Uma semana antes
jan27

Uma semana antes

As ruas são sempre mais sedutoras de madrugada. Na verdade eu não tinha ideia das horas. Caminhava tropeçando nas largas e péssimas calçadas de uma das avenidas do centro de Manaus e ouvia a ladainha monótona que a voz da garota entoava meu ouvido adentro. Queria pedir que ela se calasse, mas como dizer isso a alguém sem que pareça uma grosseria? Depois seria necessário lidar com as reações de ressentimento e acho que tinha menos paciência para desculpas e adulações que para voz. Era uma questão de me aborrecer menos ou mais. Imaginei que já devia ser mesmo madrugada porque depois de um tempo andando nenhum ônibus passou. Então veio o gato. Um bicho magro, pequeno e preto. Claro que, de madrugada, nas ruas do centro, o gato só poderia ser preto. E era. Olhei para ele, vi que tinha olhos amarelos e ele me devolveu o olhar. Em silêncio passou a nos seguir. Nunca vi gato seguir ninguém ainda mais por tanto tempo. Se fosse um cão não estranhava. Cachorros são propensos à simpatia e companheirismo, gatos não. Lembrei que uma vez li um conto sobre um cara que matou a mulher, abriu um buraco na parede, encaixou o corpo e cobriu o buraco. Quando a polícia foi interrogar o cara e revistar a casa ouviram miados vindos de dentro da parede onde estava o corpo. Quebraram a parede, acharam o bicho miando em cima do cadáver e prenderam o cara que era dono do gato alcaguete. Comecei a desconfiar. Depois de quase um quilômetro de caminhada ele ainda estava lá, acompanhando. A certa altura a garota sugeriu que passássemos a noite num desses hotéis de centro, já que morávamos longe dali. Não tinha interesse na garota, mas quis saber até onde o gato iria e concordei. Saímos daquela avenida, entramos em ruas menores e depois num longo corredor. Não sei como fui parar naquele corredor. Não me lembro da transição, não me lembro de ter passado por porta alguma. A rua simplesmente desapareceu e ao invés de calçadas sujas passei a caminhar sobre aquela cerâmica escura. A luz do lugar era amarela e deficiente. Quem fez tudo foi a garota. Ela sumiu por um tempo e voltou com uma chave. Eu olhava o gato que caminhava sinuoso sem se espantar com a mudança de cenário. Ela abriu uma daquelas tantas portas ali pintadas com aquele marrom ordinário de tinta barata. O gato entrou antes de mim. Uma cama, um frigobar, uma porta dobrável que dava acesso ao banheiro e azulejos que iam até o teto. Pensei num manicômio. Paredes azulejadas de branco para que a merda...

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A proteção do Muiraquitã e o cubismo europeu
jan16

A proteção do Muiraquitã e o cubismo europeu

Nasci e vivi no sudeste durante grande parte da minha vida, mas hoje, por questões pessoais, moro em Manaus. Essa é minha primeira temporada no Norte. Ainda não conheço a região muito bem, mas o pouco que conheci modificou meu modo de vida acostumado, principalmente, aos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Escrevo para contar uma das coisas que aprendi com a cidade de Manaus desde que cheguei. Foi numa dessas noites quentes tão comuns por aqui que conheci um lugar bem frequentado na cidade. Nele uma banda local se apresentava tocando carimbó. Ignorando o mormaço que deixa os corpos indolentes, vários casais dançavam ao som da música.  O lugar bastante conhecido se chamava Muiraquitã. Esse, como muitos sabem, é também o nome de um amuleto indígena, que, entre outras funções, é usado para proteção dos guerreiros. Geralmente, esse amuleto tem a forma de um batráquio (sapo, rã...) e é orginalmente esculpido em jade, por isso em suas versões feitas de madeira ou resina, ele é normalmente pintado em verde. (As rápidas explicações vão para aqueles que são, como eu, forasteiros nessa cidade). Nesse dia vi a maioria das pessoas com um Muiraquitã no pescoço. Eu, ignorando o significado daquilo, perguntei a alguém sobre aquele sapo e ouvi a explicação. Imediatamente acabei me lembrando que eu também tinha um desses em casa e disse que eu havia comprado numa feira de artesanatos no centro, num sábado qualquer. Disse ainda que comprei sem conhecer a história, porque o que chamou a minha atenção foi a forma cubista do sapo. Voltando para casa, pensei na bobagem que eu disse. As expressões culturais indígenas da Amazônia não usam a perspectiva em sua maneira de produzir imagens da natureza. Sem falar que a existência do Muiraquitã é bem anterior a Pablo Picasso, conhecido precursor do cubismo! Mas essa história se complica ainda mais... O desenvolvimento do cubismo foi fortemente influenciado pela visita de Picasso a uma exposição de objetos africanos logo no começo do século XX no Museu do Trocadero, na cidade de Paris. As formas geométricas das peças africanas deixaram Picasso bastante impressionado e, então, ele passou a pintar influenciado por essas formas. Em resumo, foi assim que teve início o movimento artístico que conhecemos como Cubismo. Mas essa história não traz novidade alguma. O que me espantou foi que eu soubesse sobre arte europeia e, por outro lado, não soubesse nada sobre as expressões da cultura indígena. Além disso, há outro problema grave. Eu vi o Muiraquitã a partir de uma tradição cultural totalmente estanha a esse objeto. O que eu fiz foi tentar colocá-lo dentro de...

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