A Viagem Eterna

josué grandesAcostumado com a solidão das “matas virgens de Tabatinga”, Josué Grandes traz no rosto e nas memórias uma típica vivência amazônica marcada pelo isolamento geográfico e social. Sentado em um bar no Centro de Manaus, na companhia de um ex-Paraquedista do Exército Do extraordinário milagroso ao macabro repetente. Conheci vários nessa mesma situação. Por tanto nada que me fizesse chorar. “Ei Bruno, senta aqui e toma uma cerveja com a gente!”. Ainda estava com a máquina fotográfica na mão quando ouvi o primeiro convite. Somente  após observar melhor o ambiente ao redor sentei à mesa com eles. Sem pestanejar o colega paraquedista logo revelou. “Esse cara ai acabou de chegar de Tabatinga. Sozinho no mundo. Ontem ele dormiu lá em casa. Mas hoje não vai dar”, dizia com pesar ao enfatizar que morava na casa da sogra. Nesse instante observei pela primeira vez o rapaz e fui mais fundo na minha empatia como Josué. Lembrei-me do meu Avô que desembarcou em Manaus na década de 1950 em uma situação muito parecida, proveniente de Benjamin Constant. Com palavras de apoio tentava animar o rapaz. Queria deixa-lo mais a vontade e fazer daquele breve momento uma oportunidade para compartilhar minha insólita experiência de vida. Tinha boa vontade. Fiquei por ali e no final sai ainda mais impressionado com a destreza e resignação de Josué que mostrava as marcas no seu corpo de quando trabalhava vendendo madeira no interior de Tabatinga. “Já fiz de tudo no meio do mato. Mas sabia que por ali não conseguiria nada melhor. Minha mãe morreu. Meu pai vive no Peru. Vim tentar a sorte em Manaus”, disse o rapaz que estudou somente até o primeiro ano do ensino-médio. Bem ao lado todos os seus pertences fabricados na China. A mochila pequena, um par de tênis em uma sacola plástica e, só. Perguntei: Onde tu vais dormis hoje? Ele disse não saber. A mulher que vende sanduiche e panqueca tentava explicar com detalhes tudo o que sabia sobre o centro. “Por ali por baixo perto da Matriz é muito perigoso. Não vai moscar* por ali. Tem que ficar ligado!”. Perguntei há quanto tempo ele estava em Manaus. - Uma semana! E o que tem feito? O que faz para ganhar dinheiro? - Vendo água no sinal! As respostas eram secas e o olhar grosso parecia um mingau de milho com  canela. A conversa não fluía. Seguia em frente com silêncios e muita introspecção. Quando um maluco passava com a camisa preta, todo descabelado e aquela cara from hell,  Josué se mostrava um pouco inquieto e ansioso. “Cara, só no tempo que estou aqui já vi  e aprendi um monte de coisas”, ressaltou. Onde tu vais dormir hoje? - Não sei. Eu não vou dormir! Nesse momento exclamei. Rapaz, não pode! Tu tens que dormir, ainda que duas horas. Você precisa desligar a mente para acordjosué grandes cerveja cigarroar e encarar o dia amanha. Então, para minha surpresa ele conferiu a garrafa, viu que estava vazia e levantou imediatamente para pegar outra. No balcão do bar frequentado pela nata dos malucos, Josué estava visivelmente deslocado e perdido. Mesmo assim, com paciência e algum dinheiro no bolso trouxe um litro de cerveja e um cigarro na mão. O véu da noite ficou cada vez mais extenso. O clima esquentava embalado pelo rock e o agito dos transeuntes que não paravam um segundo. Pelas esquinas próximas todos os tipos de drogas e histórias.  Gente branca, morena, cabocla. Ladrões, universitários e até alguns policiais à paisana. Putas, cafetinas e traficantes. Alunos de uma faculdade próxima. Velhos conhecidos. Entre uma mesa e outra, conversas, destinos que se cruzam e se separam para nunca mais. Dei uma volta no largo à fim de sacar algumas fotos. Quando retornei o lugar estava vazio. Fiquei com aquela lembrança. A pequena mochila com um par de tênis em um sacola. A solidão da cidade grande. Os desafios físicos e morais que este jovem terá que enfrentar sozinho. Meu avô venceu na vida. Chegou sozinho e venceu. Porém eram outros tempos. Manaus de 1950 era um lugar mais seguro para conviver. Hoje a morte pode te encontrar em qualquer esquina. Espero que ele procure os Peruanos que indiquei. Uma família de comerciantes que atuam em um bairro distante talvez pudessem se compadecer da história do rapaz e ajuda-lo. Enfim, Como Josué Grandes  tantos outros já passaram. Tantos outros ainda virão. Foi por estas águas que chegou por aqui o garoto José Evangelista. Venceu na vida. Casou-se teve cinco filhos. Uns o chamavam de seu Zé, para mim simplesmente e para sempre. Meu avô. Boa Sorte Josué Grandes! Galeroso* Sujeito que anda em grupo à fim de provocar a desordem por onde passa. Moscar* Vacilar em alguma situação onde precisa estar atento.  
Bruno Marzzo

Author: Bruno Marzzo

Alguém que colheu tudo que plantou. Mas não plantou tudo que colheu! Não entendeu? Relaxa, isso não fará a menor diferença por enquanto! Site: http://brunomarzzo.blogspot.com.br/

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  • Bárbara Borges

    Torço para o sucesso de Josué.