a partir de nosso comportamento.

Somos sim todos responsáveis pelo que um ou outro faz.

Geramos raiva, tristeza e ansiedade todos os dias quando colocamos nosso ego em frente ao volante.

Transformamos nossos veículos em armas, mas a nossa raiva é compreensível!

A nossa reunião, a nossa consulta médica, nosso horário no trabalho!

Tudo no mundo pode esperar, menos eu e você. É assim, não é?

Pois esta última catástrofe ocorrida em nosso trânsito me fez refletir sobre o papel de cada indivíduo no convívio coletivo em nossas vias. Somos interligados e não fazemos ideia disso. Somos responsáveis pelas vidas uns dos outros e nos sentimos mal porque nos demos conta disso SÓ HOJE.

Buzine para cumprimentar um conhecido no trânsito, não para afugentar um pedestre ou xingar outro condutor.

Saia mais cedo de casa para não ter que projetar nos outros veículos o seu atraso e a sua irresponsabilidade com seus horários.

Tenha compaixão por quem não faz o certo, não responda com agressão.

Violência, de qualquer natureza, só gera violência.

Manifeste o amor e a gentileza, não a raiva. A raiva você desmancha na academia, no chuveiro e no travesseiro.

Que os que deixaram essa vida encontrem a suprema paz. E que nós, pobres humanos, não precisemos ser tão inconsequentes e chegar ao caos para entendermos que somos coletivos e que nossa individualidade muitas vezes precisa entender isso.

Pela paz e prudência no trânsito e no coração dos homens.

 

 

Marilia Desideri

Author: Marilia Desideri

Psicóloga Clínica e Organizacional; Consultora de R&S, T&D. Seu hobby é trabalhar.

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