Amazonense com mais de 10.000km viajados quer documentar a vida e o amor dos israelenses

Um contador de historias, andarilho por natureza e observador dos seres humanos. Jornalista por formação e fotógrafo por atuação, Bruno Marzzo é um dos colaboradores do Portal Xibé e um devorador de livros e dono de um olhar capaz de amolecer qualquer coração de pedra. Internauta a moda antiga, não faz parte de nenhum grupo de whatsapp e não faz questão de estar em todas as redes sociais. Se o acaso astral influencia na personalidade de alguém, o que esperar de alguém que nasceu no dia 29 de fevereiro? Sempre polêmico em seus questionamentos, tem sempre a pauta do momento na ponta dos dedos e orgulha-se por às vezes dizer o oposto do que foi dito antes. Se você se identificou  um pouquinho, continue lendo e terá a chance de conhecer um pouco mais sobre esse ser incompreendido. A primeira pergunta é essa, você se considera incompreendido ou até rebelde?  Sem dúvida. Nem tenho essainfancia pretensão de explicar. A diferença está na maneira como procuro me apresentar diante das pessoas e do mundo. A rebeldia é uma forma de liberdade. Um ato de indignação. Sabe, é como se você percebesse o engano. Que algo está errado e não conseguisse fingir que o erro não está ali, bem diante da sua cara. Existem as consequências. Mas se a linha que me separa ou separou do dito “sucesso” for essa, prefiro continuar desse lado da linha. Até aqui, tenho certeza, tem sido legal. Preciso me aprimorar desse lado da linha. Isso foi assim desde pequeno? Qual sua principal lembrança da sua infância? Meus primos, casa cheia, rica de vida e pessoas, crianças, tios, tias, padrinhos, madrinhas. Meus avós.  Cachorros. Rua, brincadeiras diversas. Subir nas árvores. Esportes e competições. Existia um clima de família que não percebo mais hoje. Foi em um texto do Obvio Ululante de Nelson Rodrigues que capturei esse sentimento que se escapou de mim. “Toda família começa a apodrecer um dia”. E a adolescência? As lições da juventude vieram quando? Foi bem difícil. Um momento de muitas adversidades que surgiram bem no período em que todo adolescente começa a se rebelar. A porra da rebeldia que quando gerida com atenção e amor, certamente gerará bons frutos. Como não foi bem assim. Quando tinha 13 anos meu avô (pai) teve que amputar a perna devido a complicações com a diabetes. Foi terrível. Aquilo abalou muito a família, tanto do ponto de vista emocional quanto financeiro. A lição que tirei dali. A principal foi que a vida é curta e logo você vai morrer, não importa se fez bem ou mal, certo ou errado. É por isso que resolveu fazer comunicação? Como deu esse start? A comunicação veio em um processo alucinante de informações que foram chegando com o aprimoramento do uso da internet e a paixão descontrolada pela informação. A busca pela compreensão. A arte explica muito ao descontruir modos, valores e conceitos. Convida a pessoa para novos olhares e percepções sobre o Planeta. O cosmos. Tudo. Nesse meio repleto de literatura, tecnologia e alguma solidão o cinema tornou uma paixão. Queria me expressar, explicar é outra coisa. Queria ter estudado cinema. Tive que escolher entre jornalismo e publicidade. Escolhi jornalismo porque me parecia mais misterioso e profundo do que a publicidade. Com vinte anos de idade, toda aquela pressão do mundo, tive que escolher e escolhi Comunicação Social. Nunca fui pegar meu diploma. Mas meu trabalho de conclusão foi aprovado. E o cinema, como entrou na tua vida? Meu trabalho de conclusão 12204445_1157112514306870_2045931506_odiz respeito a essa paixão pelo Cinema. Meu trabalho era com ênfase na diferença entre uma grande reportagem e um documentário. Aprendi muito sobre aqui que já gostava muito. Na minha infância tinha uma locadora de fitas VHS e vídeo game. O cinema era algo fascinante capaz de mexer com a emoção até de pessoas que nunca apresentavam emoções para lá do dia-a-dia. Com uma locadora de vídeos dentro de casa se discutia aqui acolá a sinopse de alguns filmes. Isso era muito