Por tudo que há de maldito: 15 anos de Acudecavalo
nov08

Por tudo que há de maldito: 15 anos de Acudecavalo

Como é que a canção se estende apenas por cinco minutos, que o show toma uma pequena porção de madrugada, mas a noite não termina? Quando a Platinados subir ao palco da Estação Cultural Arte & Fato (ver ficha técnica), no próximo dia 8 de novembro, para comemorar os quinze anos de lançamento do primeiro EP da banda – a fita “Acudeca­valo” – será a mesma noite caindo sobre as nossas cabeças quentes de outrora, no Eco‘s, no MacIntosh ou no War Zone; sobre os corpos sacanas e jovens e sem medo de serem usados, enganados, tomados por tudo o que podia arder um pouco mais. Nós, os galerosos “afim de um agito”1, do “sabor da carne”2, do desejo que ainda nos leva e move. Ícone de uma geração que tomou as rédeas da vida mas não tinha fundamentalmente para onde ir, a não ser ao bar mais próximo, a Platinados representa a versão manauara do hedonismo pop que testemunhamos surgir nos anos 90 (provavelmente pra rebater a ressaca dos anos 80). O movimento clubber, as raves, o rock inglês, mais uma vez de Manchester, a MTV, tudo gritava e expunha: corpo, meu corpo, teu corpo e os psicotrópicos entre nós. Aqui, nessa Manaus que não morre de nossa história, gritávamos em coro: “disso que eu sou/ sou de pelo, pele e osso/ pelo vinho e pelo corpo/ pela sede de beber”3; ou ainda “Quando a vulva envolve a glande/ faz o papel de amante/ Diamantes não são para comer”4; canção que além de trazer a temática do corpo, ainda se apóia na aliteração (em /v/) e na anáfora (“de amante”/ “diamante”) como principais meios de construção poética, recursos que ressaltam a oralidade do texto - o próprio “corpo”, em última instância, da letra da canção. Para efeito meramente didático, porque não havia separação na prática, podemos en­xergar a cena do rock manauara da década de 90 seguindo três tendências bem definidas, encabeçadas por três bandas: o lado mais politizado, inspirado na Brasília dos anos 80, representado pela Zona Tribal - cujo vocalista e letrista, Mencius Mello, não por acaso, teve papel fundamental na organização do movimento nos bastidores -; o lado metafísico e li­geiramente deprê da Espantalho, com forte influência do rock indie dos Estados Unidos do início dos anos 90; e, finalmente, como viemos argumentando, a faceta hedonista da Plati­nados, com clara inspiração na psicodelia da virada entre os anos 60 e 70, especialmente de Led Zeppelin e The Doors. A ligação com os Doors é sintomática para além da sonoridade, pois cria uma tradição romântica de malditos-satanistas-hedonistas a que a Platinados se re­porta: Huxley e seus...

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