Nu não é pornô
abr13

Nu não é pornô

Certa vez comentei com meus alunos que já tinha ido a uma praia de nudismo. Era uma dinâmica, estávamos em círculo, e cada um estava relatando uma experiência ‘inusitada’. Mesmo assim, houve um rebuliço. Um choque total. Estavam arrasados. Perplexos como se tivessem visto Madre Teresa de fio dental, nunca imaginaram que a professora, tão querida, pudesse ser tão perversa. Naquele dia, na praia, corpos de todos os tipos circulavam lindamente à beira-mar. Fazia um sol incrível e ventava. Era um dia de semana qualquer. Ninguém se observava. A maioria olhava o horizonte. Alguns liam, outros dormiam tomando sol. Mães caminhavam com crianças, de mãos dadas. A nudez era a última coisa que importava ali. Importava mesmo era a vida, a liberdade, o sossego. As feições foram mudando. Comentei com os alunos sobre uns ciclistas que haviam feito uma 'pedalada pelados' em SP, sob o título “Obsceno é o trânsito!”. Foram surgindo meios sorrisos. Observamos várias imagens sobre nudez. A nudez da mulher dando à luz não era nem de longe a mesma da que posava para a playboy, assim como a nudez dos ciclistas em protesto era completamente diferente da nudez pintada pela norteamericana Alyssa Monks. Depois de alguns minutos, nudez não parecia mais algo tão grave assim. Confessamos preconceitos. Rimos juntos. E a aula acabou. A aula acabou, mas a nudez continuou batendo em minha porta. Dias depois li, nas atualizações de meus amigos, uma pessoa que postara “15 curiosidades sobre si mesma”, dentre elas, destacava o fato de sorrir ao ter orgasmos. Alguém comentou, escandalizado: “Vc não deve ter mãe no facebook pra postar uma coisa dessas, né?!”. Tinha. A mãe deu risada junto. Na mesma semana alguém tinha vindo, por meio de mensagem inbox, dizer que não gostou de ver uma foto de ‘mulher pelada dando à luz’ que eu tinha compartilhado. “Como ia explicar isso aos filhos”? E depois, acrescentou, “não gostava de nudez”. Achei todo o resto 'normal', inclusive os filhos, de pouco mais de 6 anos, terem acesso a facebook. O que me intrigou mesmo foi o “não gostar de nudez”, justamente porque deixou claro, pra mim, que estão nos esclerosando com essa ideia de que toda nudez é imoral e indecente. Ta-bu. Depois de milhões de anos de existência da humanidade, cá estamos, tendo que dizer que nu não é pornô, tendo que frisar que nem toda nudez é obscena, e tendo que lembrar que podemos praticar um olhar menos cruel e menos treinado para o julgamento automático, sempre que quisermos. E caso não queiramos, vale adotar a filosofia dos naturistas da praia: olhar mais para a vida e menos para...

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