louco. Lembro que quando chegou o lançamento Ghost do Outro Lado da Vida, fui proibido de assistir por ser considerado muito novo. Achava que o lance era só com a pornografia. Mas, por que não podia assistir aquele filme. Essas coisas me intrigavam. Dai foram uma sequencia de filmes ... Nunca mais parou. A primeira vez que chorei assistindo um filme foi em Sociedade dos Poetas Mortos. Aquele episódio marcou minha vida. Para que lugares você já viajou? Como foram essas experiências? Viajei bastante para um cidadão da província. Sorte que não ajo como provinciano e sempre tive muita energia para gastar. O que foi primordial para minhas viagens, no Brasil é mais fácil citar os lugares que não conheço: Bahia, Amapá, Piauí, Maranhão, Espirito Santo, Tocantins e Mato Grosso. Conheço todos os demais, uns mais outros menos. O mais longe que já fui ao leste foi no Mar morto. Dali pude ver as cadeias de montanhas vermelhas da Jordânia. Ao leste o mais longe que já estive foi no sul do estado do Acre. O mais ao norte foi Nazareth, norte de Israel. Ao sul, Buenos Aires. O mais alto Cusco no Peru, 3.500m acima do nível do mar. Tive equadoraté mais alto. O Peru é o pais mais bonito e legal que já conheci. A América do Sul é o melhor lugar desse mundo cão. Mas para quem procura, aprendi viajando, podem-se encontrar beleza, maldade, bondade, tristeza e alegrias em todos os lugares. Adoro viajar pelo Amazonas e pela Amazônia lugares que conheço ainda muito pouco diante do que gostaria. A experiência é que vale a pena ser chamado de louco por aqueles que estão enterrados em mundinhos tão pequenos. Viajar é uma experiência divina. Sou grato pelos encontros e desencontros que minhas viagens me proporcionam. Quero viajar muito nessa vida. Que lugar ainda quer conhecer? Quero conhecer um montão de lugares. Quero ir mais a fundo na América do Sul e partir para Ásia, Austrália. Califórnia, Marrocos, Irã, Índia, Berlim, tantos lugares. Todos quantos possíveis. Como estão os projetos?  Atualmente estou com um projeto audiovisual que visa documentar histórias de vida em Israel. Quero voltar para lá e resgatar toda a essência que vi na primeira viagem. Chama-se “Shalom Israel”, está em campanha via financiamento coletivo (crowdfunding). Além desse, meus projetos estão sempre espalhados na minha cabeça, em anotações desorganizadas. Tenho facilidade na elaboração nos insights mas a execução ainda é difícil. No entanto, lutando contra todos esses desafios e encarando muitos outros estou focado em um projeto. Quero retornar à Israel e resgatar meus sentimentos que se perderam nesse lugar tão incrível e instigante. Uma sociedade que sempre permeou meus pensamentos desde muito jovem. Preciso retornar a Israel. Estive lá entre Dezembro de 2014 e Janeiro de 2015. Um projeto que naufragou por conta de inúmeros problemas que fugiram do meu controle. A tua atuação no mercado é forma independente? Sim. Esse tipo de financiamento é novo pra mim, mas quero somente o suporte para os custos operacionais. O projeto está orçado em R$40mil e devem financiar passagens, equipamentos, transporte, hospedagem, alimentação e custo com ingressos a centros de cultura e lazer naquele país. Além dos custos fixos  o valor inclui uma comissão de 12% do valor arrecadado para o site. E claro as taxas de câmbio que hoje estão circulam os R$ 4 reais. Deduzindo tudo isso o valor que peço é estritamente para cobrir as despesas. Não passar sequer de  U$ 10 mil dólares. Como recruta suas histórias? Sou muito passional. Toda paixão traz em si um elemento surpresa. Umas são como fogo de palha, faíscam na mente e logo se apagam. Outros ficam reviranpalestinado mais quente ou mais fria dentro da minha mente. Aquelas que ardem feito brasa. Que incomodam meu sossego mental. Dessas preciso me livrar. Então escrevo para me livrar. Também para sublimar sentimentos incontidos. Escrevo para provocar. Muitas vezes as histórias chegam até mim, surgem numa mesa bar, numa esquina, numa quebrada, numa repartição pública. Estão em todos os lugares.
