12 lições sobre o Hip-Hop em Manaus

No dia 12 de Novembro, é comemorado o Dia Mundial do Hip-Hop, o movimento artístico que ganhou força nos Estados Unidos e conquistou adeptos de todos os cantos do mundo, celebram 38 anos de militância e manifestação cultural. A união do Bboy, o MC, o DJ e o grafiteiro é essa força, que move as montanhas do preconceito, distribui sementes de autoconhecimento, bebe da fonte da criatividade e usa como principal escudo a realidade.

1) Ensaio

O graffiti colore a cidade e expressa um ideal urbano muito latente na capital, mas a hierarquia dos locais também é um dos assuntos determinantes. As vielas, becos, fundos de terreno, são os primeiros ensaios dos artistas da lata. Nem sempre sai como esperado, mas como o caderno é a parede e a prática leva a perfeição, as comunidades servem como campo de treinamento e laboratório pra que no dia que ele chegue no centro, a coisa mude de figura e ele consiga arrancar clicks e o máximo respeito entre os companheiros. Destaco a Zona Norte como um dos maiores celeiros de novos grafiteiros, quem passa pelas ruas da Cidade Nova, Francisca Mendes, Renato Souza Pinto e adjacências consegue ver até nos anúncios de mercadinhos, açougues e outros estabelecimentos comerciais, o incentivo dessa arte na divulgação dos serviços.

Ude, Bonus, Zoio, Blur, Mais, Dick e Nob.

Ude, Bonus, Zoio, Blur, Mais, Dick e Nob.

2) Crew

Identificação social é um dos fortes indícios na formação da personalidade do jovem, a representatividade na conquista do inalcançável e no fomento de uma ideia. Quem não lembra da enxurrada de ‘E o Rap...’ que minou a cidade? Duvido muito que os músicos do rap levantem essa bandeira, mas aconteceu. O vandalismo ainda é uma barreira mas se estivesse tudo certo ninguém iria precisar protestar. Escalada, rapidez e o bombardeio, seja lá qual for a tendência, as siglas da ‘turma’ também são sempre valorizadas.

3) Hierarquia

Até quando a ousadia já vem nas avenidas, existem certos lugares para pichadores e grafiteiros, vide o exemplo do viaduto do Boulevard, próximo ao Olímpico Clube, na avenida Constantino Nery. Quem olhar aquele lugar de cabo a rabo, vai ter a sensação de anos de aprendizado ao longo dos desenhos. Lá dá para encontrar desde os primeiros riscos escorridos de quem ta ‘aprendendo’ a fazer o próprio nome até um gigantesco graffiti com uma reflexão sobre a fome e a miséria na cidade.

4) Grife

Botar a mão na massa e produzir, os fomentadores do graffiti poderão estampar no peito desenhos que muitos já conhecem pelos muros da cidade. Um dos principais artistas da cidade é o grafiteiro Silvandro Godo, o cara lançou recentemente uma coleção de camisetas com os melhores de seus desejos, quem também tem uma linha de camisetas é o artista Di Paradise.

camisetas5) Batalha

De uma caixinha de fósforo aos enormes paredões de som, as batalhas de rima são as atividades que mais me chamam atenção em Manaus. Um exemplo que deixou todo mundo de queixo caído foi na batalha final da última edição do Festival Até o Tucupi, na Ponta Negra. A trajetória ribeirinha ganhou vez nas rimas e por incrível que pareça as redes sociais incluem a interatividade do peixe com o morador, deixando de lado os anseios da tecnologia digital. Cito a resistência da Chacina de MCs, que atravessa galáxias e o conhecimento, nem se fale...

6) Realidade

Ela vem e quando vem, muitas vezes até incomoda. A ideia é essa, cutucar a ferida mesmo se ela for sangrar. Antes qualquer problema poderia ser resolvido na palavra do homem, a honra do cumprimento da promessa era maior do que qualquer documento, registro ou dinheiro. Hoje a sociedade encara diferente, mas quem resiste a essa voz apresenta uma revolução no conteúdo e dialeto. A liberdade de expressão é confundida com falta de respeito e a lealdade perdeu espaço para acuidade sentimental. A abrangência segue tão sincera, que não importa se vem do condomínio ou barraco, a reclamação é legítima.

