Abrigo
fev09

Abrigo

Entramos no carro depois da festa e ela achou que o breve caminho até a minha casa era o divã que precisava pra me contar da sua vida. Ela tinha acabado de me conhecer, não trocamos mais que algumas palavras entre a música pop e funk que eu e a amada dela dançávamos entre cervejas. Eu tava acostumada com isso, com pessoas se abrindo pra mim, sendo que muitas vezes éramos completos estranhos um ao outro. E eu tentava ser o abrigo seguro onde elas podiam fazer isso. Eu sempre tentei ser o que os outros precisavam e não encontravam por aí. Sempre fui o que eu queria que fossem pra mim, esperando que algum dia alguém também o fizesse. E ela me narrou toda a trajetória, até aquela noite. Me contou dos sentimentos por aquela sentada no banco do passageiro ao seu lado e por quem veio antes dela. Eu entendia tudo. Meu silêncio era confortável como um abraço. Eu entendia tudo e pra piorar, estava na mesma situação. O sofrimento dela era o meu. E parecia atuação se reconhecer nas palavras do outro mas manter distância o suficiente pra não chorar no ombro e chamar pra mesa de bar. Eu mal consegui me esconder quando ela disse que "Não ser correspondido... Dói..." de um jeito que essas três letras tiveram a duração de dez. Com um pesar no tom que fez meu coração murchar dentro do peito. -É foda. -eu deixei escapar -É foda!" -ela repetiu quase como um aperto de mão Engoli as lágrimas que beiraram meus olhos. Questionei as divindades que me fizeram assim, com tanto pra dar, mas só querendo dar pra quem não tinha qualquer interesse em receber. Me despedi das duas e só um resto de mim se arrastou até em casa, se jogou na cama e se embalou em promessas piores que resoluções de ano novo, pior que a dieta que vai começar na segunda-feira. Eu não vou mais amar. Gotas de sal na minha boca. Minha alma se despedindo de mim na...

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Só mais um dia de carnaval
mar07

Só mais um dia de carnaval

Foi tudo tão terrivelmente familiar. Eu não esperava tanto dessa vez, só que uma porta fosse aberta nesse ciclo vicioso de onde eu não consigo escapar. Pelo menos o choro não é o mesmo. Ainda me encontro tão bem nas letras de Joy Division, tão confortável quanto uma camisa velha de dormir. A bebida é outra, mas o gosto é igual na minha boca, o cheiro da fumaça de cigarro dessa vez entra pela janela, mas me faz sentir em casa. Quase um caso de síndrome de stocolmo com esses sentimentos baixos. As chances de viver qualquer coisa com pureza estão chegando perto do prazo de validade, que só agora eu me dei conta ter. Tô aos tapas comigo mesma tentando uma chance de viver o agora. Sem ficar na expectativa do que poderia ser, soltar da mão que fica me puxando pro passado, estar com cada parte do meu corpo no mesmo lugar. Cansa isso de se guardar, se controlar, eu detesto números, que dirá contar sentimentos. Tô transbordando de tanto esperar pela hora certa de me derramar, me escondendo atrás do receio de mais uma vez fazer a aposta mais alta da mesa e perder tudo, me perder toda. Que castigo terrível é prender um animal selvagem. Um coração selvagem. Depois de mais essa garrafa eu vou dar um tempo, não sei como faz pra anestesiar uma pessoa com tanta alma, não sei como essa alma se alimenta com tão pouco das amostras servidas em bandejas. Só me deixa ser o amor que eu posso ser de melhor. Me deixa tentar, eu não cobro nada não. Mas também não pega se for só pra estragar. Eu sempre chamo a apatia quando sinto dor, aí eu quero nem que seja a dor de volta quando tudo que eu sinto é nada. A felicidade se torna possível até nos domingos, se eu começo as manhãs só deitada contigo na cama por algumas horas. E é assustador se sentir assim tão bem, de um jeito tão simples, mas num lugar tão difícil de chegar. Às vezes eu sorrio bem boba olhando alguma foto tua, sintoma grave de afeto, uma febre tão boa. Fica um pouquinho aqui comigo, vamos ser tão bonitos juntos daquele jeito que revira estômagos alheios. Poderiam durar dois dias as noites que andamos bêbados por aí, eu ainda sentiria falta de ti na manhã seguinte ao acordar e não te ver do meu lado. Eu tento te alcançar, você não deixa. Detesto admitir que um pedacinho de mim se entristece sabendo que a tua vida vai seguir bem logo depois disso, enquanto a minha vai parar por...

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Vida e vacilos da deusa dos pequenos prazeres
jan02

