Cadeias Sociais

sequestro dom pedroTragédia, drama e humor na tarde ensolarada deste sábado. Eis um estrato social do Brasil marcado por desigualdades. Em um lugar bem urbanizado com calçadas e ruas arborizadas um centro comercial foi erguido recentemente. No local sorveteria – boutiques de luxo e uma agência de turismo ocupam o mesmo espaço. A vizinhança que cerca o estabelecimento  vive com relativa tranquilidade e paz.  Tem acesso aos bens e serviços da melhor qualidade. Um ambiente diametralmente oposto  àquele vivido pelo protagonista do primeiro ato desta ópera vespertina que presenciei a algumas quadras da casa de minha vó.

Um pouco mais distante, nos limites do conjunto Dom Pedro – uma rua que termina em um beco com encruzilhadas que conduzem a ruelas sujas e fétidas com nenhum traço de urbanização, salvo e guarde os postes e fios elétricos que chegam até lá. Nesse ambiente cresceu o filho mais novo de uma mãe solteira. Adegelson que não concluiu o ensino médio, estudou nas escolas públicas situadas no conjunto onde praticou o crime. Desde muito jovem demonstrava rebeldia e apresentava problemas escolares. Foi expulso de algumas por mal comportamento. Neste período começou a praticar pequenos furtos com as amizades que fazia na ruelas onde consumia drogas de todos os tipos.

Entre os inúmeros curiosos que se aglomeravam para acompanhar o desfecho daquela história, muitos inconformados cobravam uma ação da polícia; “Onde estão os atiradores de elite?”. Um policial que passou ao meu lado disse tranquilamente. “Se fosse por mim, já tinha matado ele há uma hora”. Um clima tenso. Voltando do trabalho a pé um vizinho de Adegelson, sem saber quem o que estava acontecendo parou para espiar. Demorou alguns instantes para perceber que se tratava do seu amigo de infância.  Posicionado bem na frente da porta do outro lado da rua, Marroca fitava tudo com atenção. Minutos antes de Adegelson decidir liberar a jovem Janaína Salgado que manteve refém por mais de três horas uma troca de olhares profunda aconteceu. “Ele ia entregar a moça quando olhou nos meus olhos. Olhei diretamente nos olhos dele. Acho que nessa hora ele ficou com vergonha”, enfatizou Marroca ao narrar tudo o que viu e sabe sobre a vida de Adegelson.

Ainda de acordo com Marroca, o rapaz que conheceu desde a infância talvez  tenha sofrido de maneira pior ao males de crescer em um ambiente desregulado, sem lazer e estrutura familiar. “Ele era o mais novo de três irmãos quando chegou para morar lá na rua. Os irmãos mais velhos são tranquilos. Trabalham. Mas ele, por ter sido o mais novo pegou uma pressão muito maior”, completou Marroca.

Humor

Como reflexo do nossos tempos e dos aparelhos  midiáticos que as pessoas carregam no bolso muitos desatentos circulavam próximo ao local. Alguns tão distraídos que parecia possuídos e completamente cegos. Digo cegos, para não dizer surdos. Posicionado bem no meio entre os negociadores da policia e o publico de curiosos acompanhei todo o desenrolar da história. Um ciclista insistiu querendo passar bem na frente da loja, só porque não queria mudar sua rota. Agora o mais absurdo foi um homem que atravessou a barreira policia e esse sim, quase causou uma tragédia.sequestro dom pedro 2

Com quem passeia num shopping center o homem de meia idade, vestido com bermuda e camisa azul. Caminhava firmemente com um fone de ouvido que devia estar nas alturas. Pois não ouvi os gritos de chamada da polícia presente. Achei até que fosse um coronel de policia nos primeiros instantes quando veio se aproximando. Eu estava no limite permitido pela polícia aos fotógrafos. Pois o homem passou por mim como se não tivesse visto nada, aqueles homens sentados na calçada com maquinas e câmeras de vídeo. Dezenas de carro de policia. Dezenas de policiais. Uma avenida interditada. Penso que aquele homem só podia ser louco.
Pois, não bastasse vir na direção de onde estavam os negociadores da policia. Atravessou a rua bem na frente da agência e foi caminhando até ser detido pelo braço por um policial. “Porra – você não tá vendo o que está acontecendo aqui. Isso podia dar maior merda. Volte imediatamente”. Um sorriso amarelo de uma cara de retardado o homem apenas sorriu e voltou para o meio da multidão. Tragicômico e foda-se!