  1. Suas criticas quanto aos veículos são bem frequentes, existe um ombudsman do jornalismo amazonense?
As criticas são frequentes porque os bons exemplos estão por todo lado. Basta procurar que em menos de dois segundos o São Google te dará centenas de ótimos exemplos. Volta para uma das questões acima. Não consigo fingir que não estou vendo o que tá errado. Escolhi comunicação social. Paguei minha faculdade. Claro que com ajuda de familiares. Porém foi basicamente por meu esforço e vontade. Foi foda e depois de tudo o máximo que posso conseguir no “Mercado” ou nas “Redações” é me tornar um menino de recado. Chegar com pires na mão para entrevistar cretinos consagrados. Não é o dinheiro que me move. É a paixão. Infelizmente, os jornalistas para sobreviver precisam acender uma vela para Deus e outra para o Diabo. Prefiro atuar com independência e diversificar minha atuação no mercado. Você é o jornalista que sonhava em ser?  Não, ainda não. Mas me conforta saber que nunca sai dos trilhos daquilo que acredito e da forma como encaro essa profissão. É um sacerdócio o propósito não é ganhar dinheiro. Claro que preciso de grana. Mas porra enfeitar meus textos para agradar gente do governo é foda demais. Ai não é jornalismo é marketing, publicidade. São outros quinhentos. Isso até faço, como já fiz. Mas como jornalista, escolhi a finalidade social. Quero muito mais. Antes não, mas hoje se me chamarem para promover e divulgar um candidato a algum cargo público eu o faria com todo meu conhecimento. Mas a negociação é diferente. As motivações e os fins são outros. Os veículos de comunicação de massa Radio, TV e Jornais impressos circulam graças à concessões públicas que preveem um retorno à população com informação de qualidade. Mas o que vemos é um jogo de poder. Muita desinformação. Qual o futuro da comunicação? O futuro da comunicação que me interessa é o silêncio, a reflexão. A pausa, a paciência para entender um explicação mais profunda ou às vezes, somente, mais delicada.  O futuro da comunicação que interessa o “mercado” e as redações é o caos. O atual nível tecnológico que a humanidade alcançou permite que saibamos tudo o que acontece e11143441_1093908807293908_4348075876926027021_nm qualquer ponto do globo em tempo real. Mas o que estamos fazendo com isso. As redes sociais em países como Brasil, só para trazer para nossa realidade precisam ser bem manejadas pelo publica que não tem uma formação cultural para absorver o que há de melhor na internet. O que impera é o consumo de futilidades e diversões baratas de baixa qualidade intelectual. O Brasileiro é visto como burro por aqueles que controlam a grande mídia. E é para eles que fazem essa programação. Para gente que consideram burras na média. O meu papo é outro! O que você leva em conta para clicar numa notícia? O chamado, preciso estar em sintonia com o meu cosmos. Essa pergunta é muito profunda porque diz respeito a impulsos muito sensíveis. Para tentar explicar o inexplicável para ler com atenção tudo o que respondi até aqui. Bom, se esses assuntos dizem respeito a esse cara que respondeu essas perguntas... Então eu dou um clique. Se for porcaria eu nem clico. Por mais que escute falar por ai. Não me interesso porque minha cabeça já está muito cheia de informação que entra ou entrou passivamente pelos meus sentidos. Morro e não vejo tudo, só quero saber daquilo que me interessa. Se não gostar, nem disfarço! Toda semelhança com a estrada transamazônica é mero proposito quando se trata de transporte, comercio e economia. Você acredita na transamazônica? Acredito sim. Essa estrada há de trazer benefícios para o homem amazônico. Agora esse derrotismo que impera na sociedade é que atrasa. Essa passividade diante dos fatos e acontecimentos é que atrasa. Parece que vejo no ar a hipocrisia de alguns conservadores “Vão desmatar tudinho”. Porra! Existem leis e regulamentos que regem a implementação de tudo. Basta aplicar a lei. Atrasar o desenvolvimento por