Golias
nov17

Golias

Parte I – Algo mudou Depois que a peste se instalou na cidade eu abandonei o tempo. Só vejo chuva. Me aprofundei sobre o tema da moléstia planetária e depois abri mão de tudo quanto era modo de informação. Sem televisão, redes sociais, fuxico de corredor ou qualquer tipo de signo que me trouxesse a essa realidade com “olheiras e olhos profundos” que assolava a minha vida. Só quem sussurrava algo do hoje era a dona Jocasta que morava no terceiro andar, tinha 92 anos e era irrepreensível há décadas. Ela gritava uma palavra que me trazia ao contemporâneo e seu peso. Lia Graciliano e fazia o almoço. A chuva se instalou na cidade há dias, havendo variações de intensidade e por duas tardes apareceu a famosa chuva branca amazônica, diziam alguns, que ela realizava pedidos. Sentia a mudança do tempo pela madrugada após o segundo canto, ela se levantava e vestia-se para trabalhar, salvar vidas, eu não me mexia, fingia que estava dormindo, mas estava chorando, pois sabia que qualquer dia desses o telefone iria tocar e eu ouviria a frase “Amor, estou infectada…”. Ter certezas, as vezes, é desnecessário. Tudo seguia essa cinza cena em meu microcosmo, exceto por duas novidades: No terceiro canto do galo percebi que a chuva tinha cessado, e o milho havia terminado. Parte II – A saída Usei todos os protocolos de segurança para sair. Haviam bilhetes espalhados por vários cantos da casa, com prescrições médicas caso fosse tocado pelo mal, profilaxia recomendável, uso dos Epi’s necessários para saída de casa, receita de bolo, poemas coletivos…  Peguei a bicicleta e saí na Monsenhor Coutinho, uma rua silenciosa e quase solitária do centro da cidade, tinha esse nome em homenagem ao padre paraibano que fez muito pela caridade e foi levado a beatificação, espero que tenha sido, também, pelo reconhecimento do trabalho nordestino na construção dessa capital. Muitos morreram de malária e outras doenças tropicais para retirar a seringa e reger os alicerces de Manaus com seus centenários. De volta a rua, provavelmente povoada por cachorros, ratos e prédios entediados por não ver uma novidade trafegando a sua frente, eu aguardava um acolhimento frio e distante como de costume. Dessa vez foi pior, nem o amigo vento estava lá, apenas duas mucuras passaram apressadas na esquina da praça do congresso, indo em direção ao prédio dos correios, alguma urgência telegráfica. -Rss. Parei rapidamente para olhar a praça e lembrar de momentos vividos ali, os festivais, namoros, porres, brigas, as primeiras reuniões para a criação de nossa revista literária, manifestações políticas… Tudo na minha cabeça e não se encaixava mais naquele local que vi....

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Quando o pássaro se entregou ao homem
set07

Quando o pássaro se entregou ao homem

Ele vivia em uma bela casa com sua esposa, cantava e ria como criança que recebeu o presente desejado. Sua amada vivia triste e estava ficando amarga dia a dia, uma cor cinza a acompanhava e lentamente foi infectando Júlio, que começou a rir menos e deixou de cantar. Os poucos vizinhos sentiram sua falta, eles foram abandonando a casa e seus pertences, seu jardim e sua horta invejada por tantos. O enorme salão que antes foi palco de festas memoráveis agora era povoado pela poeira que o tempo trouxe. Os quartos que antes eram ocupados por seus convidados foram lacrados e nunca mais habitados. A cozinha que era a vitrine de grandes mestres da culinária, agora restava apenas um amontoado de panelas e fogões desempregados. A casa foi perdendo sua luz como os seus donos. Alice faleceu após 7 meses da doença da tristeza, as causas não foram diagnosticadas pelos legistas, ou espíritas, ou ecumênicos de ocasião. Nosso protagonista começou a viajar muito, para tentar esquecer seu drama, como se a distância geográfica pudesse dissipar a sua dor, mas a geografia a ser vencida estava dentro de sua confusa cabeça. Havia um sonho que sempre o acompanhava durante a sua vida. Era o canto de um pássaro que sua amada gostava muito. Ele nunca dera importância a esse fato, mas agora lembrava de detalhes demonstrados durante o seu sono. Certa vez, quando as chuvas cessaram e o calor inundara a vida dos moradores das florestas, ele retornou a sua antiga casa, com muito peso e dor abriu a porta procurando forças para entrar e imaginando cenas alegres que viveu naquele lugar. Subiu a escada e parou na porta do quarto do casal. Abriu lentamente a porta e sentiu o cheiro de sua amada. Ficou perplexo, pois nada havia sido alterado no local, nem o pó do tempo penetrara no ambiente. Permaneceu horas deitado e olhando para o teto do quarto. De repente, ouve o canto do pássaro citado anteriormente. Júlio ficou nervoso e procurou saber onde o animal estava. O pequeno estava do outro lado da janela como aparecia em seus sonhos, do mesmo tamanho, cor e canto. O homem queria muito se aproximar do pássaro e mandou limpar a casa, abrir as janelas e quartos, cozinhar almoços e jantares. Contratou músicos para o salão, arrumou o jardim e sua velha horta. Tudo para agradar o pássaro que fazia lembrar o seu amor perdido. Todas as manhãs ele cantava o seguinte verso “vem passarinho do meu coração, quero ser seu amigo e não o seu vilão”. A pequena criatura cantava no amanhecer e no entardecer, mas não dava...

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