Nothing else matters
mar22

Nothing else matters

Há um tempo iniciei um projeto de escrever sobre músicas que, por meio de sua letra e melodia, expressam sentimentos profundos e intensos. Já escrevi alguns textos mas ainda não terminei porque preciso escolher as músicas, ouvi-las até sorver delas a última gota de emoção, para então escrever. Mas hoje decidi dividir com vocês um dos textos deste projeto, foi escrito há tempos e fala do clássico do  Metallica: Nothing else matters. Vamos à ele: Ouvi essa música e hoje ela ressoa em meus ouvidos como nunca ressoou antes. Estar perto definitivamente não é físico. E é essa a essência desta música: o quanto alguém pode estar dentro de nós, ainda que de nossa vida tenha partido; o quanto podemos senti-la de tantas formas, lembrando cheiro, jeito, palavras e de todo vivido; o quanto delas pode fazer transbordar em nós avalanches de sentimentos. Ainda que distante, o coração e a alma possuem esse artifício de trazer para perto quem se foi. Às vezes delicioso artifício, outras tão cruel. Delicioso porque quando amamos, esse ardil mantém o ser amado em nós, ele faz morada no coração enquanto vai bem ali no supermercado ou na padaria ou em viagem a trabalho. Ele vai mas ele fica. Cruel porque quando acaba, essa retenção do outro se torna uma tortura. Porque agora a ausência não tem mais prazo de validade para acabar, agora ele foi e não volta mais. Ele vai mas ele fica. E como demora pra ir embora da gente! Anda por nossos pensamentos, caminha nas entranhas de nosso ser como se em casa estivesse, não se apressa, nos desperta no meio da noite com aquele aperto no coração e aquela vontade incontrolável de alardear pro mundo nossa incapacidade de guardar tanto amor. Aloja-se no coração, seu sorriso ressoa em nossos ouvidos e o beijo molhado ainda está ali guardado. Faz pirraça, nos derruba e até brigamos com este ser que se recusa a sair de nós. Ele foi mas ele fica. Outro pra receber? Não serviria. Esse amor tem dono, é pacote nome timbrado, pronto pra ser entregue na porta do único que poderia recebê-lo. E quão distante ele está de nós fisicamente. Léguas. Tempos sem notícias. A mente até tenta reconstruir a rotina que tivemos um dia: onde hoje? Dinâmica só entendida pelos mistérios do coração. Processo longo e doloroso este de fazer a pessoa que um dia amamos partir de nós. Leva uma vida às vezes. Tem quem nunca consiga. Fazer o convite, pedir que saia, conduzir até a porta, deixar que se vá. Agora sim, agora de verdade, agora há espaço para viver outra vez. Agora ele...

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Dia da Poesia
mar14

Dia da Poesia

Buscando por temas interessantes, qual não foi minha surpresa ao descobrir que em março, 14, comemora-se o Dia Nacional da Poesia. A data foi escolhida por ser o dia do nascimento de Castro Alves, um dos maiores poetas brasileiros. Certa vez, li uma pequena biografia sobre o jovem escritor e fiquei impressionada com sua morte prematura aos 24 anos. Seu talento permitiu que em pouco mais de uma década pudesse produzir toda literatura que nos foi legada. Vi, então, que podemos aprender muitas coisas, a maioria dos ofícios não prescinde de banco de escola. Mas a poesia não é um deles. Cora Coralina, por exemplo, cursou apenas até a terceira série do antigo ensino primário. A poesia nasce com a gente. Poeta se é desde o nascimento, descobrindo-se ou não, exercendo ou não este labor. Onde estava Coralina nos 75 anos anteriores à publicação de seu primeiro livro? Sendo poeta. A oportunidade de publicar seus escritos ocorreu tardiamente, mas sua alma nunca apartou-se do amor pelas palavras. Há quem encerre cedo, como Castro Alves, há quem inicie tarde, como Cora, mas a condição de poeta é inata. O mundo parece incitá-lo a expressar seu sentimento mais profundo, sua dúvida mais inquietante, seu pensamento mais louco, seu medo mais perturbador. Ser poeta é nascer com um vulcão dentro de si, quando entra em erupção, nada pode conter: escrever torna-se uma necessidade, já que o magma das emoções apenas escoa pelo verbo traçado. Poeta é sempre mãe, ainda que homem, porque traz a poesia ao mundo: sente contrações, se contorce, parteja suas palavras até que, enfim, elas nascem em forma de versos. Poeta merece homenagem? Todas. Afinal, o que seria do mundo sem o olhar, o sentir e o escrever poético? É o que eu sempre digo: a arte nos salva, sob todas suas formas. Generosa, empresta-nos sua beleza. E embora a poesia seja nascida do poeta, não é sua propriedade, mas de quem dela peça socorro. Ela, a poesia, pertence a todos...

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Nós, mulheres modernas
mar10

Nós, mulheres modernas

Hoje tive um dia tão cansativo que ao chegar em casa senti pena de mim mesma. A vida das mulheres ditas modernas é sempre sobrecarregada, então vivemos como se esse peso já fizesse parte da gente. Mas hoje me lembrei de que ele não faz. Eu e todas nós o carregamos porque tem que ser assim. Porque a nós foi delegado um cargo de mil funções como se fosse possível exercê-lo sem enlouquecer. Antes de sair, mil orientações para casa funcionar na nossa ausência. Trabalho, a caixa de e-mail cheia e a gerente do banco ao telefone. Sem falar no apito do celular que mais parece um passarinho nos cutucando o dia todo. Entre um trabalho e outro, ligação para escola avisando que o filho esqueceu a agenda. E outra ligação para a avó não esquecer o anti-alérgico do menor precisou ficar aos seus cuidados porque a nossa funcionária do lar não veio. No meio disso tudo, nos vem a lembrança do coração partido e sai um desabafo com uma amiga ao lado, mas tudo muito rápido porque o dia não vai esperar por nossas lamúrias. O celular apita. A editora enviou um questionário. Lembrei do meu requerimento de férias que deve ser feito até hoje, informou meu chefe. Mais tarde, leva e trás das crianças. O celular apita. Opa! Sem dinheiro. Parada no banco, costureira, comprar um presente. O celular apita. Academia. A hora de abastecer o carro também pode ser a que nos resta para deixar a lágrima cair. É difícil equilibrar-se entre tantas demandas, no meu caso, avolumadas por um marido que partiu e três crianças que ficaram. Vivendo assim é fácil ser constantemente invadida pela sensação de impotência, a vida por certo que exige de nós muito mais do que podemos dar. Lidar com tantas frentes e ainda ter que manter o equilíbrio é missão quase impossível. O celular apita. As exigências são muitas e a cobrança é desumana: temos que ser mulheres inteligentes, independentes, bonitas, além de mães zelosas, exímias donas de casa , boas de cama, filha atenciosa, amiga presente, e por aí vai. Quem foi mesmo que nos colocou aqui? O celular apita. Não escrevo aqui nada de novo, a saga das mulheres modernas já foi e continua sendo cantada em verso e prosa. Essa não é apenas a minha vida, é a de todas nós, que caminhamos nesta vida acreditando que com um pouquinho mais de esforço conseguiremos ser perfeitas. Ledo engano. E antes que o celular apite outra vez, tomemos consciência - de uma vez por todas - que o mundo exterior não pode ter ingerência sobre nosso mundo interior, que quem...

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