DSC_8588

Abraão Carlos - Manaus

7) Dança

A expressão corporal é diferenciada com os bboys e bgirls, a criatividade vai dos pés a cabeça, tendo boas passagens pelos quadris e braços. O break é a o esporte do Hip-Hop, é a liberdade da alma e a garantia de que todos podem estar incluídos em um só caminho. A relação da dança de rua com a popularidade do estilo pode ser visto como uma vertente do Hip-Hop, que há poucos anos, cada um de seus elementos tem ganhado ainda mais espaço na mídia.

8) Passinho

Originários do break, os bboys da nova geração, mantiveram o figurino colorido, as acrobacias corporais e o batidão do bumbo que toca lá no coração e não deixa ninguém parado. Expressar por meio da dança é a principal característica da vida cultural, do professor de dança de rua Abraão Carlos, 26, ele que é brasiliense e vive cumprindo missões religiosas em muitas vezes, utiliza do seu talento para explicar as evoluções da vida. Os nomes não são simples de decorar, mas Abraão dá uma forcinha: “Tem o crump, a própria mímica, freeze, popping, até ioga, entre outros que os bboys utilizam”, acrescenta Abraão que faz parte do grupo de dança Urban Style.

9) Quinto elemento

O hip-hop é baseado prioritariamente em quatro elementos, mas o conhecimento é um requisito implícito para todas as especialidades. É com ele que a sagacidade rouba a cena numa batalha de free style ou vem em formato de respaldo quando um artista sai da rua e adentra uma galeria. Por mais que a plataforma, não exclusivamente o rap, o conhecimento da história, da gramática e os ditos populares são fundamentais para a transmissão da ideia.

DJ Mc Fino

DJ Mc Fino

10) Na agulha

Quando eu estava no ensino médio, meus colegas de classe ensaiavam os primeiros passos na formação de uma banda de rock. A escolha dos instrumentos, definição de repertório, dinheiro para estúdio, tudo era preciso na hora de formar uma banda, o rock não acabou mas essa sede diminuiu. Hoje em dia, o prestígio em tentar ser um rap star é cogitado, a juventude está aprendendo com as agulhas e os discos de vinil e estão cada vez mais, afim de produzir conteúdo exclusivo e autentico. Meu amigo DJ MC Fino é um dos principais garimpeiros dessa nova geração, sem medo de não acompanhar, ele incentiva a produção e apresenta ferramentas que os veteranos já usam.

 11) Rádio nacional

Um bom presente em homenagem ao Dia Mundial do Hip-Hop ganhei hoje de manhã. Fiquei feliz quando entrei no busão, sintonizei a rádio Rap Nacional e ouvi uma música da Humilde Crew com o mesmo prestigio de uma rádio FM. Claro que em termos de abrangência, eu queria mesmo que a música deles estivessem numa FM da vida, mas só o fato de ser uma rádio especializada já me senti prestigiada. Quem quiser ouvir mais sobre o som dos caras, aí vai um link https://soundcloud.com/humildecrewrap

12) Black White

Preto no branco, preto com branco, seja lá a combinação preferida, esse final de semana haverá o evento Black White no próximo dia16, de 9h às 18h, na Escola Municipal Ulisses Guimarães que fica no cruzamento da rua 42 A e 27 do Mutirão, Zona Leste. Quem se apresenta, são os grupos Reação MCs, Conexão Zona Norte, Ritmo e Poesia, Isaac Mesquita e discotecagem de Negro Lamar, MC Fino e Lecons. O evento vai contar com mais de 30 grafiteiros e um bate-papo “O que Zumbi tem a ver com hip hop”. Fica a dica!

evento

Renata Paula

Author: Renata Paula

Jornalista profissional, editora de conteúdo do Portal Xibé e repórter nas melhores horas.

Share This Post On
468 ad