Abrigo

Entramos no carro depois da festa e ela achou que o breve caminho até a minha casa era o divã que precisava pra me contar da sua vida. Ela tinha acabado de me conhecer, não trocamos mais que algumas palavras entre a música pop e funk que eu e a amada dela dançávamos entre cervejas. Eu tava acostumada com isso, com pessoas se abrindo pra mim, sendo que muitas vezes éramos completos estranhos um ao outro. E eu tentava ser o abrigo seguro onde elas podiam fazer isso. Eu sempre tentei ser o que os outros precisavam e não encontravam por aí. Sempre fui o que eu queria que fossem pra mim, esperando que algum dia alguém também o fizesse.

E ela me narrou toda a trajetória, até aquela noite. Me contou dos sentimentos por aquela sentada no banco do passageiro ao seu lado e por quem veio antes dela. Eu entendia tudo. Meu silêncio era confortável como um abraço. Eu entendia tudo e pra piorar, estava na mesma situação. O sofrimento dela era o meu. E parecia atuação se reconhecer nas palavras do outro mas manter distância o suficiente pra não chorar no ombro e chamar pra mesa de bar. Eu mal consegui me esconder quando ela disse que "Não ser correspondido... Dói..." de um jeito que essas três letras tiveram a duração de dez. Com um pesar no tom que fez meu coração murchar dentro do peito.

-É foda. -eu deixei escapar -É foda!" -ela repetiu quase como um aperto de mão

Engoli as lágrimas que beiraram meus olhos. Questionei as divindades que me fizeram assim, com tanto pra dar, mas só querendo dar pra quem não tinha qualquer interesse em receber. Me despedi das duas e só um resto de mim se arrastou até em casa, se jogou na cama e se embalou em promessas piores que resoluções de ano novo, pior que a dieta que vai começar na segunda-feira. Eu não vou mais amar. Gotas de sal na minha boca. Minha alma se despedindo de mim na janela.

Author: Ells

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