A Marca de Caim: A Chaga Originária Das Cidades

Gênesis 4:8

“Contudo, propôs Caim a seu irmão Abel: “Saiamos, vamos ao campo!” E, quando estavam no campo, aconteceu que Caim se levantou contra Abel, seu irmão, e o matou.”

Gêneses 4:16b

“E o SENHOR colocou em Caim um sinal, para que ninguém que viesse a encontrá-lo o matasse”.

Gêneses 4:17a
“Então Caim coabitou com sua mulher, ela engravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade”

1 Jo 3:15
“Toda pessoa que odeia seu irmão é homicida”,

1 Jo 3: 12a
“E não sejamos como Caim, que pertencia ao Maligno e assassinou seu irmão”.

Nesse início de século, a questão que mais se tornou problemática e alvo de estudos e investigações de várias especialidades de conhecimento (sociologia, economia, arquitetura, ecologia, etc), sem dúvida, foi a realidade das grandes cidades, fenômeno que acompanha a nossa história a partir da emergência da Revolução Industrial. Porém ela, a cidade em si, no que tange suas primeiras aparições e propagações, está conosco desde que decidimos por deixar as estruturas tribais adaptadas aos meios com dominante contexto natural (campo, selva, comunidades de patriarcado e matriarcado de composição familiar, feudalismos, etc) e entramos, como nossa nova forma de povoar e ocupar os espaços, para a experiência da urbanid12734036_949940991741788_6896693459928466434_n (1)ade, tanto no tocante as embrionários aparelhos das Cidades-Estados do mundo antigo quanto, mais modernamente, nos complexos Estados Nacionais.

Estes últimos, os Estados Nacionais, geraram as mais petrificadas e caóticas ambiências de vida em sociedade: as megalópoles, essas Maquetes Concentradoras de Humanos. Ao receber, dias atrás, a visita de meu amigo Pedro Cacheado, que chegou com a companhia da despojada e cintilante Brenda, para uma conversa profissional, dentre os assuntos paralelos que tratamos enquanto eu preparava nosso almoço às pressas, falei sobre meu ponto de vista concernente a dinâmica de criação e condução em vivenciar a experiência da cidade, seja ela antiga ou contemporânea, e como argumento, tomando por base o relato bíblico da tragédia envolvendo o assassinato de Abel por seu irmão Caim, apresentei a afirmação de que o ato fundador, a lei primordial e a energia motriz que tende a movimentar a constituição e motivação ao se fazer uma cidade, é o Estigma Homicidiário, ou Marca de Caim, cujo efeito moral (a busca da fuga e da inconsciência do peso da culpa ou de receber o devido juízo) se precipita e se plasma no Espirito de Suicídio Coletivizado ou Pulsão de Morte Socializada que assumirá expressão material nas forças que ergueram os alicerces e alimentarão os sistemas a manterem de pé a arquitetura de uma cidade quando em lugar da fraternidade prevalecer o fratricídio: a morte do espírito fraternal. Isso significa dizer que, praticado o homicídio como verdade de vida individual na relação com a diferença e o diferente no Outro, ocorre uma tendenciosa possibilidade dessa energia ser a base sobre a qual se estabelece a vida coletiva como realidade de morte.

Trocando em miúdos, ou dito de outro modo: ainda que não aplicado como regra universal ou verdade absoluta em todos os casos de formação de cidades, mas unicamente servindo de explicação possível para determinados modelos societários, a prática do homicídio ou o ato criminoso de tirar a vida de alguém gera, via de regra, no seu praticante a procura por ignorar ou redimir seu ato, isto é, seja se concedendo o esquecimento pelo o que fez ou, em lugar disso, se considerando digno de julgamento e punição.

Em ambas situações, antes de matar o outro, o indivíduo assassina A Si Mesmo por não mais ter a imagem desse Outro (indivíduo) como seu semelhante dentro de sua consciência pessoal e também porque, para ele, o assassino, somente com a morte desse Outro-Não Mais Seu Semelhante é que seu Ser se afirmará está vivo. Quem põe fim ao existir de uma pessoa, para isso, tem que arrancar primeiro, de seu interior, a 12710930_949941185075102_3748933011864802176_oVida No e Pelo Direito que consistiria em admitir sua Semelhança nessa pessoa, nesse Outro, sua igualdade e mutualidade com e nele, de modo que, ao ponto que chegou a matar esse Si Mesmo Do Outro Nele, ou seja, o Código De Fraternidade, passa-se a segunda disposição, que se trata de não mais reconhecer o Direito À Vida dessa pessoa, desse outro. Dentro desse circuito interno de homicidização (mata o ser humano que há em mim e matar o ser humano diante de mim, na dimensão da interioridade pessoal), suscitou-se, ao mesmo tempo e de uma só vez, uma Dupla Matança, sem que ainda entrassem armas ou se derramasse uma gota de sangue, pois a marcam de Caim se movimenta sem fazer alardes nem barulhos. Visto que, num primeiro momento, chegou –se ao ponto de efetivar o suicídio de si em relação ao outro como parte de um si mesmo, que se desferiu o golpe motivacional por meio do qual se realizar a atitude interna de se matar através da anulação da humanidade/fraternidade em se ver no outro e com o outro, e uma vez que, num segundo momento, implementou-se um assassinato interno do outro em relação ao seu eu e desse homicídio declarado ainda que apenas incubada e psicologicamente, faz-se forçosamente decretado e inadiável acontecer, em vias de fato, um desfecho de mortalidade desse outro a fim de meu eu se sentir com vida, de modo que somente ao praticar esse homicídio do outro, da pulsão da morte emergindo para o nível histórico da existência, é que me considero afirmado e de alma lavada. Numa equação simplificada: em primeiro lugar meu Eu do Outro é morto em mim, em segunda lugar o Outro de Mim é morto para o eu, e por consequência como efeito final, o outro é morto por mim através do meu Eu. É com essa lógica e por processos que se define e acontecer o Estigma da Morte ou Marca de Caim.
Após praticado o homicídio, seu autor entra em estado de amnésia pelo o que fez, podendo ter ou não algum teor de culpo nisso, mas também é possível que se sinta extremamente responsável pelo delito cometido, o que é passível dele procurar pela justiça e se entregar a ela para receber uma sentença que lhe alivie a carga de autocondenação a fim de expiar sua culpa, ou apenas dele carregar consigo essa culpabilidade mas prosseguir sua vida sem maiores transtornos nem necessidades de redenção. Isso porque, de novo emprestando dessa mítica do assassinato inaugural sob a terra, para a essa analise exposta acima, quanto ao desdobramento do episódio bíblico em que Caim tira a vida de Abel, registra-se que depois de uma acareação – confrontação de duas ou mais testemunhas – no referido fato, entre a consciência de Caim e a Palavra do Divina -, uma tattoo/estigma/marca é imposto a Caim que se entregou ao seu instinto assassino de mata o irmão, não como um ato punitivo a ele, mas como sinal de salvaguardá-lo, de protegê-lo, de livrá-lo para que não seja vítima de igual crime.