Vida e vacilos da deusa dos pequenos prazeres

Eu tinha 17, usava camisetas largas, já andava nas beiradas instigada pela brasa em mim e naquele ano, entraram apenas quatro alunos novos na classe, minha atenção era constantemente atraída pro garoto de cabelos pretos, do fundo da classe assim como eu. Ele tinha pulseiras de couro grossas, pouco falava e sempre chegava e saía da escola com fones de ouvido. Certa vez cruzei com ele na loja de discos, fumamos um cigarro falando sobre música e duas semanas depois nos beijamos na cozinha durante a festa de aniversário de uma colega. Descobri sensações causadas pelos toques nos lugares certos e numa tarde sozinhos na casa dele, os filmes pornôs que eu tinha visto escondido desde criança, me diziam no que aquilo ia dar se mais peças de roupas fossem tiradas. Já não era muito de romance, achei que tava na hora, tirei a calcinha e o puxei pra cima de mim. Tava tocando metal na minha primeira vez e em outras 3 mais, antes que ele preferisse dividir os cigarros com a roqueira de peitos maiores da outra turma. “Eu gosto de você –ele disse uma vez- É só que... eu prefiro ficar com garotas mais experientes, entende? Que saibam o que fazer na cama. A gente pode continuar amigos, se você quiser.” Alguns anos se passaram os experimentos foram além do meu próprio corpo, tempos em que aquelas palavras ecoaram na minha cabeça, a brasa em mim virou fogo e eu fui ficando fascinada em o ver queimando. Eu só precisava de tempo, e um tanto mais de autoconfiança que só foi aparecer ali pelos 20, alguns amantes e um vibrador que comprei na minha primeira ida a um sex shop.  Ninguém me provocava orgasmos melhor do que eu mesma com aquele brinquedo, mas o que eu gostava mesmo era de provocar prazer, dos gemidos, de tirar o ar e depois fumar um cigarro com a tranquilidade de um predador que acabou de se fartar. Teve o cara que adorava uma boa chupada, ele vinha com tanta sede pra cima de mim que eu só conseguia pensar que aquele pau mal era tocado pela garota dele, parecia um disco furado me perguntando se eu tinha gozado dessa vez, mas não fazia nada pra me agradar. E eu via aquela coleira invisível no pescoço dele, não tinha qualquer tesão por homem domado e já tinha provado tudo que sairia dali, “Quem sabe na próxima.” falei antes de vê-lo sair correndo pela última vez, mais ou menos um mês depois meu celular tocou 29 vezes, fiquei chateada comigo mesma por ter desperdiçado uma calcinha linda de renda, que ele...

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Ficou teu nome escrito em marcas no meu corpo
mar03

Ficou teu nome escrito em marcas no meu corpo

Só mais uma noite mal dormida como tinham sido outras nas últimas semanas, deitar no embalo das reflexões que só um domingo te fazem ter e na manhã seguinte, se arrastar pra fora da cama procurando o ânimo que parece ser repelido pelas segundas-feiras. Ainda na dúvida se valia a pena o trabalho de lavar e secar os cabelo, fiz o meu café com torradas e fui pra frente do computador, li receitas, baixei um disco, arrumei a casa, ignorei a postagem da faculdade sobre a volta às aulas e por fim tomei um banho demorado.  Minha cabeça andava cheia e o peito vago de emoções, no livro, Christiane narrava a primeira vez que foi ao Sound e eu pensei que tinha tempo que não ia a alguma festa, dançar me fazia um bem, vai ver era isso que tava faltando... Tanta coisa tava faltando na verdade, mas eu gosto de priorizar o que alimenta a alma, só mais um dos meus males. Rolei no sofá e deixei o livro de lado um instante pra mexer no celular, mensagem da Dani, uma amiga de São Paulo envidada há horas que eu não tinha visto: “Thaís, tá de férias ainda? Que acha de levar o Raphael pra tomar umas cervejas? Ele tá por aí a trabalho, não conhece ninguém, lembra dele?”. Eu lembrava, lembrava bem, tinha conhecido na casa dela da última vez que fui à cidade, um olhar e um sorriso marcantes demais pra ser esquecido, quase inevitável não observá-lo de longe a noite toda, mas quando finalmente conversamos desviava pra outras direções. Não sei bem o que eu queria esconder, mas achava que poderia ser lido em mim se mantivesse o contato visual por algum tempo. Baixei a foto anexada e fiquei olhando por uns minutos antes de responder, ela disse que passou meu número e ele entraria em contato, não demorou até o celular notificar nova conversa, dei algumas ideias de lugar, mas voltaríamos a nos falar em algumas horas quando ele estivesse livre. Joguei várias opções de roupa em cima da cama, tentei dar um jeito no cabelo, (e na cara), calor demais, antes que eu decidisse a blusa ele ligou: “Por que eu não vou até a tua casa e então decidimos aonde ir?”, coloquei uma música, ele chegaria em pouco tempo e tentei me arrumar o mais rápido possível, tinha acabado de fazer o gatinho no olho quando a mensagem dele avisando que estava no portão vibrou no celular. O mesmo desconcerto da primeira vez eu senti ao vê-lo parado ali diante de mim, sorri, convidei pra entrar, um abraço desajeitado como cumprimento, foi mais...

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Zine, Música, Pintura, Artesanato (e muito mais) dentro da natureza
jan08

Zine, Música, Pintura, Artesanato (e muito mais) dentro da natureza

Para os amantes de arte e música, hoje (08) vai ter a I Mostra de Arte Amazonense do Tarumã, com os lançamentos do livro O Barulho do Mormaço, da Priscila Lira e álbum Black River do Dj Diego Mazzitelli, além de exposições de artistas visuais locais, vendendo suas obras, sarau literário e estrutura de som com Dj's, nesse lugar lindo que é o Abaré SUP and Food.  Também vai ser a primeira vez que uma certa colaboradora da coluna Transamazônica  vai vender a arte dela na praia, melhor dizendo, no rio. Então levem uns trocados que haverá zines com alguns daqueles contos que vocês já sabem, para serem adquiridos. A programação se inicia 20h, com apresentação de Marcelo Nakamura, seguida do lançamento do livro, sarau e dj’s. Então venham ouvir uma boa música enquanto apreciam exposições artísticas, nessa experiência diferenciada no rio Tarumã, que vai madrugada a dentro. Até lá!   O que é: I Mostra de Arte Amazonense do Tarumã Onde: Abaré Sup and Food às 20h Quanto: Entrada 10,00 (Incluso transfer Praia Dourada) Mais informações sobre a programação podem ser encontradas na página do evento no Facebook. Obs: Há cobrança de estacionamento na Praia Dourada independente do evento, por ser administrada por...

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