Drama

Situações como essa exigem um preparo emocional muito forte da vítima e dos negociadores da policia. Porém, quem está preparado? Parece-me que ninguém. Sem me atentar as minucias da negociação do Major Lima Jr. que conduziu o desfecho da situação, conseguindo preservar a vida da vítima e do meliante. Concluo o óbvio o resultado foi o melhor possível.
sequestro dom pedro 3 Contudo, fica a imagem de Janaína que padeceu por horas nas mãos do descontrolado Adegelson que por vezes parecia estar prestes cometer uma tragédia ainda maior. A jovem chorava e aos gritos dizia: “Ele não tá de brincadeira. Manda um carro. Um carro”. Tudo muito dramático. Atento a cada movimento só pensava no sequestro do Ônibus 174 ocorrido no ano 2000. Temia pelo pior. As policias estavam com sede e ficando impacientes. Um repórter que desconheço. Disse bem do meu lado. “Nossan – por quê não dão logo um tiro nesse desgraçado”. Confesso que por alguns instantes envolvido na situação do modo como estava ali. Também pensei o mesmo quando por alguns instantes Adegelson soltou Janaína e se tornou alvo fácil para os atiradores de elite.

O momento mais marcante foi depois da soltura da jovem Janaína foi quando sua mãe chegou ao local tentando desesperadamente furar o bloqueio da polícia. Aos gritos ela dizia. “Ele quer um carro. Vou dar meu carro para ele. Solte minha filha. Ela é minha única filha”. Gritava com profunda dor e temor. Demorou alguns minutos até ela ser contida. Ao final foi justamente o carro da mãe da vítima usado para convencer o sequestrador que não sei por que cargas d’água queria um carro modelo Prisma.
Quando enfim foi liberada Janaína correu desesperada em busca de uma referência familiar. Foi abraçada e confortada por uma mulher antes de alcançar os braços de sua mãe. As duas rolaram no chão de tanta emoção. A filha desmaio nos braços da mãe. Ambas foram imediatamente atendidas por uma ambulância que as conduziu para um hospital onde fizeram exames e foram liberadas em seguida.

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Tragédia

Quando penso na causa e efeito me dou conta que a tragédia Brasileira continua sendo a desigualdade social. Hoje foi desfeito o crime cometido pelo Adegelson. A polícia que é um instrumento da sociedade que visa preservar e resguardar a ordem atua nos efeitos de uma causa muito maior. A tragédia brasileira se fabrica aos milhões dia após dia. Geração após geração. São séculos de segregação racial e econômica. Aqueles que rogavam pelos atiradores de elite só para satisfazerem seus desejos por sangue e espetáculo ignoram as causas dessa tragédia. Comentários vazios e até infantis sobre o episódio me fazem crer que estou ficando louco nesse mundo de idiotas da objetividade.

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Pixote – A lei do mais fraco

A tragédia do Brasil é produzir uma sociedade tão desigual a ponto de criar em abismos entre pessoas que vivem a poucas quadras uma das outras. Um oceano de diferenças culturais, econômicas separam a vizinhança do centro comercial Paxiúba onde tudo ocorreu e a vizinhança das cercanias da Fundação CECON onde cresceu e viveu Adegelson. Como ele milhares, milhões saem as ruas todos os dias para roubar e praticar pequenos crimes. Tem gente que só consegue pensar em cadeia ou atiradores de elite para eles. Mas e aqueles que em meio a tudo isso conseguem ver uma tragédia provocada por um sistema político incompetente e descompromissado com a educação, cultura e lazer dos jovens que crescem espremidos em periferias cada vez mais sujas e perigosas.

Eis a tragédia que sequer choca ou prende a atenção daqueles que leem jornais. Parece-me que o Brasil perdeu o senso crítico de vez. O que nos resta? Sempre digo, ao que fazem de conta que vivem num mundo perfeito ou simplesmente não se importam com os problemas políticos e sociais do Brasil. Amanhã a vítima pode ser você.

Finalmente depois de uma tarde de sol e céu azul posso descansar. Foi um dia e tanto que se encerra aqui no transcorrer destas últimas palavras…

Bruno Marzzo

Author: Bruno Marzzo

Alguém que colheu tudo que plantou. Mas não plantou tudo que colheu! Não entendeu? Relaxa, isso não fará a menor diferença por enquanto! Site: http://brunomarzzo.blogspot.com.br/

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