Aquela piadinha sem graça…

Há alguns anos comecei a escrever para o Xibé e por alguns motivos que eu mesma não recordo, parei.

Mas o que interessa é que depois de alguns emails muito interessantes enviados pela ilustre Renata Paula, VOLTEI. E já aviso, voltei em negrito e capslock. Hoje por exemplo, tenho um tema muito interessante para compartilhar: a famosa piadinha SEM GRAÇA.

Já faz mais de um ano que moro em Portugal e sim, existe preconceito com o brasileiro que aqui está. Logicamente que não são todos os portugueses que precisam separar o imigrante do nacional para sentirem-se à vontade, tanto é que fiz grandes amigos aqui nesse pouco tempo. Mas volta e meia sinto aquela velha preguiça social ao escutar comentários que, de longe, dá pra entender como xenofóbicos.

Hoje, por exemplo, resolvi retomar minhas práticas de artes marciais. Quando ainda morava no Brasil, praticava Muay Thai e Jiu-jitsu. Realmente sinto falta da sensação de bem estar dentro e fora do tatame.

Procurei um lugar no googlemaps, mandei mensagem pro responsável, marquei a aula experimentar e fui conferir a técnica pra ver se era aquilo que eu buscava.

Até agora ainda não consegui digerir o mal estar e a vergonha alheia que o professor despertou em mim nos 75 minutos de aula. Sendo objetiva, ele conseguiu dizer, enquanto eu treinava socos no saco:

"Nossa! Ela bate forte! É brasileira mas tem sangue português, está explicado! Sabiam que é por isso, que por causa do sangue português que brasileiro tem força? Está cientificamente comprovado! HA -HA-HA-HA-HA!"

Caros leitores, façamos 10 minutos de silêncio agora, pois o espírito de 10 mil mestres de artes marciais foram jogados na lama depois dessa piadinha sem graça e xenofóbica.

Quem pratica ou conhece um pouco da prática de artes marciais certamente sabe o que significa o tatame. Ele é o solo sagrado do mestre e do praticante, tanto é que não se entra no tatame sem cumprimentá-lo, não se entra com sapatos, não se come nele e em geral não se pratica em absoluto qualquer ato de desrespeito à tradição milenar de qualquer arte marcial. E esse professor conseguiu me convencer de que sim, é possível alguém ter alto conhecimento técnico de uma arte marcial mas não absorver 1% da filosofia e cultura que ela tem.

Esse foi um pequeno exemplo, talvez sem grande importância pra muitas pessoas, mas que ilustra muito bem como somos capazes de ferir a inteligência alheia quando nos sentimos à vontade e seguros de nosso lugar social. Como professor esse homem deveria dar o exemplo não somente dos golpes a serem praticados, mas da conduta que aquela arte marcial requer do aluno. E com todos os troféus e anos de experiência ele não conseguiu.

Nós também, com nossos diplomas e grandes experiências profissionais, com nossos passaportes hiper carimbados e Instagram's repletos de experiências únicas, somos capazes de contradizer tudo aquilo que dizemos representar. Da piadinha sobre mulher, sobre advogado, sobre bêbado e outras até a piada xenofóbica há uma linha muito tênue que na maioria das vezes só enxergamos quando ouvimos uma resposta "rude" como: "Não tem graça nenhuma, sabia?".

Além de contar a piada, rir dela é assinar em baixo. Depois dessa situação parei para refletir e tentar lembrar quantas vezes eu ri de algum comentário maldoso que envolvesse uma minoria ou diferença: muitas. E sei que com certeza enquanto eu ria, alguém me observava e me julgava, exatamente como estou fazendo agora com esse professor de socos e pontapés (a última coisa que ele pode ser chamado é mestre de artes marciais). Fazemos isso todos os dias e nem nos damos conta de como propagamos, executando ou reforçando, o ódio e a ignorância.

Pensei: "mas naquela vez em que ri de tal piada foi por educação, nem achei graça mas não quis deixar a pessoa que contou desconcertada...". ESTAVA ERRADA! Se pararmos para analisar o conceito de educação e o seu propósito, compreendemos que nunca foi e nunca será propagar qualquer coisa que não seja ética. Ok, voltando na História vemos literaturas que defendiam a hierarquia de etnias de acordo com o tamanho do cérebro, ou da cor. Mas que bom que a sociedade evolui e os conceitos vão junto, não é mesmo? E a Educação sempre aponta para uma formação que proporcione à sociedade um conjunto de valores que capacitem uma pessoa para viver em conjunto.

Rir de uma piada preconceituosa para não deixar quem a conta sem graça não é um comportamento que se faz por educação. É hábito mesmo. É falta de claridade, de senso crítico treinado. E eu também faço isso várias vezes.

Mas hoje eu entendi que é justamente porque tenho Educação que preciso ou não rir da piada ou pontuar que ela é indesejável, tudo vai depender do contexto e de quão à vontade eu me sentir.

É vivendo como imigrante e mulher que tenho me dado conta dos absurdos que a gente fala e bate palma pedindo mais. Fica aqui meu desabafo e meu compromisso de estar atenta ao que dizem e não gastar meu riso com o que nunca será engraçado.

Aquele abraço, minha gente!

Marília

Marilia Desideri

Author: Marilia Desideri

Psicóloga Clínica e Organizacional; Consultora de R&S, T&D. Seu hobby é trabalhar.

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