Logo depois de ser impresso em seu corpo esse Símbolo Evocatório da Morte, o qual lhe deixaria sob uma Condicional Existencial que o tornava Intocável de sofre a mesma fatalidade de seu irmão, ele foge, sai para terras distantes e uma vez chegando um território que lhe pareceu apropriado, forma família e constrói uma cidade.

Nesse percurso que se estende da pulsão inicial de matar que surge em Caim, passando pela execução de seu desejo homicida até essa sua 12697347_949941251741762_5062447460298728747_opartida e fundação de uma cidade, obra de seu querer e fazer, assim como o assassinato por ele exercido, chego novamente a primeira parte da ideia vital que expus no início, a qual extrair desse narrativa do primeiro homicídio: a afirmação de que o ato fundador, a lei primordial e a energia motriz que tende a movimentar a constituição e motivação ao se fazer uma cidade, é o Estigma Homicidiário, ou Marca de Caim, cujo efeito moral (a busca da fuga e da inconsciência do peso da culpa) se precipita no espirito de suicídio coletivizado ou pulsão de morte socializada que assumirá expressão material nas forças que erguerão os alicerces e alimentarão os sistemas a manterem de pé uma cidade.

Olhando para os trajetos e passos que dão alicerces, muros, paredes, tetos, ou seja, as vias de formação e funcionamento de cidades, não é raro ou estranho se encontrar a escravização (o morrer do outro no plano da igualdade em ser livre) e a guerra (a morte do outro no plano da igualdade de permanecer com vida) no processo a conceder origem e vitalidade às cidades, independendo de seu tempo e lugar na história humana, em virtude de que das cidades do Império Babilônico às do Império Americano, sejam as do Império Inca sejam as do Império Otomano, das cidades das Capitanias Hereditárias do Brasil as das Colônias Franceses na África, das Cidades Estados gregas as cidades dos Estados Nações em todo mundo, a Marca de Caim, as políticas de eliminação/homicídios/genocídios, agem e se afirmam como Pedra Fundamental em quase todas as situações que impulsionam e surgimentos de cidades.
Para concluir, abordo os âmbitos e as esferas dessa Marca de Caim a se projeta nos sistemas e dinâmicas atuantes na vida das cidades, conferindo-lhes gerência e funcionamento. Todavia limito-me a citar somente os tópicos e as circunstâncias genéricas dentro das quais se infiltra essa Marca de Caim no que chamamos de Cidades Modernas, deixando para as mentes e curiosidades de quem quiser a avaliar o onde e o como essa Marca se fez presente nas cidades de outras épocas e tempos, as quais, ao meu ver, tem curta distância e diferença das que existem no momento vigente no tocante a sintomática desse Estigma Homicidiário.

Para isso, um exercício simples e superficial em identificar a maneira e os processos que caracterizam segmentos como transporte, segurança, mídia, meio ambiente, transações econômicas, espaços públicos, pleitos eleitorais, relações amorosas, criação de bairros em periferia, cultura de massa, e poderíamos ir aos aspectos mais destacados e diferentes a compor a vida individual e de uma cidade em nossos tempos, põem-nos diante da realidade de haver uma significativa dose e presença dessa Marca de Caim, desse Estigma Homicidiário, dessa Pulsão de Morte em todos essa setores a estruturar e pôr em movimentos tanto nossa cidade de Manaus como nossas cidades pelos interiores, tanto nosso Brasil e mundo à fora. Claro que não se entende que atue essa marcas/estigmas/pulsões nas engenharias das cidades como um Fatalismo PsicoSocial nem como Lei Inalterável da Natureza Humana, mas apenas na categoria de um Força Imperativa a operar de maneira muito Implacável sob a psique e a vivência em sociedade a partir do momento em que a fraternidade perder o Sentido de Ser entre nós.
Que cada um, ao seu modo e com suas percepções, descubra e combata os espíritos/energias/pulsões de Caim que agem, influem e comandam, com meios e instrumentos visíveis e invisíveis, às realidades que se configuram dentro e fora da gente, nos níveis que atinge da motivação psicológico as estratégias político-ideológicas, dos planos econômicos as técnicas de exploração dos recursos naturais, do viver matrimonial à pesquisa cientifica, porque, onde houver a Marca de Caim ai logo deixará de haver Vida.

Daniel Fredson, Quarta-Feira de Cinza de Carnaval de 2016

Author: Daniel Fredson

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