conta de corrupção e entraves políticos é que não pode. Já fiz uma viagem que durou 54 horas de ônibus. Nem morri. O caboco de Manaus precisa viajar mais. Sair do isolamento. Deparar-se com outras culturas. Sair da província, abandonar o provincianismo. No Xibé, a palavra é dúbia e segue o sentido mais picante da coisa. Como você descreve uma transa amazônica? Uma transa amazônica tem que ter aquele grude na pele levemente cozinhada pelo calor e umidade onipresente na região. Tem que ter sabores e aromas... Além de mil encantos que por aqui não cabe dizer, mas meus textos lá dão um gostinho. 12202092_1157112447640210_443217664_nPuxando ainda mais a sardinha pro nosso lado, agora quero saber sobre gastronomia, que comida marca sua vida?  Peixes amazônicos, sempre tão presentes na minha vida. Mas já que a pergunta é uma que marcou. Lembrei agora do jacaré. Em certo momento da minha vida estava morando em uma comunidade terapêutica que recebeu três toneladas de carne de jacaré. Foram meses comendo jacaré no café, almoço e janta. Essa comida marcou minha vida. Risos. Como você avalia o atendimento dos restaurantes e bares de Manaus? Costuma ser deprimente. Exige de mim paciência. Já até me colocou em maus lençóis diante de algumas namoradas. Ouvia muito aquele clichê. “Veja como seu namorado trata o garçom”. Mas porra, logo comigo. Meu primeiro emprego de carteira assinado foi de garçom e justo no melhor restaurante da cidade na época. O Les Gens 300. Além do mais sempre viajei. Tinha outras referencias. Outros parâmetros. Por tanto aqui na nossa cidade ainda é péssimo. Eis um dos motivos que desejo maior integração pela BR-319. Qual o melhor do Amazonense? E o pior? O melhor do amazonense é o humor. O Pior é o medo de encarar e enfrentar o novo. Sei que muito desse jeito matuto e introspectivo é do índio. O sangue indígena é muito forte por aqui. Me dá cinco soluções urbanas para Manaus? A primeira seria investir pesado na formação do cidadão desde a base até o ensino superior. Isso resolveria mui11208660_1057239164294206_4226131509008414879_ntos problemas. A segunda seria transformar por completo a malha viária da cidade. Investir pesado em infraestrutura de qualidade para o transporte público de massa. Desencorajar o uso de carros particulares em zonas centrais da cidade. A terceira seria a apropriação e a reintegração de espaços públicos abandonados e/ou que não atendem a finalidades de bem comum. Lotearam e venderam todas as margens de Manaus. Foi um crime. As zonas verdes, tudo vendido e murado. Condomínios fechados. A quarta seria o incentivo por meio de politicas públicas para uma arborização em massa na cidade. Existem milhares de espécies nativas que podem atender a inúmeras demandas. É tanta árvore que é possível escolher o tipo de sombra que desejas. E a quinta seria a criação de mais espaços de lazer e cultura fora das zonas centrais o que desafogaria o fluxo de pessoas seguindo sempre para a mesma direção em dias de férias e descanso.   Qual a Manaus que sua filha vai enfrentar? Sinceramente se eu pudesse levaria minha filha embora daqui. Mas não posso, ainda. Manaus parece está rolando na lama sem nenhum projeto concreto. Falar de futuro e pensar na minha filha é algo que me causa preocupação e indignação. A Manaus que minha filha vai crescer, no que depender de mim será a melhor possível. Mas na real, a Manaus que vem por ai nos próximos vinte anos é ainda mais caótica. Como você se vê daqui há 10 anos? Em paz comigo, desejo estar ocupado com outros assuntos mais importantes como por exemplo o bem estar da minha família. Quero ter outro filho. E sim, gostaria muito de estar casado. Não preso, mas casado e feliz. Viajando o mundo indo até a esquina ou até o Japão. Fazendo algo de bom pelo mundo e para as pessoas.
Renata Paula

Author: Renata Paula

Jornalista profissional, editora de conteúdo do Portal Xibé e repórter nas melhores horas.

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